Analisando séries e filmes de super-heróis XXV

Brightburn: Quando Kal-el deu errado

Realidades paralelas não legais. Uma nova forma de ver uma história, ou como lidar com os personagens numa história alternativa. Algumas fofas, algumas são dark, bem dark. É o caso de Brightburn, que recebeu o subtítulo “Filho das Trevas”, para ficar bem claro que vai ter algo de muito errado com o moleque. É um filme de terror, isso já digo logo de saída, mas não é com seres sobrenaturais. Não tem monstros de outra dimensão, nem fantasmas, nem bruxas ou qualquer coisa que você pensa que seja normal num filme de terror. Nesse caso, o ser mais amedrontador, sinistro e pérfido é… Uma criança, como todos os bons filmes de terror.

Antes de continuar, vem aquela ressalva: vai ter spoiler nesta bagaça, mas é um filme de 2019, então, não é tão spoiler assim. Ou é?

Brightburn saiu em 2019, tendo sido produzido pela Sony Pictures e distribuído pela Screen Gems, subsidiária da Sony. A produção custou ridículos 6 milhões de dólares e só na semana de estreia faturou 7.845.658 de dólares. Isso em casa, ou seja, já pagou a produção. No total, faturou US$17.300.439,00 em casa e em todo mundo faturou US$32.893.421,00. Eu chamo de sucesso, ainda que despretensioso. Pagou as contas e abriu uma nova possibilidade.

O filme foi dirigido por David Yarovesky, escrito por Brian e Mark Gunn, produzido por James Gunn; aliás, Brian e James são irmãos, e Mark é primo deles. Por sinal, James Gunn está muito confortável na temática super-herói, ainda que este não seja um filme de super-heróis. É um filme abordando o que aconteceria se algo não saísse como esperado. A qualidade do filme em termos de efeitos visuais fica bem claro ao se ver quanto custou a produção. Muitas vezes o uso de boneco é absurdamente na cara e parte do que acontece é nas sombras ou implícito. No mais, qualquer um que tenha brincado uma semana com o Da Vinci Resolve consegue reproduzir.

Sim, é um filme barato, praticamente um filme B, mas nem por isso é algo ruim, mas não espere um filme como os da Marvel e DC.

O filme começa com um foco numa caixa de correio com o nome da família Breyer. O foco muda e mostra uma fazenda, no interior, tendo um céu pontilhado de estrelas ao fundo. A cena corta para dentro da casa, com um passear pela câmera por uma estante cheia de livros sobre fertilidade, dando a entender que o casal não consegue ter filhos. No momento íntimo (sem peladezas, gente. Não se animem), eles são surpreendidos por um acidente. Algo caiu dos céus. A cena corta para diversos takes de um bebê sendo mimado pelos pais e que vai passando os anos crescendo na família.

Depois de uma breve sequência mostrando a família feliz, o filme começa a mudar de tom, e isso aos 8 minutos de filme. É noite e Tori Beyer, a mãe adotiva do menino que veio do Espaço e que recebeu o nome de Brandon, está pintando, enquanto o menino dorme. Só que sons indistintos da nave parecem mexer com ele, chamá-lo. Ele começa a se sacudir na cama e acorda… ou o mais próximo disso, já que ele parece estar em transe.

E é aqui que começamos a ver todas as mensagens que o diretor nos dá sobre o eu é o filme.

Na tomada feita como se estivéssemos vendo de cima, vemos o menino levantar com a coberta presa ao seu corpo, indo em direção à janela.


Clareei um pouco a imagem.

Sim, isso mesmo o que você pensou. Esta colcha será usada pelo menino mais tarde, e sim, da maneira como você está pensando.

O menino pula pela janela (ponto de vista de dentro do quarto), sendo que ele dorme no andar de cima. Não, ele não se machuca. A mãe ouve algo estranho do lado de fora e, ao sair, ela mais sente do que vê algo passar em extrema velocidade por ela. Quando ela vai no celeiro, encontra o filho tentando abrir o portão de madeira do depósito subterrâneo enquanto ele fala numa língua indecifrável. Ela o segura e Brandon acorda do seu transe.

A partir daí, Brandon vai descobrindo, pouco a pouco, os seus poderes. Ele consegue afetar aparelhos eletrônicos, lâminas de cortadores de grama não o afetam e até mesmo consegue mastigar e entortar os dentes de um garfo. Isso é acompanhado por um medo crescente de seus pais, enquanto Brandon está cada vez mais irritado com tudo, a frustração de quando lhe é negado algo o deixa furioso.

Brandon vai mudando e nisso vai se interessando por Caitlyn, a ponto de ir até a a casa dela e vê-la dormir. Liga o computador e ela passa a conhecer o medo. A partir daí vem a escalada de violência, quando Brandon quebra a não de Caitlyn de raiva e a mãe dela exige que ele seja preso. Brandon acaba saindo com os pais, e à noite eles conversam e o pai diz, assustado, que eles nunca viram Brandon ficar doente ou sequer se machucar. O medo na família Breyer está espesso que seriam capaz de cortar de faca.

À noite, Brandon sai de casa, sonâmbulo, em direção ao celeiro recitando palavras de um idioma extraterrestre. Tori vai atrás e o vê flutuando no ar, enquanto ele recita a língua estranha e seu equivalente em seu idioma: “Tome o Mundo”. E é a partir daí que o filme sai do terror psicológico e vai pro gore.

Brandon visita a mãe de Caitlyn, e esta vê uma figura sombria, de máscara, com olhos brilhantes, capa vermelha e visão de calor. A figura demoníaca com supervelocidade mata a mãe de Caitlyn, e daí será uma sucessão de mortes cada vez mais sangrentas, com mandíbulas deslocadas, rostos derretidos pela visão de calor e a mãe de Brandon com medo do que está acontecendo. Por fim, ela decide que a única saída é matá-lo, pois sabe que apesar da sua invulnerabilidade, há uma única coisa que pode machucá-lo: o metal da nave que o trouxe para a Terra. Mas falha.

Começa a haver uma série de eventos catastróficos, não só em Brightburn (adorei o nome da cidade) como no mundo, e sempre uma figura desfocada usando uma capa. As pessoas estão com medo. Aviões são derrubados, prédios demolidos.

Brightburn é cheio de referências. Você pode começar pelo Super-Homem, eu também concordo, e me lembro da série Smallville, em que no episódio “Rosetta” (2ª temporada), Clark abre a nave espacial na qual ele veio à Terra e descobre uma mensagem de seu pai biológico, Jor-El, dizendo: “Neste terceiro planeta da estrela Sol, você será um deus entre os homens. Eles são uma raça imperfeita. Governe-os com força, meu filho. É aí que reside a sua grandeza.”, e os episódios e temporadas a seguir, Clark passa por provações, em que a Inteligência Artificial que guarda a mente e a vontade Jor-El insiste que Clark se torne o governante absoluto da Terra.

Mas tem outro personagem que cai como uma luva em Brandon: o Ultraman.


Não esse.


Esse.

O Ultraman foi criado por Gardner Fox e Mike Sekowsky, aparecendo pela primeira vez em Justice League of America, vol. 1, # 29 em agosto de 1964. Um bebê vindo das estrelas cai num campo e é adotado por uma família. Passou a infância normalmente, mas quando chegou na adolescência, começa a apresentar alguns poderes. Ao encontrar fragmentos de kryptonita, o menino ganha outros poderes. Sim, ao contrário do Super-Homem, o Ultraman fica mais forte. Quanto mais exposto à kryptonita, mais forte ele fica, e ganha novos poderes.

Ele pertence ao universo da Terra-3, mas ele encontra outros super-seres como ele. Formam então o Sindicato do Crime. Nos eventos da Crise das Infinitas Terras, o Universo da Terra 3 é devorado pelo Antimonitor, e o Sindicato do Crime desaparece. Mais tarde, estes personagens são reintroduzidos nos Novos 52. São eles o Ultraman (a versão maligna do Super-Homem), a Super-Mulher (versão maligna da Mulher Maravilha), Anel Energético (Lanterna Verde), o Rei dos Mares (Aquaman), Relâmpago (Flash) entre outros. A origem do Ultraman é muito similar à do Brandon, portanto.

Outro motivo pelo qual Brandon tem mais a ver com o Ultraman é a cena durante os créditos em que a única voz destoante do que a mídia generalizada diz é um youtubeiro do tipo conspiracionista. Ele denuncia que estamos todos ferrados porque há vários seres hiperpoderosos à solta causando mil estragos. Uma figura aquática afundou navios, uma bruxa que enforca pessoas e isso seria só o começo.


Reconheceu alguém?

Em nenhum momento do filme é mencionado diretamente os personagens da DC, mas eu tenho absoluta certeza que James Gunn entrou em acordo com a Warner, detentora dos direitos, pois, está muito na cara, e os japas da Sony não iriam correr este risco. Será que teremos mais filmes deste universo? Espero que sim.

Para finalizar, acho que vocês devem ter sentido falta de uma coisa, não é? Eu não disse sobre o que é o filme exatamente. O filme é sobre mudanças da puberdade, em que meninos descobrem meninas, mas isso do ponto de vista de um maníaco psicopata. O stalking, a violência, a raiva incontida, a frustração de não fazerem o que ele quer, acabando em mortes. Muitos psicopatas tem uma história de origem assim. Eles só não eram mais rápidos que uma bala nem mais fortes que uma locomotiva.

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