Nigerianos resolvem o problema de habitação usando garrafas com areia

Ainda hoje eu disse pros meus alunos: Navalha de Ockham. A solução mais simples é, na maioria das vezes, a mais acertada. Construir casas sempre é um problema, ainda mais com o alto custo do material de construção. São tijolos, cimento, areia,  etc. Paralelamente, estamos buscando alternativas que deem cabo das garrafas de politereftalato de etileno (o famoso PET).  A melhor solução seria poder criar um modo de resolver estes dois problemas. Bem, foi o que nigerianos fizeram ao construir casas com garrafas PET e areia.

O uso de garrafas PET para construção não é tanta novidade assim. O engenheiro da UFPA Neílton da Silva Tapajós, desenvolveu um método de fabricação de tijolos que se baseia na combinação do PET com gesso, cimento, resina cristal e caroço moído de açaí. O melhor resultado para o objetivo proposto, a construção civil, foi alcançado na combinação com o cimento. Embutindo três garrafas, ele montou um monobloco plástico que foi envolvido por uma camada de um centímetro e meio de cimento, dentro de uma forma de madeira. Doze horas depois, o cimento estava curado, revelando um tijolo de paredes lisas, com saliências e reentrâncias nas laterais para encaixe de outros tijolos. Fonte.

O pessoal da Nigéria com certeza acharia isso tudo muito complicado e tio Ockham deu sinal verde. Assim, os preclaros nigerianos simplesmente encheram as garrafas com areia e começaram a empilhar. Simples assim. Veja abaixo.

O polímero PET é o melhor e mais resistente plástico para fabricação de garrafas e embalagens. Ele possui uma alta resistência mecânica e química. Pode-se colocar ácidos e bases inorgânicos nele (se bem que soluções de bases concentradas ficam melhor em plásticos de polietileno). Ele não tem odores e é facilmente moldável, além de demorar à beça para se desfazer e ESTE é seu problema. De qualquer forma, com suas propriedades e alta resistência, ele é o ideal para servir de base para materiais de construção. Na Nigéria, as construções são circulares, o que acarreta na inexistência de "cantos vivos", onde a resistência do corpo seria menor (com a palavra, os engenheiros).

Além disso, há um problema ambiental onde um bando de idiotas sem-noção atravessam as estradas, jogando garrafas fora sem darem a menor bola pra isso. Então, um grupo de ativistas da ONG Developmental Association for Renewable Energies (DARE) resolveu dar um jeito e unir os dois problemas. O DARE já é conhecido por estimular o uso de fogões solares usando espelhos parabólicos, e resolveu pegar as garrafas de água de plástico que eram jogadas em estradas, canais, valetas, mato (sim, tem mato lá) e em qualquer lugar onde elas possam parar.

A técnica é particularmente interessante e foi desenvolvida com o auxílio do Africa Community Trust: Pega-se a garrafa, enche-se de areia, deita-as, devidamente alinhadas (ou quase, já que as casas são circulares). Cada garrafa pesa cerca de 3 kg e são amarradas com cordas, para que não saiam do lugar. Depois, são cobertas com barro, lama e/ou cimento (este serve mais de reboco, mesmo). As tampas das garrafas de várias cores ficam para fora do reboco, o que confere um aspecto bem peculiar.

Estima-se que o interior da casa nessas condições fique em torno de 18 °C, o que é praticamente o meu ar-condicionado em pleno verão carioca, sem o mesmo desgosto que eu tenho ao receber a conta de luz.

Peraí! QUE conta de luz?

Os participantes do projeto ainda pretendem que as casas sejam alimentadas com células solares e levando em conta que uma família lá nos cafundó do Judas não terá grande apelo por energia elétrica, painéis solares são uma excelente ideia, ainda mais se levarmos em conta que eles também usarão fogões solares.

Ah, tá. E quando não tiver sol. Hein? Hein? Hein?

Estamos falando da Nigéria e não do Alasca. Sol lá é o que não falta e mesmo que por algum evento cataclísmico ficar umas boas semanas sem sol, há sempre outras alternativas para a geração de energia elétrica, como usinas eólicas, mas creio que a base seja o uso da energia solar mesmo. Reitero: eles não têm 300 computadores, TV de válvula nem ar-condicionado (as garrafas garantem a inutilidade do aparelho). A demanda por energia elétrica, portanto, será bem menor que a minha ou a sua. Outro ponto positivo é que a casa assim construída é à prova de balas e isso é muito importante naqueles recantos de Deus-me-livre.

Outro ponto é que começando por um sistema meio que industrial de produção de tijolos PET-Areia, precisarão de trabalhadores. As crianças poderão trabalhar (dentro dos limites da racionalidade, óbvio), tirando-as do ócio. Aliás, elees estão usando esta mesma técnica para construir uma escola perto da linha de produção.

Claro, ninguém joga pra perder e nem todo mundo é tão bonzinho assim. Um empresário grego cedeu um lote de terra onde estão sendo construídas 25 casas com quarto, sala, banheiro e cozinha, e que usará 7.800 garrafas plásticas, cada uma. A propósito, elas serão alugadas, já que, como eu disse, ninguém é 100% bonzinho, mas imagino que ficará com preço bem mais acessível (o que eu tenho certas reservas).

De qualquer forma, é uma ideia interessante e que já tinha sido aplicada na Índia e no México (este usa até garrafas de vidro e algumas casas até que ficam muito bonitas). É barato e ainda resolve outros problemas, mas minha incredulidade não permite que eu sequer imagine que isso venha ser empregado no Brasil. A não ser que o Governo compre milhares de garrafas de 2,75 litros de coca-cola, joguem o refrigerante fora e usem as garrafas para construir, pagando cerca de 50 reais por garrafa e 500 reais o metro cúbico de areia.


Fonte: BBC Brasil

4 comentários em “Nigerianos resolvem o problema de habitação usando garrafas com areia

  1. Bem maneiro!! Eu já vi isso com sacos de areia, mas o uso de garrafas pet é interessante também. Aqui no Brasil, tem um pessoal que faz artesanato com elas, tipo sofás e outras coisas.

    Só saindo um pouco do assunto, sei que não teve artigo, mas Feliz Sagan Day atrasado pra todo mundo que fica ligado no Cet.net :)

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  2. Grande ideia!Estou impressionado com a simplicidade e utilidade.Fazer isso no Brasil!?Improvavel, uma pena…André um pequeno erro na parte: que as estradas jogadas em estradas, canais, valetas, mato…

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  3. Para o povo brasileiro, que adora fazer puxadinho, é uma boa. Em vez de marreta vai na tesoura e ainda dá para reaproveitar a “parede” em outro lugar…

    Aqui em casa só uso garrafa de vidro. ;-)

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