Momento True Crime: Um assassinato religioso

A vítima não tinha a real compreensão do iria lhe acontecer. Ela estava lá, admirando o céu como um imenso chumaço de algodão, sem sinais de tempestade; o ar puro a envolvia, os pássaros ergueram a cabeça e cantaram. Era uma boa vida, mas isso não iria durar. Seu algoz levantou cedo, saiu das cobertas de um sono reparador. Um deles sabia o que ia acontecer, mas não exatamente quem iria encontrar, enquanto o segundo estava na doce ignorância do seu dia fatídico.

O algoz tomou seu lauto café da manhã, rico em calorias. Estava frio, muito frio. Ele precisava que seu corpo consumisse cada erg de energia química dos alimentos e convertesse em calor para manter seu corpo funcionando. Olhando pela janela, o mundo era um branco opaco pouco cintilante. Um imenso tapete de neve que cobrira tudo, ou, como ele mesmo chamava, merda branca.

A vítima estava acostumada com o frio. Era natural de regiões frias, geladas, congelantes. Era apenas um dia como outro qualquer. Ela até preferia assim. Quem gosta daquele sol abrasador de 20ºC? pelo amor de Deus, aquilo não é vida! O mundo deveria ser assim: tudo coberto de neve o ano todo. E o vento? Ah, o vento gelado e cortante. Aquela doce criatura que nunca fez mal a ninguém chamava isso de lar. Ela e sua família pertencem a uma longa linhagem acostumada ao frio, morando desde que ela se lembra e seus antepassados nas latitudes superiores, admirando o céu noturno com o balé luminoso da aurora.

O café fumegante cai do bule em direção à caneca uma última vez. Estava quente, gostoso, encorpado. O que se seguiria depois seria dor e sofrimento para um, júbilo e regozijo para outro. Mas assim são as coisas no mundo em que mortes são comuns.

O homem ajeita o gorro e vai até sua garagem, pronto pro que vai fazer. O relógio marcha inexoravelmente para a morte.

Tic Tac Tic Tac

O homem vai com seu veículo e sua arma. Está à espreita. A vítima está com seus dias contados, mas nunca em seus dias mais íntimos e secretos, teria condições de imaginar os horrores pelos quais passaria. A vítima não está segura, apesar do que pudesse achar, mas como saber? Ela simplesmente estava lá fora ao relento, e seus últimos minutos voam como os pássaros que voa rápido contra o vento enregelante do céu.

O veículo para. Botas pesadas saltam sobre a neve endurecida pelo frio da noite. Ótimo, dá para andar bem, apesar da fina neve que cai no momento. A respiração pesada é rapidamente condensada no ar.

Tic Tac Tic Tac

O fim está próximo, mas não terá fim ali.

Tic Tac

O homem se aproxima, ergue o machado e este desce cm vigor, força e fúria

TCHAK!

Só então a vítima se dá conta que chegou seu fim. Se pudesse falar, daria um berro, mas ninguém ouviria o seu pranto, ninguém correria para lhe ajudar. Aquele foi o momento decisivo.

TCHAK

Machadada após machadada, era uma violência desesperadora, até que o corpo sem vida cai, seus fluidos mancham o machado, mancham a neve, e ninguém se importa. Ninguém se importará. O corpo cai, o tronco do homem está úmido de suor, mesmo naquele frio. O tronco da vítima está partido pelas machadadas.

O homem olha pro que acabou de fazer e não sente emoção. Se sentiu, não deixou transparecer. Deu de ombros e amarrou o corpo que jazia sobre a neve profanada ao seu veículo e dali foi embora. Ele não se importara com o que acabara de fazer. Era apenas mais um, nada especial ali.

Mas a história de horror não acaba mesmo com o corpo morto e dilacerado sendo arrastado de forma horrenda, deixando um rastro horrível de morte. Aqueles que dependiam da vitima não terão mais quem os protegesse e fatalmente terão o seu fim em breve, mas isso não era importante para o assassino.

O motivo do assassinato, vocês me perguntarão, é algo vil e torpe. É apenas um sacrifício em homenagem a antigos rituais pagãos já perdidos nas brumas do tempo, mas ainda assim são continuados. O ato profano já foi proibido antes, perseguido, mas sumiu da vigilância e ficou tão enraizado que muitos não o enxergam como crime. É uma questão religiosa, temos que respeitar, como muitos repetirão, mas não é assim, pois, não se conhece toda a realidade do festejo, do ritual, dos cânticos.

O corpo já sem vida foi levado para o centro da reunião, onde os festejos pagãos começaram. Horrendamente, o defunto foi posto de pé, imóvel, congelado no tempo, uma sombra do que fora um dia, quase com um esgar de medo e nojo pelo seu fim apavorante. As pessoas em volta iniciaram o ritual. O fogo foi aceso. Oferendas outrora vivas tiveram como destino serem jogadas ao fogo e lá crepitaram até serem consumidas. Ornamentos, cantoria, luzes, pessoas celebrando, algumas já sob efeito de estupefacientes.

No céu, a noite estrelada testemunhava indiferente o que se passava ao nível do chão. Cernes eram cortadas, líquidos vermelhos escorriam por taças. O brilho do fogo transformava aquelas formas em figuras demoníacas celebrando.

O corpo ficará lá, com velas, luzes, bolas de ouro e ornamentos, como um símbolo pagão, até que outros lhe substituam e ele será esquecido na próxima celebração, quando outros de sua estirpe serão mortos e os rituais continuarão.

Mas convenhamos. Como decoração fica legal.

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