É mesmo necessário salvar os pandas?

Chris Packham é um fotógrafo profissional especializado em vida selvagem, e já produziu documentários sobre o tema para o Discovery Channel, National Geographic e a BBC. Ele ainda é presidente da ONG Bat Conservation Trust e vice-presidente do The Wildlife Trusts. Maiores informações sobre ele num Google próximo de você.

Bem, esta semana, Packham chutou o pau da barraca com relação aos esforços para evitarem a extinção dos pandas, alegando que o gasto envolvido poderia ser muito melhor empregado em outros projetos mais importantes. Não preciso dizer que os ambientalistas e eco-chatos ficaram fulos da vida, da mesma forma que religiosos ficam quando dizemos que Javé é torpe, mau e sanguinário.

Em artigo publicado no site Wildlife Extra, Packham tece uma série de argumentos sobre a falta de necessidade para manter os pandas.

Nele, Packham alega que é chegado o momento de desistirmos dos pandas, de modo que eles sofram o que qualquer espécie está fadada: a extinção (e sim, isso inclui a nós também). Também diz que se deve parar de tentar salvá-los da extinção, e deixar de fazer deles, dos pandas, “ícones mais sagrados”.

Segundo o artigo, os pandas deram azar de acabar no lugar mais populoso do planeta, onde a alimentação é escassa e é lento para reprodução. Pois é, pandas não gostam de sexo, ao contrário dos golfinhos. Ainda assim, são bonitinhos e fofinhos, chegando a ser símbolo da WWF, e todos o amam; mas tudo é por causa de uma visão antropológica. Nesse ponto, eu concordo. Ninguém se preocupa se os toscos, feios, babões e terrivelmente venenosos dragões de Komodo estão em extinção. Répteis nos trazem péssimas lembranças ancestrais, quando aprendemos que devemos evitar tais tipos, por serem predadores ferozes. Mas foquinhas e pandinhas são fofinhos (ainda mais quando bebês), pois nos lembram de nossos próprios filhos. Não por acaso, nossos filhos, focas e pandas são mamíferos. São sempre fofinhos, rosto redondinho e curto, em contraponto dos malvados répteis, co sangue frio, escamosos, língua bifurcada e focinho proeminente.

Packham alega que gastar tanto é muito difícil de parar. e que o “Ardil 22 de Pandas está nos capturando pelos cartões de crédito, apesar do desespero de nossa crise”. É um argumento que deve ser visto com reserva, pois, afinal, gasta-se muito mais com pesquisas espaciais. Só que pesquisas espaciais nos deram tecnologia, como a melhoria de células solares, ligas metálicas, ferramentas, plásticos mais resistentes etc. No entanto, o que o imenso volume de dinheiro gasto com os lindinhos dos pandas nos deram em troca? Temos mesmo que interferir no processo natural, onde espécies aparecem e desaparecem ao sabor da Seleção Natural?

Em reportagem do jornal Telegraph, Chris Parckam disse que “devemos puxar o plugue. Deixá-los ir com um grau de dignidade”. Além disso, segundo o fotógrafo, os tigres poderiam extinguir-se com duas décadas ou mesmo mais de 15 anos. “Como você pode conservar um animal que vale mais morto do que vivo? Você não pode”, disse Parkham.

O especialista em vida selvagem David Bellamy apoiou Packham. “Você não pode libertá-los de volta para a vida selvagem, se não houver selva e não devemos trazermos animais apenas para colocá-los em gaiolas. Mesmo a WWF admitiu já não há terra suficiente para se viver.”

Entretanto, o Dr. Mark Wright, um conselheiro de ciência da conservação da WWF descreveu os comentários de Packham como “tontos” e “irresponsáveis”. Segundo Wright, “Pandas se adaptaram ao local onde vivem. Eles vivem nas montanhas, onde há abundância de bambu que eles querem comer. É como dizer que a baleia azul está no ‘fundo do poço’ evolutivo, porque ela vive no oceano.”

Wright acrescentou que pandas ameaçados de extinção devido à caça e os seres humanos que se deslocam em seu habitat, e que, se deixados sozinhos eles não estariam sob ameaça, e nisso ele também está correto. Ainda assim, é certo interferirmos tanto assim no mundo natural? Não falo em sairmos caçando leões ou devastar florestas. Também não é questão de dizer “Libertas Qae Sera“, e sair destruindo lojas de animais, soltando cães e gatos na rua. É algo muito mais profundo, pois termos os lindos pandinhas soltos não será garantia que eles fujam da extinção.

Sim, o homem é um agente da Seleção Natural, onde influímos no ambiente, e o ambiente selecionará quem está adaptado e quem não está. Somos apenas mais uma mola do processo seletivo, conscientes disso ou não. mas, quando interferimos no ambiente, interferimos em todo um ecossistema. Não é questão de salvarmos apenas os pandas. Não podemos salvá-los se não cuidarmos para que o ambiente envolta deles propicie sua manutenção de vida.

Só que a celeuma acaba sendo levada pro campo sentimentalóide, pois como eu disse, pandinhas são lindinhos e ninguém quer saber dos pobres lagartos ou dos sapos verruguentos. Devemos mesmo gastar rios de dinheiro com pandas, quando seres humanos passam miséria em outro lado do mundo, ou sob uma névoa de guerra e terror, como os somalis?

Há muito interesse por trás disso. Muitos desses ambientalistas o são para tirar vantagens e não venham me dizer que não, que eu não sou tão inocente assim de acreditar na imensa bondade humana para salvar pobres bichinhos.

Enquanto os eco-chatos brigam para preservar um animal bonitinho que se encontra em um beco sem saída para a sua sobrevivência no meio ambiente, esquecem que um milhão de espécies extinguem-se a cada ano em nosso planeta. Deveríamos cuidar mais das especies que possuem uma função realmente importante para a manutenção dos ecossistemas e por conseguinte, para a vida na Terra. Já pensaram na catástrofe descomunal se as abelhas domésticas (Apis mellifera) se extinguirem?

E você? O que pensa disso tudo?

20 comentários em “É mesmo necessário salvar os pandas?

  1. Eu sinceramente fico em cima do muro nesse caso. Sou à favor do abandono aos pandas porque eles mesmos estão caminhando para a extinção, o gene responsável pelo apetite sexual tem uma probabilidade baixa de ser passado para a próxima geração. Oras, se o bicho “não quer” se reproduzir por conta de um gene, paciência, deixe-o ir na direção da extinção, afinal, uma característica deletéria apareceu, ele que se vá.
    Porém, Carl Jones uma vez disse: “se você pode salvar o falcão de Maurício, você pode salvar virtualmente qualquer coisa”. Pra quem não sabe, esse cara foi o responsável pela recuperação dessa espécie de ave. Com apenas 6 exemplares NO MUNDO (4 selvagens com somente 1 casal e 2 em cativeiro que não se reproduziam nem se o Chuck Norris aparecesse) ele conseguiu fazer com que eles se reproduzissem e hoje sua população passa dos 700 indivíduos. Pra quem quiser a fonte: http://www.oeco.com.br/todos-os-colunistas/45-fernando-fernandez/18375-oeco28361

    Sou da seguinte opinião: se tem gente disposta a tentar salvar o panda, ótimo, desde que outras pessoas não se esqueçam dos bichos “menos bonitinhos”.

  2. isso é a parte do pensamento livre mais interessante,não há dogmas qualquer assunto ou tema pode ser posto em dúvida,nada é absoluto temos que escolher o que é racionalmente vantajoso… :cool:

  3. Questão de perspectiva. Imagino que alguém que morra de fome em algum país africano assolado pela guerra ou mesmo no meio do sertão nordestino, para um exemplo mais próximo, que não tem dinheiro para comprar o mínimo para subsistência, obrigado a comer palma ou beber leite com sangue, ache a questão muito menos importante do que ativistas ecológicos que tem grana para se engajar na causa e poder comprar jaquetas do Greenpeace por 200 dólares.

    Concordo que uma política de não-dizimação do habitat dos pandas é cabível, de forma que eles possam viver e morrer sob seus próprios auspícios. Isso é cabível, educar humanos a não serem predatórios em demasia. Mas concordo que desperdiçar recursos com algo que, além de não ter serventia prática para um ecossistema (evitar a invasão dos bambus?) e cuja natureza não favorece a reprodução em meio à nossa existência tão próxima.

    O animal humano, no meu ver, passa por agrurar bem piores por causa de si mesmo e ainda assim sofre pela falta de assistência na demanda necessária.

  4. A sua extinção tem a mão do homem , é difícil até de opinar nesses casos, já que devastaram o habitat desses bichinhos fofinhos.
    Pelo que me parece os filmes pornos não estão fazendo efeito, essa assexualidade deve ser caso de extinção.
    Agora eu lembrei de um professor de química orgânica que tive, ele dizia: “eu quero que as tartarugas marinhas se danem”! :lol: Se ele ainda estiver vivo deve está dizendo o mesmo para os pandas.

    1. @Paula,
      Isso não quer dizer que eu concordo com o meu antigo professor. Eu acho que quando se extingui uma espécie tem que observar outros fatores na natureza também, afinal uns dependem dos outros.

  5. Quem reclama de passar fome ainda não morreu, mostrando que tem sim algo pra comer e acho que deviam se importar mais em evitar ter filhos em excesso, tendo em vista que a nova moda eh ter 7 filhos e não ganhar nem um salário mínimo. Acho também que deveriam salvar os pandas, eles são legais. :grin:

    Terminem com os islâmicos primeiro, eles não farão falta.

  6. Não entendo o argumento que diz para não salvar os pandas(não que eu seja a favor de salvá-los), interferindo na seleção natural e tudo mais, e que diz para salvar pessoas morrendo e passando fome não sei aonde. A seleção natural só funciona para os pandas ou eu perdi alguma coisa?
    o.O

    1. Por que vc toma remédio? Não é melhor a natureza seguir seu curso? Por que vc tem um emprego? Basta viver de caça e coleta, né? Por que vc tem um computador? Falar com conforto é mole, não é mesmo?

      1. Falou certo, “eu” tomo remédio(inclusive tô com uma p*** sinusite aqui), “eu” tenho emprego, “eu” tenho computador. “Eu” tomei providências, possíveis, para que minha vida tivesse conforto, e, falar com conforto é mole sim, não é?
        ;)

          1. Pelo que percebi nas suas respostas em praticamente todos os seus posts, nada que alguém fale que vá contra qualquer aspecto que seja de algum argumento seu, é compreendido por você. Continuo não vendo lógica em você não achar correto salvar pandas e achar correto salvar somalianos.
            Mas também não espero coerência de você.
            ;)
            A propósito, apesar da sua maneira de lidar com pessoas que divergem, por menos que seja da sua opinião, esse é um dos melhores blogs que conheci ultimamente.
            Parabéns! “Pelo blog”
            :P

          2. Talvez porque eu não defendi a extinção dos pandas, eu apenas reportei a opinião de Chris Packham. Eu não sei qual é o problema que acarreta a baixa interpretação de textos. Sobre os somalianos… Bem, devia ter prestado atenção ao texto, pois o que escrevi foi:

            Devemos mesmo gastar rios de dinheiro com pandas, quando seres humanos passam miséria em outro lado do mundo, ou sob uma névoa de guerra e terror, como os somalis?

            No caso, fome e miséria foi criada pelo próprio homem,. Ainda que eu tenha dito que ele faz parte da Seleção Natural. MAAAAAAAAAAAAAAAAS, da mesma forma como uma ação exterminadora pode conferir uma corrida competitiva (procure sobre Rainha Vermelha, aqui mesmo), o próprio homem pode prover condições para reverter o quadro.

            Ou não. Acho que vc tá certo. Devemos dar um jeito no sofrimento deles, relegando-os à não existência. Algumas pessoas vêm fazendo isso ao longo dos séculos, com judeus, negros, deficientes físicos, membros de outras religiões etc.

            Outra coisa: a qualidade do blog é diretamente proporcional ao modo gentil que eu trato as pessoas. Obrigado e não esqueça de fazer algo pelo seu vizinho impedindo-o de ir até a farmácia. vamos fazer um mundo melhor!

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