Chuck Norris morreu. Caronte pulou do barco e fugiu nadando

É uma sexta-feira estranha, não insana. O mundo até tenta seguir o protocolo; em algum lugar, um desavisado grita “sextou”, outro abre uma cerveja. Não sou esses. Tem dias em que até a sexta-feira baixa a cabeça e hoje é um deles. Hoje não morreu apenas um homem; hoje se despede uma dessas figuras raras que parecem ter sido esculpidas mais pela lenda do que pela biologia, mais pela figura mítica que foi um dia, não apenas na ficção, mas na vida real.

Hoje se deu o passamento do homem, da lenda, do mito, de Chuck Norris. E não, ninguém vai chorar. Não por falta de sentimento, mas por coerência. Fãs de Chuck Norris não choram.

Chuck Norris não foi só um ator de filmes de ação; foi um símbolo ambulante de força, disciplina e decência, uma combinação que o cinema raramente entrega inteira. Conhecido pelos inúmeros memes desde o tempo da Internet a carvão, Chuck Norris não era só uma caricatura de piadas. Por trás da aura quase sobrenatural havia um homem metódico, disciplinado e, acima de tudo, comprometido com algo que anda em falta: responsabilidade.

Em 1990, Chuck Norris fundou o Kick Drugs Out of America, depois rebatizado como Kickstart Kids, usando artes marciais para dar a jovens algo mais poderoso que força física: direção, autoestima e estrutura. Num mundo onde “más influências” costumam falar mais alto, ele resolveu oferecer uma alternativa, e isso, convenhamos, exige mais coragem do que qualquer cena de ação.

Também estendeu a mão para além das câmeras, apoiando iniciativas como a Fundação Vijay Amritraj, ajudando crianças com HIV na Índia, escolas para cegos e projetos voltados a pessoas esquecidas pelo mundo. Não era marketing. Era postura. Era querer fazer a diferença, sem ficar papagaiando por aí fazendo vídeos pro YouTube dizendo o quanto ele era sensacional. Chuck ERA sensacional, ele não precisava dizer.

Não era só o roundhouse kick ou o olhar penetrante que resolvia conflitos antes mesmo de começar. Era o fato desconcertante de que ele parecia jogar no modo difícil da vida, e ainda assim fazer questão de ajudar quem estava no nível iniciante.

Foram 86 anos, seis títulos mundiais de caratê, dezenas de filmes, séries e uma presença cultural que atravessou gerações. Mas números nunca deram conta de explicar o fenômeno. Porque Chuck Norris não cabe em estatística; ele pertence àquele território raro onde realidade e exagero fazem um acordo silencioso.

Hoje o mundo perde um homem. Um homem, um herói e um exemplo. Não um super-herói, mas um herói super que quis (e fez) a diferença. Se tornou uma lenda muitos antes das piadinhas da Internet, não precisando tentar ser maior do que a vida, porque ele era, é e continuará sendo.

Fãs de Chuck Norris não choramos. Não porque homens não choram, mas que temos a certeza de que os 86 anos foram bem vividos em realizações maiores do que todos os filmes e séries que ele participou. Quem deve estar chorando, mesmo, é o outro lado; porque alguém vai saltar de uma caminhonete, ajeitar o chapéu, colocar o óculos escuros e baterá à porta do Inferno. No batente, uma plaquinha balançando ao sabor da pressa colocada ali: O Capeta não fugiu nem acovardou-se. O Capeta mudou-se.

Obrigado, Chuck Norris.

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