Você acha que sabe onde estão os seus dentes? Eles podem não estar dentro da sua boca

Um dos experimentos clássicos da Neurociência é o “caixa da mão de borracha”. Trata-se de uma caixa dividida ao meio, com duas aberturas. Pelas aberturas, o voluntário coloca as mãos, sendo que uma delas não é vista, mas sim uma mão de borracha. O voluntário “sente” tato na mão de borracha, inclusive dores se espetar esta mão. Motivo? O cérebro é bugado e realmente leva a sério o “ver para crer”. Bem, ele vê uma mão sendo espetada. Claro que é a de seu dono, né?

Agora imagine este mesmo experimento só que com dentes ao invés de uma prótese de mão. Sim, o seu cérebro zoado também não sabe onde ficam os dentes do seu dono.

O dr. Patrick Haggard é pesquisador do Instituto de Neurociência cognitiva da Universidade College London. Ele e seu grupo pesquisam aspectos cognitivos de dois processos sensório-motores que fundamentam todo o comportamento humano: o controle da ação voluntária e a experiência que temos de nosso próprio corpo. Você aprendeu no colégio que temos cinco sentidos, mas não. Temos muito mais. Uma delas é a propriocepção. Você sabe onde está o seu nariz, sabe das suas pernas e sabe onde estão as suas mãos, mas isso se você não for sacaneado no teste da mão de borracha. Não, ninguém aqui disse você era perfeitinho.

Haggard e seus colaboradores desenvolveram essa experiência inspirada na ilusão da mão de borracha, só que nesta variância, a pesquisa testa a percepção de onde estão os dentes. No experimento, o participante usava uma venda nos olhos. Foi então dito ao voluntário que pegariam sua mão direita e a usariam para esfregar os dentes, o que de fato fizeram, mas não os dentes do voluntário, mas o de uma prótese de gesso, localizada 8 centímetros abaixo do queixo do voluntário. Sim, ficaram fazendo o voluntário acariciar uma dentadura como se fosse os dentões dele.

Simultaneamente, Davide Bono, colaborador de Haggard, usou sua própria mão para acariciar seus dentes da mesma maneira; mesmo porque, chefe de pesquisa não fica pagando este tipo de mico. O participante foi então convidado a mostrar onde estavam seus dentes.

Oito voluntários participaram do experimento e, em média, apontaram seus dentes para 1,5 cm abaixo dos próprios dentes na direção dos modelos de dentes. Os participantes também sentiram que estavam tocando os dentes um do outro.

Bono e Haggard descobriram ainda que desde que começassem e terminassem ao mesmo tempo, a ilusão persistiria de qualquer maneira, e que este bug do cérebro acontecia quando os dentes do modelo eram cobertos com velcro, mas não acontecia quando se empregava um conjunto diferente de dentes onde havia espaços vazios. Ou seja, as pessoas percebiam que algo estava errado já que elas não eram banguelas.

Qual a explicação disso? A resposta honesta é: ninguém sabe. Simplesmente, é algo que acontece nos nossos cérebros. Eles não são perfeitinhos nem foram desenhados por alguém inteligente, já que alguém inteligente teria pensado num motivo para isso, certo?

A pesquisa foi publicada no periódico European Journal of Neuroscience, disponível na íntegra pra você, mas só se você souber onde estão seus dentinhos

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