
Nova York é aquele lugar esquisito, cheio de pedantes, cuja única atração são prédios. É tipo São Paulo, mas com gente (só um pouco) mais civilizada. Um dos bairros mais esquisitos é Staten Island, aquele canto de Nova York que todos lembram que existe só quando o GPS erra; é basicamente o primo esquecido do Bronx (que já não é lá essas coisas), o apêndice da cidade que só serve pra dar estatística bizarra e fazer o resto da metrópole pensar: “Alguém ainda mora lá… por escolha?”. Staten Island é tipo Capão Redondo; enquanto quem mora no Capão Redondo acha que é paulistense que mora no Morumbi, o statenislandistas acham que moram em Park Avenue.
É o tipo de lugar onde, se você disser que foi atacado por um peru selvagem, ninguém duvida. No máximo, perguntam: “De novo?”
“Péra aí? Um peru? Glu Glu? Daqueles imortalizados pelo Sérgio Mallandro?”
Sim. Um peru. Não um figurante de filme B, não um político escandaloso, um peru de verdade, com penas, bico, ódio psicótico incontrolável e uma agenda pessoal de vingança.
Noel Colon, o protagonista (ou melhor, a vítima) dessa crônica de horror avícola, estava apenas tentando ir pro trabalho. Acordou cedo, comeu suas 10 mil quilocalorias de café da manhã (aprendi com os filmes), preparou a mochila, talvez tivesse até aquele lanchinho de pasta de amendoim com geleia na sacola. Mal sabia ele que um peru iria intercurso com ele.
As câmeras de segurança flagraram o momento em que o Peru de Satã resolveu encarnar o espírito de John Wick e perseguiu Noel como se ele fosse um saco de milho com pernas. O vídeo mostra o cidadão em pânico, tentando escapar, correndo em círculos, gritando por socorro, com um peru imenso indo atrás dele, atacando-lhe pelas costas.
O homem tentada fugir, a porta não abria. O peru não desistia. O dia mal tinha começado!
“Normalmente eu não tenho medo de nada”, disse Noel à imprensa, claramente tentando salvar sua reputação. Meu queridíssimo… a gente viu o vídeo. Você correu como se fosse figurante de “Pânico 7: A Vingança de Peruardo”.
Mas calma! Porque toda desgraça precisa de um contexto emocional: o peru era fêmea. E estava defendendo, veja você, um ninho com ONZE ovos. Sim, onze! 11! Onze perus e um segredo. Aquilo não era um ninho. Era um time de futebol, um condomínio, um berçário militarizado. E o ataque? Uma operação defensiva tática.
A perua não quer papo, não quer selfie, não quer migalha. Sim, é uma perua diferenciada. Ela sequer usa roupa de oncinha e bolsa falsificada da Victor Hugo. Ela quer distância, respeito e que ninguém ouse pisar no raio do perímetro de segurança dela.
Desde então, Noel vive a vida com um novo trauma: passar por galinhas, pombos ou qualquer bicho com bico virou um desafio psicológico. Ele agora atravessa a rua sempre que vê uma sombra em forma de ave. Agora ele teme que outros perus tentem penetrar em sua vida.
Mas eu quero saber mesmo se a peruzadinha neném ficou bem e todos eles estão dando peruadas por aí em assuntos que não lhes diz respeito.

Um comentário em “Homem dá as costas e um peru vem com violência por trás”