Terapia genética para consertar os males do seu coraçãozinho partido e mal pago

Todos nós sabemos (sabemos, né?) que o coração é formado por tecido muscular, chamado “músculo cardíaco”. Ele não é como o músculo do seu braço, apesar das muitas peculiaridades semelhantes, como você ficar com braço bombadão depois de puxar ferro e seu coração aumentar de tamanho devido a esforços desnecessários, em que muitas vezes é preciso operar, removendo parte desse tecido num procedimento conhecido como Procedimento Batista para os casos de cardiomiopatia dilatada. Só que, diferente dos demais músculos, o músculo cardíaco não se regenera como os outros tecidos musculares, o que é um sério problema quando se tem um atraque cardíaco. Você espera que na recuperação ele voltasse ao que era antes. Lamento, não vai acontecer.

Ou será que sim? Pesquisadores desenvolvem um gel motherfucker capaz de tascar sequências de genes direto no músculo do coração para ele dar um Ctrl+Alt+Del e reiniciar tudo.

O dr. Edward Morrisey é professor da faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia e diretor científico do Penn Institute for Regenerative Medicine da mesma Universidade. Ele trabalha com desenvolvimento cardiovascular e doenças congênitas do coração.

Tentando ver como poderia dar um jeito de curar o músculo cardíaco das lesões, Morrisey e seus colaboradores usaram camundonguinhos para testar como poderiam dar partida na replicação em cardiomiócitos existentes. Esses cardiomiócitos nada mais são que as fibras musculares do coração, que podem ser músculos lisos ou esqueléticos, conforme você aprendeu no 8º ano do Fundamental, e se não aprendeu, vamos dar uma rápida repassada (bem rápida, mesmo).

O tecido muscular liso (ou não-estriado) é constituído por células mononucleadas e alongadas. Esse tipo de músculo pode ser encontrado nas paredes dos órgãos ocos, como estômago, útero, bexiga, artérias, veias, vasos sanguíneos, etc. Assim como o músculo estriado cardíaco, apresenta movimentos involuntários, como, por exemplo, os movimentos do esôfago. Os músculos estriados esqueléticos, por sua vez, formam a maior parte da musculatura do corpo dos vertebrados. É o que você chama de “carne” (sim, eu sei que tem um tipo de carne vendida no açougue com o nome de músculo”, mas por definição, TODA carne é um músculo, isto é, você tem o músculo contra-filé, músculo alcatra e músculo músculo. Não, eu não espero que o seu açougueiro faça isso e não vá lá sacanear o coitado. Peça a sua peça bem cortada e ele lhe garantirá um bom churrasco), formando o que se chama popularmente de carne. Essa musculatura recobre totalmente o esqueleto e está presa aos ossos, daí ser chamada de esquelética. Esse tipo de tecido apresenta contração voluntária (que depende da vontade do indivíduo).

O músculo estriado esquelético é um pacotão de longas fibras. Cada uma delas é uma célula dotada de muitos núcleos, chamado miócitos multinucleados. Um fibra muscular pode medir vários centímetros de comprimento, por 50 mm de espessura.

Os cardiomiócitos são células altamente diferenciadas, já que junta o melhor dos dois mundos. Primeiro, ela é como se fosse um músculo esquelético, mas com os movimentos de um músculo liso. Logo após os primeiros anos de vida, este tecido muscular para de se multiplicar e, com isso, o crescimento do coração é consequência da hipertrofia e não a hiperplasia celular. A morte dos cardiomiócitos, por exemplo como consequência de um infarto do miocárdio, faz uma fibrose tissular, que dependendo de sua extensão pode levar a insuficiência cardíaca, que poderá ser tratada com implante de marca-passo, até transplante ou mesmo procedimentos cirúrgicos, como o referido procedimento Batista, visando a modificação geométrica do coração. Nenhum desses tratamentos, entretanto, resolvem o problema básico: a perda do cardiomiócito.

Ainda não se sabe direito por qual motivo esses danadinhos dos cardiomiócitos não se regeneram, mas não será isso que impedirá a ciência de buscar tratamento. Assim, Morrisey e seu pessoal desenvolvem um tratamento que consiste em usar microRNA, aplicado por um gel que o libera de forma lenta e sequencial.

MicroRNA são pequeníssimos trechos de RNA não codificante, isto é, RNA não não traduz proteínas, mas capazes de regular a expressão gênica por meio de degradação ou repressão da tradução de moléculas-alvo de RNA mensageiro. Quando um miRNA fica zuado e não regula direito esta expressão gênica, coisas não muito legais acontecem. Uma dessas coisinhas é o câncer, mas também pode ser supressora tumoral, na melhor linha “a mão que afaga é a ão que apedreja”, ou vice-versa.

Os pesquisadores usaram microRNAs para segmentar as vias de sinalização relacionadas à proliferação celular, ou seja, é como mandar um capataz verificar se o serviço está sendo feito e efetivamente colocar os caboclos para trabalhar. Dessa forma, foram capazes de inibir alguns dos sinais inerentes de “parada” que impedem a replicação dos cardiomiócitos. Seria como se tivesse uma greve na sua empresa e você mandasse uns jagunços irem “conversar” com quem estivesse ordenando os piquetes. Moral da história, o jagunço, digo, o microRNA falou (metáfora, gente!) para parar com aquela frescura de cardiomiócito fazer corpo mole e botou os meninos se proliferarem

A pesquisa foi publicada no periódico Nature Biomedical Engineering. Ainda vai demorar um pouquinho para serem feitos testes em humanos, mas já nos ratinhos parece ser bem promissor, corrigindo uma cagada que o grande Projetista Inteligente cometeu.

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