Fim de Roma não mudou dia-a-dia

Saúde de pessoas do auge do Império Romano e do começo da Idade Média era idêntica. Dados sugerem que transição entre eras imperial e medieval não afetou pessoas comuns. Para a elite da época, foi como se o mundo tivesse acabado. “Tornou-se cativa a cidade que antes havia tornado todas as outras suas cativas”, escreveu São Jerônimo sobre o saque de Roma pelos bárbaros em 410 d.C., que marcou o início do fim de um império de 500 anos. Mas, ao menos para o povo comum da Itália, parece que a suposta catástrofe não foi nem um pouco catastrófica. Um novo estudo sugere que as condições de vida da população mudaram muito pouco entre o auge do Império Romano e o começo da Idade Média.

Os dados foram levantados pela equipe coordenada por Maria Giovanna Belcastro, do Laboratório de Bioarqueologia e Osteologia Forense da Universidade de Bolonha. Os pesquisadores italianos conseguiram analisar os restos mortais de pessoas em dois cemitérios da região de Molise (centro-sul do país, bastante perto de Roma). Uma das necrópoles tem “moradores” do século 1 ao século 4 da nossa era (do auge ao começo do declínio do Império Romano), enquanto a outra foi utilizada durante o século 7, no começo do período medieval.

“O que chama a atenção é a continuidade substancial desde o século 1 até o século 7 nos hábitos alimentares e no modo de utilização do território. Parece que as populações do Sâmnio [nome da região na Antigüidade] não gozavam de um bom estado de saúde já durante o período romano-imperial”, explicou Belcastro. “No caso do Sâmnio, pode-se dizer que já havia uma crise durante a época imperial.”

Para chegar a essa conclusão, Belcastro e seus colegas examinaram os esqueletos de 67 indivíduos da necrópole romana e 88 indivíduos do cemitério medieval. Em ambas as épocas, a região montanhosa era dominada por assentamentos rurais ou pequenas cidades, que viviam da agricultura e do pastoreio.

A equipe usou alguns indicadores clássicos de alimentação e saúde geral, como quantidade de cáries, número de dentes perdidos ao longo da vida, falhas de crescimento dentário (que indicam períodos de desnutrição), inflamações e lesões ósseas. Esses dados costumam dar pistas não apenas sobre a quantidade da alimentação, mas também sobre sua qualidade. Deficiência de ferro, por exemplo, gera um tipo específico de lesão óssea nas órbitas dos olhos.

E o grande resultado foi justamente a falta de diferenças significativas entre as duas populações, fora um ou outro detalhe. Todo mundo sofria com índices assombrosos de cáries, abscessos, inflamações bucais e anemia. “É possível ver alguma mudança dietética no início da Idade Média, como um maior consumo de proteínas, talvez devido a mais carne na dieta”, afirma Belcastro. É possível que isso se deva à chegada dos lombardos (um povo germânico de origem escandinava), que se estabeleceram na região como conquistadores durante a Idade Média.

O estado de saúde de uma população costuma estar diretamente relacionado à sua saúde econômica – pessoas ricas comem bem, pobres comem mal. Portanto, parece que, do ponto de vista econômico e talvez social, ser ou não súditos do famoso Império Romano não fazia a menor diferença para o povo do Sâmnio.

E para o resto do Império? Essa é a pergunta que Belcastro e companhia tentarão responder no futuro. Ela conta que uma análise parecida feita numa necrópole do porto de Roma (da era imperial) e de outras na vizinhança imediata da Cidade Eterna (da era medieval) mostra uma redução na qualidade de vida de um momento a outro. O próximo passo será analisar cemitérios das regiões de Bolonha e Ancona, ambas no norte da Itália. Só assim será possível ter um quadro mais completo das populações italianas das duas épocas, e de como a queda do Império as afetou.

Fonte: G1

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.