Sonhar não é aleatório, é editorial

Desde que a humanidade descobriu que dormir vem acompanhado de um cinema particular e gratuito, ninguém resistiu à tentação de dar sentido àquilo. Os egípcios liam sonhos como mensagens dos deuses, os gregos consultavam oráculos para decifrá-los, Artemidoro de Daldis escreveu um manual inteiro de interpretação onírica no século II, e Freud, quase dois mil anos depois, decidiu que tudo aquilo era, no fundo, libido reprimida disfarçada de trem entrando em túnel. Nenhum deles, no entanto, tinha acesso a processamento de linguagem natural, e é aí que a história fica interessante.

Por que alguns sonhos parecem tão vívidos que quase se confundem com lembranças reais, enquanto outros são fragmentos confusos que evaporam antes mesmo do café? Uma nova pesquisa sugere que a resposta está numa combinação nada mística de personalidade, qualidade do sono, hábitos mentais e, surpreendentemente, do que está acontecendo lá fora, no mundo desperto e barulhento que insiste em vazar para dentro da cabeça de todo mundo enquanto dorme.

A drª Valentina Elce é pesquisadora do grupo Sleep, Plasticity and Conscious Experience (SPACE, e eu adoro quando forçam para dar um acrônimo maneiro!) e formada em Linguística pela Universidade de Pisa, o que talvez explique por que ela decidiu tratar sonhos como texto a ser analisado, e não como enigma a ser adivinhado.

A equipe de Elke Elce Maravilha reuniu mais de 3.700 relatos de sonhos e de experiências durante a vigília, fornecidos por 287 pessoas entre 18 e 70 anos ao longo de duas semanas de diário pessoal. Junto a isso, colheram dados sobre hábitos de sono, personalidade, habilidades cognitivas e traços psicológicos de cada participante, um esforço digno de quem queria mesmo entender o que se passa atrás dos olhos fechados, e não apenas repetir o clichê de que sonho é resíduo do dia anterior.

Para dar conta de tanto material sem contratar um exército de leitores insones, os pesquisadores recorreram a processamento de linguagem natural (NLP), tecnologia de Inteligência Artificial capaz de mapear padrões, relações e significados dentro de um texto. Em vez de depender exclusivamente da leitura humana, o algoritmo mediu a estrutura semântica de cada relato, ou seja, como ideias, palavras e conceitos se conectam entre si.

O resultado desmontou de vez a ideia de que sonhar é embaralhar imagens ao acaso: o conteúdo onírico se mostrou moldado por características pessoais, como a tendência a devanear, o interesse genuíno pelo próprio sonhar e a qualidade do sono, além de eventos que sacudiam o mundo lá fora.

E aqui vai o golpe fatal contra a ideia do sonho como reprise noturna: quando os cientistas compararam os relatos de vigília com os de sonho, perceberam que o cérebro não reproduz a vida cotidiana como um gravador. Ele transforma. Um escritório, um hospital, uma sala de aula podem aparecer, mas fundidos a cenários improváveis, pontos de vista que mudam no meio da cena, lugares que não deveriam estar ali.

É como se a mente, à noite, resolvesse fazer uma colagem surrealista usando pedaços da própria biografia como matéria-prima, misturando memória, imaginação e expectativas sobre o futuro numa única cena emocionalmente carregada.

A personalidade também define o estilo dessa colagem. Quem devaneia com frequência durante o dia tende a sonhar de forma mais fragmentada e acelerada, pulando de cena em cena como quem troca de canal sem parar. Já quem atribui valor e significado pessoal aos próprios sonhos relata experiências mais ricas e imersivas, com detalhes perceptivos mais nítidos. Os autores fazem questão de avisar que isso não prova que acreditar em sonhos cause sonhos mais vívidos, apenas que existe uma relação forte entre a forma como pensamos sobre sonhar e a forma como de fato sonhamos e lembramos.

O mundo exterior também deixou sua marca, e de forma bem literal. Comparando relatos coletados durante o confinamento da pandemia de covid-19 pela Universidade Sapienza de Roma com dados posteriores da própria IMT Lucca, a equipe encontrou sonhos carregados de emoções mais intensas e repletos de referências a restrições, barreiras e confinamento durante o lockdown, temas que foram se diluindo aos poucos conforme a vida seguia.

O detalhe mais curioso talvez seja técnico: os modelos de NLP conseguiram identificar sentido e estrutura nos relatos com precisão comparável à de avaliadores humanos independentes, abrindo caminho para que a inteligência artificial vasculhe coleções de sonhos em escala industrial, algo impensável quando a única ferramenta disponível era um analista freudiano e uma poltrona de couro.

Isso pode significar novos capítulos para o estudo da consciência, da memória, do processamento emocional e da saúde mental, tudo isso graças a uma tecnologia mais lembrada por escrever e-mails do que por bisbilhotar o inconsciente alheio.

No fim das contas, o sonho perde o charme de mistério cósmico, mas ganha algo mais interessante: a confirmação de que ele é obra autoral, editada por quem você é e pelo que o mundo insiste em te jogar no colo.

A pesquisa foi publicada no periódico Communications Psychology.

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