
Neil Gaiman diz que deuses morrem quando não possuem mais devotos, gente que os venera, gente que acredita neles. É a mesma coisa com escritores. Alguns logram de ser imortais, com fiéis leitores que apreciam as linhas deitadas antes, hoje e sempre. Outros escritores caem no vazio do esquecimento, perecem dia após dia, somem num soçobrar inaudível, indistinto e imperceptível. É um ponto no meio de um texto.
E some. O último ponto é um ponto final.
Ainda hoje falando sobre o próximo filme da Supergirl, perguntaram se ela seria depressiva e se fosse isso não iam gostar. Eu disse que tinha escrito sobre ela. A resposta foi:
Alguém ainda lê blog?
— Julio Cesar Ferranti (@JCFerranti) April 1, 2026
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E esse talvez seja o fim de quase 20 anos escrevendo. Eu fui o primeiro antes dos muitos que começaram, o último dentre poucos que restaram.
Olho para trás com um inspirar, uma retenção da respiração, e um suave exalar por entre os lábios num surdo suspirar desalentoso. O fim há muito anunciado e que é sustentado com força e coragem dia após dia e que pessoas que foram fiéis antes, hoje estão ocupadas dando atenção a jovens falando besteira, pois, assim se sentem mais novos e contentes.
Olho para a sala, os móveis cobertos com lençóis, olho para a cozinha, com as cadeiras sobre a mesa, também protegidos por um lençol branco, mas amarelado. Os passos ecoam pelo ambiente, pois nada mais há que absorva os sons de alegria e contentamento que era escrever. Nenhuma foto nas prateleiras, nenhum diploma, nenhum troféu, nenhum reconhecimento. O som não ecoa mais, pois tudo cairá dentro em breve à irrelevante não-existência.
Ao fundo, a impressora já desligada cuspiu uma última folha impressa para que arqueólogos digitais revolvam o passado e descubram. E nessa folha se pode ler:
Alguém ainda lê blog?
Não aprendi dizer adeus
Mas tenho que aceitar
Que amores vem e vão
São aves de verão
Se tens que me deixar
Que seja, então, feliz
Não aprendi dizer adeus
Mas deixo você ir
Sem lágrimas no olhar
Se o adeus me machucar
O inverno vai passar
E apaga a cicatriz

legal o post de 1º de abril
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