Os livros climáticos escritos para sempre

Todo mundo adora cavernas. Aqueles ambientes sombrios, misteriosos, claustrofóbicos, com paredes de rochas e possivelmente pedras preciosas. Claro, todo mundo adoro mesmo pelo monitor, pois aqui ó que eu vou me enfiar num buracão no chão, com risco de ficar enterrado vivo. Para geólogos (aquele pessoal que tem pedras na cabeça), é o paraíso, principalmente quando se pode ter muitas informações nas rochas. Informações que fala como a Terra surgiu, como o relevo se formou e – olha que maneiro! – saber das mudanças climáticas que têm acontecido no imenso diário gravado em pedra pelos fenômenos naturais.

Elli Ronay é doutoranda no Departamento de Ciências Ambientais e da Terra da Universidade Vanderbilt.. Ela e outros estagiários de luxo dos PhDeuses da universidade estudam as formações rochosas da caverna de Mawmluh, no estado indiano de Meghalaya, que por causa das monções e clima em geral é tido como o lugar mais chuvoso da Terra. Uma espécie de São Paulo, mas um pouco piorado, apesar do que curitibanos possam falar.

O ponto principal do estudo são as estalagmites de Mawmluh (tenho certeza que se eu falar este nome três vezes na frente de um espelho, vai surgir algum demônio hardcore que faria Vishnu sair correndo). Estalagmites são as formações tipo “entes” de uma caverna, vindas de baixo para cima. As de cima para baixo são “estalactites”.


Você pensou sacanagem que eu sei

Todo ano, um mundaréu de água cai sobre as terras dos descendentes de Poro, o rei do Punjab que chamou Alexandre para as vias de fato. Poro perdeu a guerra, mas foi honrado como grande rei que era, e os soldados de Alexandre foram lembrados que se fizessem mal ao rei ou à sua família, Alexandre ia ficar MUITO decepcionado. E você não decepciona alguém que governa mais da metade do Mundo Antigo, pois sabe que vai dar ruim, MUITO RUIM, pra você.

Esse mundaréu de água ocorre na chamada “época de monções”, quando grandes massas de ar vão do oceano índico para a Ásia, sendo barradas pela Cordilheira do Himalaia, concentrando as chuvas na península indiana e arredores. Daí vem aquelas chuvas do Inferno, que até Indra compra mais guarda-chuvas no Mercado Livre e espalha panelas em seu palácio celestial por causa das goteiras.

A pesquisa de Ronay é estudar como tem andado o clima ultimamente, observando as estalagmites da caverna de Mawmluh e de outras cavernas da região. A análise indicou que houve uma recorrência de períodos de secas intensas e plurianuais na Índia nos últimos milhares de anos. A circulação de ar e água em cavernas como a Mawmluh não só pode causar, como até mesmo favorecer, o crescimento de estalagmites na estação seca, levando a efeitos inesperados nos registros paleoclimáticos. Quando Ronay e os PhDeuses fizeram a reconstrução sub-sazonal de composições de elementos traços nas estalagmites, conseguiram informações preciosas sobre mudanças locais na hidrologia.

Comparações de registros de cavernas e dados pluviométricos próximos mostram que as variações nas chuvas da estação seca, em vez das chuvas de monção, determinam as variações nas concentrações de oligoelementos na estalagmite e como a quantidade de variação muda de ano para ano, criando um verdadeiro diário de acontecimentos, um livro escrito em pedra para a posteridade, esperando olhos ávidos para ler cada informação lá escondida.

Obviamente, você está interessado. Aproveita que o artigo publicado no periódico Scientific Reports> está lá te esperando!

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