O morceguinho nanico que humilhou os maiores predadores

Quando se fala em predador assassino você pensa em leões, tigres, onças e seres humanos. Não é que você esteja errado, só não sabe de tudo, e acaba esbarrando em algo profundamente desconcertante ao descobrir que um ser do tamanho de um brigadeiro caça com mais eficiência do que um leão. O responsável por essa pequena humilhação zoológica atende pelo nome científico de Trachops cirrhosus, o morcego-de-lábios-franjados, habitante das florestas úmidas do Panamá. Durante décadas, os cientistas sabiam que ele caçava sapos, mas nunca tinham conseguido observar a caçada de verdade, no escuro, na floresta, sem interferir no comportamento do animal.

Até agora.

Leonie Baier é pesquisadora de ecologia comportamental no Naturalis Biodiversity Center (Holanda) e bolsista Marie Skłodowska-Curie na Universidade de Aarhus (Dinamarca). Desenvolveu boa parte de sua carreira no Smithsonian Tropical Research Institute, no Panamá, em colaboração com Rachel Page, especializada justamente em Trachops cirrhosus. Foi ela quem liderou o esforço de armar redes na saída dos abrigos dos morcegos, capturá-los, registrar peso, idade e sexo de cada um e colar, delicadamente, a mochilinha entre as escápulas do animal antes de soltá-lo de volta para a noite.

O problema é clássico em ecologia comportamental: como você estuda o que um bicho faz à noite, no meio da mata, sem que a sua presença mude tudo? A solução veio de uma tecnologia chamada biologger, um minúsculo dispositivo eletrônico colado no corpo do animal que registra sons e movimentos sem que o bicho precise fazer nada. É essencialmente uma câmera GoPro do tamanho de um Lego, só que em vez de vídeo, ela grava aceleração, orientação e áudio com resolução suficiente para capturar desde o bater de asas até o barulho do morcego mastigando a presa. O animal vai embora, faz a vida dele, e quando volta você baixa os dados e assiste à caçada inteira sem ter saído do laboratório.

De volta ao laboratório, o que as gravações mostravam era de arrepiar, no bom sentido. Primeiro, o canto inconfundível da rã-túngara (Engystomops pustulosus), aquele “whiiiiine-chuck-chuck” que os machos entoam às margens de riachos para atrair fêmeas e que, de quebra, também atrai morcegos. Em seguida, o traçado na tela se agitava: batidas de asas, pulsos ultrassônicos de ecolocalização, som do ar passando pelo microfone, um splash, mais batidas de asas e, finalmente, aquele mastigar úmido e deliberado de dentes sobre osso. Missão cumprida. Sapo virou jantar.

Mas foi numa outra gravação que as coisas ficaram verdadeiramente estranhas.

Sem canto de rã, sem pista sonora óbvia, o morcego atacou assim mesmo. Pousou. E começou a mastigar. Cinco minutos. Dez. Vinte. Parou. Dormiu. Acordou. Mastigou de novo. No total, 84 minutos de mastigação espalhados por vários episódios.

Para descobrir o que aquele morcego havia comido, Baier recorreu a experimentos em cativeiro, onde havia cronometrado quanto tempo os animais levavam para mastigar presas de peso conhecido, e criou uma tabela de conversão: tempo de mastigação igual a tamanho da refeição. A maioria das presas pesava cerca de 2 gramas, uns 7% da massa corporal do morcego. Mas algumas refeições chegavam a 30g. Quase o peso inteiro do caçador.

É como se um humano adulto se sentasse para jantar e desse conta de outro humano do mesmo tamanho.

O que os dados revelaram não era o comportamento de um predador oportunista. Era a estratégia, do grego στρατηγική. Os morcegos ficavam parados por longos períodos, esperando, em vez de vasculhar a floresta atrás de qualquer inseto que cruzasse o caminho. Atacavam com precisão, cerca de sete vezes por noite, com taxa de sucesso em torno de 50%. Depois de uma refeição farta, descansavam. Os pesquisadores batizaram isso de estratégia “hang-and-wait” (se pendura e espera) e, quando colocaram os números lado a lado com os de leões, ursos polares e outros superpredadores famosos, os morcegos saíram na frente em eficiência.

Leões e companhia devem estar constrangidos.

Há ainda um detalhe que eleva tudo a outro nível: esses morcegos são longevos (alguns passam dos 14 anos) e têm memória notável. Aprendem a distinguir sapos comestíveis dos venenosos, podem adquirir essa habilidade observando outros morcegos e ficam progressivamente mais seletivos e eficientes com a idade. A caça, aqui, não é só instinto. É experiência acumulada. É, em certa medida, cultura.

Toda essa competência, claro, depende de uma floresta saudável. À medida que anfíbios enfrentam declínios globais por doenças, perda de habitat e mudanças climáticas, o repertório sofisticado desses morcegos pode dar a eles alguma margem de adaptação. Mas só se houver floresta para isso.

O menor dos predadores, como sempre, acaba refém do maior dos problemas.

A pesquisa foi publicada no periódico Current Biology. Sim, eu sei que foi no ano passado, mas só vi hoje.

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