Crateras na Guatemala podem ter origem na ação humana, diz cientista

galactus.jpgConsiderando que vocês são, no mínimo, mediamente informados, já devem saber das crateras que apareceram na Guatemala estes dias, tendo aparecido várias teorias (na maioria, não-científica) buscando explicar o que aconteceu, como a vinda de OVNIs, o prenúncio de Ashtar Sheran, o soerguimento dos Filhos de Duna e o início do Arrebatamento, onde os cristãos chatos será levados embora daqui de vez (Tomara! Tomara!).

Pelo visto, não precisaremos nos preocupar, pois não parece que Norrin Radd tenha algo a ver com isso. Segundo o Kentaro Mori, trata-se de simplesmente de uma erosão cárstica. Mas há mais coisas entre os céus e a Terra, Horácio, do que possa sonha nossa vã filosofia.

De princípio, que diabos é isso de erosão cárstica?

Sem confundir com sarcasmo, erosão cárstica acontece quando acontece algum tipo de ataque ao solo em nível mais profundo,isto é, não é levado em conta a erosão na superfície. Dessa forma, há um desabamento e voilà! Taí a sua cratera.

O relevo formado dessa forma é, basicamente, ocasionado por ação química, majoritariamente acarretada por presença de ácidos, mas não é em qualquer solo ou rocha que isso acontece e nem acontece de qualquer forma. A Química não é boazinha e faz o que você quer que ela faça. Um ataque ácido não acontece de qualquer jeito; tal ação só pode se dar de duas formas: ação ácido-base e ação por oxirredução.

Numa ação ácido-base, o ácido reage com uma base (ou sal básico), e ambos neutralizam-se mutuamente, salvo se um deles estiver em maior concentração do que o outro (o que sempre acontece, já que não há nenhuma entidade brincando de Meu Pequeno Químico). Podemos citar, só a título de exemplo, a ação de vinagre sobre bicarbonato de sódio (o famoso “bocarbonato”, que é vendido em supermercado), onde há desprendimento de CO2 e água, tendo como produto final acetato de sódio. É o que acontece com rochas calcárias, que são compostas basicamente de carbonato de cálcio (CaCO3), onde usamos esta propriedade para determinar se uma rocha é calcário ou não (entre outros ensaios, lógico). Uma gota de ácido clorídrico (HCl) e pronto! Veremos se há desprendimento de CO2, que nem acontece com o sonrisal.

Por outro lado, alguns ácidos podem oxidar componentes de rochas, mas não todas. Em rochas máficas, dada a sua riqueza em ferro, pode-se haver oxidação dos sais de ferro, no qual o cátion passa de íon ferroso (Fe+2) a férrico (Fe+3), cujos óxidos possuem a característica coloração de “ferrugem”, por motivos óbvios. Esta oxidação acarreta num aumento do volume dos minerais constituintes, proporcionando uma rápida desagregação das rochas, conferindo uma típica coloração avermelhada nos cursos de água, o que é um problema em termos de potabilidade dessa água.

No caso de rochas constituídas majoritariamente de dióxido de silício (SiO2), será muito difícil acontecer ambos os ataques. O o dióxido de silício é um sal ácido, logo não será atacado por ácidos comuns. Estando no seu estado de oxidação máximo (+4), o silício não tem mais como ser oxidado, salvo se a sílica for atacada por agentes oxidantes fortes, como ácido perclórico (HClO4), fluorídrico (HF), nítrico (HNO3) concentrado ou água régia (mistura de ácidos nítrico e clorídrico em alta concentração).

O relevo (ou sistema) cárstico é caracterizado pela dissolução química das rochas, que leva ao aparecimento de uma série de características físicas. Este tipo de relevo ocorre predominantemente em terrenos constituídos de rocha calcária, como explicamos logo acima, além de ocorrer em outros tipos de rochas, como o mármore, que é uma rocha metamórfica originada do calcário. Com isso, aparecem os chamados “sinkholes”, cujo nome remete à sua semelhança com o ralo de pia (sinkhole, em inglês). Maiores informações: aqui, aqui e aqui.

Dessa forma, fica bem claro que algo acontecendo assim não é novidade e está bem documentado. Só que pode não ser bem devido unicamente às chuvas que as crateras guatemaltecas apareceram. Segundo o geólogo Sam Bonis, da Dartmouth College, de New Hampshire, EUA (atualmente morando na Cidade da Guatemala), as crateras que apareceram no domingo foram causadas por ação humana.

sinkhole.jpg

Para Bonis, a cavidade formou-se devido à infraestrutura subterrânea da Cidade da Guatemala, conforme notícia trazida pela National Geographic. Nas primeiras centenas de metros do solo, a formação é composta por pedra-pomes, uma rochja que se formou durante vulcanismo e ficou impregnada de gases, ficando que nem um “queijo-suíço geológico”. Sua densidade é muito pequena, a ponto desta rocha ser capaz de boiar na água, dada a quantidade de ar presa dentro dela. Isso acarreta em rápida deterioração, ou seja, a rocha se despfaz com maior facilidade, e ao perder a sustentação, tudo desaba, formando aquelas crateras que nós vimos e que não é novidade, pois em 2007 a própria National Geographic noticiara um ocorrido bem semelhante.

Assim, como não há calcário logo nas primeiras camadas do solo abaixo da Cidade da Guatemala, o terreno torna-se instável, já que a pedra-pomes se dissolve com facilidade. Era apenas questão de tempo. A ação humana só fez adiantar o inevitável, apesar dos constantes avisos de Bonis às autoridades da Guatemala, mas parece que não deram ouvidos ao geólogo. Segundo ele, as erupções recentes de vários vulcões na Guatemala cobriu a cidade com uma nova camada de cinzas vulcânicas. Se esse material entrou nas tubulações da cidade e de esgotos, pode ter entupido as passagens, acarretando rupturas mais provável.

Uma coisa é certa: não é nenhuma ação extraterrestre ou divindade com falta do que fazer, e Galactus que fique pelas bandas de Andrômeda.

2 comentários em “Crateras na Guatemala podem ter origem na ação humana, diz cientista

  1. Sobre este assunto divulgo este link histórico/científico: http://www.lefoibe.it/approfondimenti/dossier/03-foibe.htm

    O site é em italiano, mas é bem legal para quem quiser dar uma explorada.
    Em resumo fala das “Foibe”, que seriam as “valas” que existem na região istriana da Itália (extremo nordeste, região de Trieste, Gorizia). Nessa região as formações cársicas estão espalhadas por uma região bastante extensa, cobrindo a Itália, partes da Eslovênia e da Croácia.

    Esta região foi de domínio italiano por muitíssimos anos, e passaram ao controle iugoslavo com o final de segunda guerra mundial, como forma de reparação de guerra. Acontece que muitos italianos se negaram a sair de lá, de maneira que os novos donos da região passaram a retirar os italianos de suas casas na marra, e para poupar esforços de matança simplesmente jogavam as pessoas nas fendas cársicas (muitos deles ainda estavam putos da vida com o rastro deixado pela soldadesca nazista e fascista). Muitas das fendas da região tem mais de 1km de profundidade, de maneira que é fácil imaginar o morte horrível que tiveram as pessoas jogadas lá dentro.

    Lindo texto do Cet.net como sempre, era óbvio que viria alguém dizer que as crateras foram obra humana. Interessante notar que os mesmos meios de comunicação que noticiaram o fato, não se aprestaram a complementar a notícia. Não vi nenhum programa dando a explicação para o fenômeno, o que certamente ajuda na perpetuação das especulações fantasiosas sobre o assunto!

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