Analisando séries e filmes de super-heróis XV

Sim, o Esquadrão Suicida é um bom filme

Há algum consenso sem embasamento que o filme do Esquadrão Suicida de 2016 é um filme péssimo, horrível. Eu acho que não. Acho que é um bom filme e que as pessoas vão pelo efeito de manada. Alguém disse que é ruim e isso reverberou, o que é estranho, já que o filme custou 175 milhões e faturou quase 747 milhões de dólares. Não acho que seja tão um assim. Como é de praxe nesta série, vamos à pergunta: sobre o que é o filme?

Antes de abordarmos isso, vamos aprender um pouco. A vem da verdade. O Esquadrão Suicida é um arremedo de vários personagens criados independentemente. Amanda Waller foi criada por John Byrne em 1986, O Pistoleiro foi criado por Bob Kane (sim, o criador do Batman) em 1940, o Capitão Bumerangue foi criado para ser vilão do Flash por John Broome, em 1960 e a Arlequina foi criada por Bruce Timm em 1992. Nenhum deles tem algo a ver com outro, mas segue a fórmula de juntar um monte de personagens para se criar um grupo. Um exemplo disso foi a Liga Extraordinária (The League of Extraordinary Gentlemen), criada por Alan Moore e Kevin O’Neill, baseado em personagens clássicos como Allan Quatermain, Capitão Nemo, Dorian Grey etc. Adicione isso a uma organização ultra-secreta. Ok, nada de novo e… um bando de bandidos sendo recrutados para uma missão suicida? Mas meu filho, o filme Os 12 Condenados é justamente isso!

O filme exagera fazendo dele um gibizão (não reclamaram que DC é sombria?), em que cada um dos bandidos tem uma própria trilha sonora, inclusive Amanda Waller, que o zueiro do diretor destinou que a ela deveria ser Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones. Acho que deu pra perceber a zueira, não? Não? Pois eles reforçam o tempo todo que são vilões. Você não vai ver nenhum herói ali, já foram falando logo de saída (mas houve heroísmo). A história é tão caricata, mesmo para padrões dos quadrinhos, que Rick Flagg tem bandeira até no nome, o que é original do HQ também, que foi publicado pela primeira vez na série The Brave and the Bold #25 (setembro de 1959). Como você pode identificar, muitos dos personagens ainda não existiam, mas a ideia era a mesma.

Apesar da personagem Magia (Enchantress) não ser a vilã nos quadrinhos, ela foi alçada ali como uma entidade maligna, irmã de algo muito pior. E é aqui que o filme começa, passando por uma apresentação dos personagens. Um dos pontos de crítica é o filme ser caricato, mas a história foi justamente para ser caricata, não sendo bem como na década de 50, mas nem o Super-Homem atual é o mesmo da década de 50. Histórias evoluem.

Esquadrão Suicida cai naquele tipo de filme que não tem heróis. No máximo, protagonistas. Eles são e continuarão sendo vilões, e isso vale para os políticos com quem Amanda Waller vai jantar e principalmente a própria Amanda Waller. Talvez, ela seja a maior vilã do filme, ou talvez a maior anti-heroína. É difícil explicar Amanda Waller. Tudo oque ela faz não é visando o próprio bem-estar. Ela não visa nada, nenhum ganho para si mesma.

Sim, ela mete o dedão no peito do Batman! E isso mais de uma vez. Ela ainda tirou onda com ele na animação da Liga da Justiça Sem Limites:

Amanda Waller sendo uma mulher negra se impôs na política, sendo respeitada e temida. Ela é implacável visando um bem maior: a segurança da nação. Isso é amplo e ela vai passar por cima de qualquer um ou qualquer coisa para garantir isso, em que limites éticos para ela e nada são a mesma coisa. Mal que se dane se temos um bem maior. Esta Amanda Waller seria o máximo no filme. A que está no filme é ruim feito carne de cobra, mas… faltou algo. Ela é até chantageada por Bruce Wayne na cena pós-créditos, onde ele a salva em troca de tudo o que a A.R.G.U.S. sabe sobre os metahumanos.

Ayer teve um dos maiores problemas que os diretores da Warner costumam ter: os executivos. Embalados no pessoal que ficou se masturbando para Guardiões da Galáxia, e queriam que todos os filmes da DC tivessem muitas piadas, os executivos pressionaram e muitas cenas acabaram sendo refilmadas para encaixar piadas. É fácil de perceber quando algumas piadas estão mal-encaixadas. Mas a cena do bar, com o grupo desesperançado largando tudo e indo encher a cara dá o tom melancólico dos personagens.

Sim, você pode fazer um filme de zueira e ter personagens trágicos. Um exemplo é Muito Além do Jardim, com Peter Sellers. É um drama e comédia ao mesmo tempo. A história de humilde jardineiro limitado intelectualmente que sempre viveu numa imensa mansão e só conhecia o mundo pela TV. O dono da mansão morre e ele é expulso de casa, acabando por ser conhecido como alguém sábio com frases inteligentíssimas (que não eram). O Pistoleiro precisa criar a filha, a Arlequina ficou louca por causa de um amor não-correspondido que se transformou num relacionamento abusivo, Katana teve que matar o marido, aprisionando sua alma na espada, Diablo perdeu o controle dos seus poderes e matou sua família queimada, a drª June Moone está possuída por uma entidade maléfica e Rick Flag ama Moone e precisa salvá-la, tendo que ser capacho de Amanda Waller para conseguir isso.

O problema, como disse, foi terem enchido o saco que queriam piadinhas, os executivos ouviram e acharam uma excelente ideia, mesmo sob protestos do Ayer; mas assim como eu, o Ayer tem boletos pra pagar (os dele são mais caros) e muitas cenas foram refilmadas, elevando os custos de produção. Pelo certo, o filme sairia bem mais barato. Entretanto, isso é muito pouco para dizer que o filme é péssimo. A história seria até simples, se fosse se basear em enfrentar o demonho irmão da Magia. É um filme de um monte de malucos numa situação que nem eles compreendem e só vão saber no que se meteram. Isso me lembra os bons filmes dos anos 80, como o magnífico Aventureiros no Bairro Proibido, que jamais faria sucesso hoje, obviamente, porque jovem é um saco e estes leite com pêra criados com Ovomaltine e filme da Disvel jamais apreciariam filme unicamente para se divertir. Nem Caça-Fantasmas seria apreciado por esse pessoal, já começando por cancelarem Peter Venkman por fazer pseudotestes paranormais para sair com uma das voluntárias, dando a entender que ela tinha poderes psíquicos.

O que eu acho que foi o pior do filme foi o Coringa. Jared Leto resolveu fazer seu próprio Coringa. Não que isso seja ruim, mas no caso dele foi péssimo. Se me disserem que aí sim, é uma parte horrível do filme, eu concordo. Podiam ter reduzido ao máximo sua participação que não faria diferença. Tudo bem que o principal da Arlequina é sua relação doentia com o Coringa e que ela não deveria ser apresentada sem ele, mas como Jared Leto fez – além de ter surtado e enchido o saco de todos os demais atores em busca de atenção e ficar na mídia – atrapalhou o enredo, atrapalhou o andamento da história e atrapalhou o filme. Ainda assim podemos dizer que o filme é ruim? Eu diria que Margot Kidder fez uma péssima Lois Lane e o roteiro não fazia sentido deixar uma ganhadora do prêmio Pulitzer como uma analfabeta que não sabia soletrar palavras, mas a fizeram assim no filme por zueira.

De tudo e por tudo, Esquadrão Suicida, ao meu ver, cumpriu a meta: entretenimento, diversão e uma história simples, mas bem elaborada, com o foco de soltar um bando de desajustados que se detestam para no final lutarem juntos contra algo maior, se não pela sociedade, que seja por suas próprias vidas, já que se não cumprissem, seriam mortos pela própria Amanda Waller, que acabou por se sensibilizar (ao modo dela) e não matou nenhum dos bandidos protagonistas. Não foi muito diferente de Guardiões da Galáxia, uma história de quadrinhos que sempre deu prejuízo porque ninguém se interessou, mas uma boa produção (com cores lavadas, digna da Disney) deu vida e passamos a gostar de um ladrão, uma assassina, um guaxinim psicopata e um grandalhão que resolveu partir pra porrada… e o Groot!

Agora, James Gunn, que caiu no odiozinho da massa lacradora por causa de umas postagens no Twitter sem contexto, foi ostracizado pela Disney e colocado de lado depois de ter dado Guardiões da Galáxia 1 e 2. Warner foi muito rápida para lançar o convite para Gunn, que agora está fazendo um Esquadrão Suicida só seu, que vai ter de tudo, inclusive o Rei Tubarão, com vários psicopatas, bandidos e gente sem noção num maravilhoso filme pipoca digno da antiga Sessão da tarde, com um grupo de marginais do barulho aprontando mil e uma confusões.

3 comentários em “Analisando séries e filmes de super-heróis XV

  1. “Acho que é um bom filme e que as pessoas vão pelo EFEITO DE MANADA.”
    Vou te processar por cópia não autorizada s.r Andrew…
    Deixando piadículas de lado, é um bom filme sim. Aliás, finalmente o s.r Will em um filme “politicamente incorreto”. Cansei de ver ele procurando a felicidade. O desenho da Liga da Justiça tem mais moral que muita série de herói por aí. E esse novo filme vai ser da pesada pelo que tô vendo. Uma espécie de desenho animado anos 70 cheio de personagem.

  2. Eu gostei muito da Margot Robbie como a Harley Quinn, pena que o Jared Leto cago naquele coringa. Não vou negar que eu estou com uma pequena expectativa para filme dela.

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