Uma eulogia

Eu me lembro quando te vi pela primeira vez. Você era brincalhão como toda criança. Gritava alto, mordeu os meus sapatos e arrancou as minhas meias. Isso faz mais de doze anos, e me lembro como se fosse hoje. Eu vi quem vive era é você viu quem eu era. A diferença é que você não se importou com o tipo de pessoa que eu era, mas eu percebi o tipo de cãozinho que você era.

Você não era como os outros cãezinhos, mas nenhum cãozinho é como os outros. Não para os seus tutores. Não para os seus amigos.

Esta é uma eulogia para o meu amiguinho. Para o meu chapa. Para o meu Napoleão.

Eu comi pizza contigo, apesar do que o veterinário falava. Era um segredo só nosso. Um segredo que todos conheciam, inclusive o veterinário, mas quem se importa? Você era chegado a um refrigerante, né? Vamos olhar pro lado. Só um pouquinho, para molhar o bico, ok? Não conte a ninguém. Shhh

Você jogou bola comigo, era um nenezão. Claro, jogava melhor que eu, mas eu, óbvio, dizia que estava te dando uma chance. Como você jogava bem, meu amigo!

Você nunca reclamou de tomar seus remédios e vacinas. Mas um dia era eu quem estava doente. Depois de tomar vários remédios, passei um dia inteiro dormindo. Ao acordar, eu vi você, cuidado de mim, com seu focinho me cheirando, do meu lado, como quem diz “tio, você está melhor?”

Eu estava. Estava bem assistido pelo meu enfermeiro. Obrigado, meu amigo, meu chapa.

Você agora se foi, mas sua mãe estava contigo. Eu não estava quando você deu seu último suspiro, mas eu te acompanhei quando estava dodói no hospital, ainda que longe. Eu te acompanhei no seu velório. Eu te acompanhei no seu último momento quando seu corpinho virou cinzas para seguir o rito do que todas as religiões pregam, e você merece todas as homenagens de todas as culturas, de todas as religiões.

Você era meu chapa… Era, não! Você continua sendo meu chapa. Você chegou em casa já com o nome de Napoleão, e eu não deixei que trocassem. Napoleão sempre foi um nome show de bola, e eu insisti em que mantivessem. Talvez nosso vínculo começou aí. Talvez não. Não importa!

A ICAR não tem uma posição formal com o destino das almas de nossos bichinhos, mas São Francisco é o seu padroeiro. Yama, dos hindus, nada terá a falar de você, meu chapa, e permitirá que você entre em seu reino. Buda o receberá risonho, e você pulará vários círculos cármicos e entrará no Nirvana.

Pelos Kardecistas, o reino da glória estará garantido até que você reencarne, de forma a levar paz, amor e alegria a todos que passem por você, pois, você, meu amigo, meu chapa, sempre foi assim..

Eu não vi quando você partiu, mas estive nos momentos que seu corpinho virou cinzas, pois das cinzas às cinzas. Foi-se o corpo, as lembranças ficam, as boas lembranças. As lembranças de uma criaturinha boa, pura e amiga.

Obrigado por ter-me aceito com todos os meus defeitos. Eu nunca o esquecerei, meu amiguinho, meu chapa.

7 comentários em “Uma eulogia

  1. Napoleão tinha a carinha de sapeca característica de todos os good boys do mundo. Ele tá contando pra todos os novos amiguinhos que ele fez na Vida Além da Vida sobre o amigo maravilhoso que ele tem aqui e que agora é o protegido pessoal dele. =)

  2. Eu sempre leio os artigos do ceticismo, mas esta é a primeira vez que eu realmente escrevo uma mensagem. Meus pesames, sinto muito em ler este artigo. Eu já perdi mais de um amigo (a) canino (a), e o sentimento sempre foi devastador. Eu também mantenho as cinzas deles aqui perto. Posso ver as urnas deles daqui mesmo. Mantnho as coleiras deles em cima de cada urna. Apenas posso desejar que voce se sinta melhor depois do período de luto, não importa a questão religiosa. Algumas religiões dizem que animais não tem alma, como se isso fizesse alguma diferença. Mas, se seres humanos têm alma, e fazem as coisas horríveis que fazem, não sei se ter alma tem uma importância tão grande assim.

  3. Cara, entrou um cisco no meu olho, so um momento….
    ….eu perdi meu grande companheiro em 2008 um Cocker chamado Buzz de apenas 5 anos, ate hoje tenho saudades dele, jurei nunca mais ter um bichinho, pois sofri muito com a perda precoce. Mas meu tio teve Alzheimer em 2016 e me “obriguei” a cuidar do Linguiça um vira lata amarelo, que era dele, ao qual passei a chamar também de alemão, hoje com 12 anos. Meu tio hoje não esta mais entre nós, mas o Alemão Linguiça ta aqui meu outro companheiro.
    Sinto muito pela tua perda a dor uma hora passa, mas as boas lembranças ficarão pra sempre.

    1. Ao ler este comentário o machão se desfaz. Só quem tem animais de estimação sabe que o sentimento deles é sincero e sem segundas intenções. O que atraí é a inocência, do gostar sincero, uma eterna criança. Seguindo o rito da vida, com as boas lembranças de quem nos deixou.

  4. Poxa vida, um texto como esse justamente quando vai fazer um ano que meu gatinho se foi.
    Desculpa, mas não me aguentei aqui. Espero um dia poder reencontrá-lo.

  5. Tive que parar o trabalho para tirar o cisco no olho… Espero que você e família encontrem conforto. Não saberei lidar quando a hora da minha AUmiguinha chegar. Deveria eu estar me preparando para isso? Não sei, prefiro nem pensar. Enquanto isso, vou aproveitando cada minuto ao lado dela, pois a vida é breve e logo todos voltaremos a ser poeira de estrelas.

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