Sonoridade do Universo

Por Ulisses Capazzoli

Houve um tempo que se disse que o Pink Floyd – uma das lendas da história do rock – era uma banda tão underground que se as minhocas quisessem vê-los,deveriam olhar pra baixo. O Pink Floyd sempre esteve associado ao rock progressivo, fusão de sonoridades com raízes amplas: da música erudita à folclórica, passando pelo jazz e, evidentemente, pelo próprio rock.

Ao Pink Floyd foi atribuída a criação da “música espacial”, enormes e densas massas sonoras deslocando-se de forma melodiosa, com resultados surpreendentes. Um show do Pink Floyd ao vivo, era uma experiência de multidimensionalidade.

Mas, a esta altura ao menos um cético terá perguntado se perguntado: Como? Música espacial? Se o espaço interplanetário, interestelar ou intergaláctico não tem ar para ser vibrado e produzir sons, como se pode falar em sons espaciais?

É aqui que começa nossa história.

Imagine-se por um momento em pé na superfície de Titã, a fascinante lua de Saturno, com seus continentes e ilhas de gelo, chuvas de metano e uma atmosfera tão espessa que é quase opaca. considere que seu traje espacial está com microfones e você terá uma surpresa: a primeira descarga elétrica que riscar o céu dessa lua virá acompanhada de um estrondo, como os que se ouvem nas tempestades da Terra. Literalmente, um som de outro mundo.

Até aqui a surpresa pelo ineditismo, mas não pela improcedência. Afinal, não apenas Titã, mas também Marte e Vênus têm atmosferas e nesses casos o som pode ser produzido e propagado. Em Marte, mais fracamente e a distâncias bem mais curtas, em função da baixa densidade atmosférica, equivalente a algo como 1% da terrestre.

Vênus é diferente. A atmosfera densa faz desse planeta um mundo de névoa eterna, mas essa não é a maior intimidação. Ácido sulfúrico escorrendo pela atmosfera e temperaturas de derreter chumbo são mais ameaçadores. Astronautas deveriam vestir armaduras, para não ser esmagados pela pressão atmosférica, como aconteceu com as primeiras naves que pousaram lá.

Musicalidade dos mundos

Na verdade, não apenas em Vênus, Marte e Titã, mas por todo o Universo é possível ouvir sons. os mais surpreendentes.

Na primeira edição da Astronomy Brasil, o anuário para 2007, foi publicado um relato da dupla de escritores londrinos de ciência, Alison Boyle e Ken Grimes. Eles coletaram uma série de dados para escrever “Música das Esferas”, um relato sobre os sons do Universo.

Música das Esferas – o leitor deve estar pensando – remete a Pitágoras, Filósofo grego (560 – 480 a.C.) nascido na ilha de Samos, no mar Egeu. Em Samos nasceu outro filósofo-astrônomo genial: Aristarco de Samos (310 – 230 a.C.). Quinze séculos antes de Nicolau Copérnico, Aristarco previu que a Terra gira em torno do Sol e de seu próprio eixo. Determinou as distâncias entre o Sol e da Lua e um volume de Universo semelhante ao que imaginávamos até o século passado.

Pitágoras foi obcecado pelos números inteiros (números naturais 0, 1, 2, 3,… e seus opostos, 0, –1, –2, –3,…), além de apaixonado por lira. Um dia se deu conta de que uma corda apertada no seu ponto médio produz tons cuja altura é exatamente uma oitava mais alta que a corda inteira.

A descoberta foi o bastante para Pitágoras se convencer de uma harmonia cósmica, expressa em números e proporções. Seus seguidores (Pitágoras fundou uma escola na colônia grega de Cróton, sul da Itália, mas não deixou escritos) expandiram essa idéia. Platão pensou que cada planeta produzia uma nota. Assim nasceu e evoluiu o conceito de “música das esferas”.

Em muitos mundos sombrios como Vênus, ou pouco menos, caso de Titã, os sons podem ser um recurso de exploração, avalia John Zarnecki, pesquisador principal da sonda Huygens, que, em janeiro de 2005, pousou nessa luz de Saturno.

Na fase inicial de tratamento de dados, Zarnecki já estava convencido do som de chuva alienígena tamborilando no casco metálico da sonda batizada em homenagem ao físico Christiaan Huygens (1629 – 1695), descobridor dos anéis de Saturno.

Mas também o Sol produz sua música interior. As primeiras suspeitas neste sentido apareceram nos movimentados anos de 1960. Na década seguinte, Robert Ulrich, da Universidade da Califórnia, sugeriu que o Sol vibrava em resposta às ondas sonoras que gera. Agora os astrônomos já dispõem de um levantamento sonoro do Sol. Descobriram que nossa estrela-mãe apresenta mais de 100 mil modos de oscilação e assim compõe sua música.

Cada um desses modos mergulha a certa profundidade no interior do Sol e, mapeando cada um deles, os astrofísicos podem criar modelos sobre sua estrutura, da mesma forma que os geofísicos utilizam a sonoridade deos sismos para investigar as profundezas da Terra.

No espaço não há matéria suficiente para o transporte de ondas acústicas como conhecemos na Terra. Mas, Don Gurnett, líder do grupo de plasma espacial da Universidade de Iowa, garante que o plasma interplanetário (formado por partículas eletricamente carregadas) está longe de ser silencioso. Há, diz ele, uma enorme variedade de ondas de plasma, moldadas por campos magnéticos e eletrons em rotação.

Adaptando essas freqüências para o ouvido humano, Gurnett diz que lembram sons de baleias comunicando-se em alto-mar. Os primeiros sons de plasma, os “whistles”, vêm da época da Primeira guerra Mundial e podem dar pistas tanto sobre a densidade de plasma que envolve a Terra, como da atmosfera de outros planetas.

Bongô de Pulsares

Astros como os pulsares, remanescentes de supernovas, estrelas de grande massa que explodem, são verdadeiros bongôs cósmicos. É o caso do pulsar de Vela, restos de uma estrela que explodiu há 10 mil anos.

Em 2002, segundo Boyle e Grimes, o telescópio de raios X chandra encontrou um buraco negro no aglomerado galáctico de Perseus, que produz a nota cósmica mais baixa já registrada: “Não é o tipo de som que se consegue ouvir, mas a intensidade não difere muito da voz humana”, assegura Andy Fabian, da Universidade de Cambridge.

Jatos de plasma quente em alta velocidade, próximos ao horizonte de eventos – uma espécie de área de segurança em torno de buracos negros –, comprimidos ao londo do eixo de rotação desses canibais cósmicos, formam cavidades de gás. E as ondulações em torno dessas cavidades são tão regulares que criam uma nova onda de pressão a cada 10 milhões de anos. Essas freqüências correspondem a um sibemol, cerca de 57 oitavas, ou oito escalas completas, abaixo do si central de um piano e bilhões de vezes abaixo do limite humano de detecção.

Mark Whittle, da Universidade da Virgínia, vem gravando ondulações produzidas por ondas sonoras de épocas ainda mais remotas que os buracos negros distantes. Ele fez uma série de adaptações para poder ouvir os sons da radiação cósmica de fundo, uma espécie de “eco” do Big Bang, a explosão que criou o Universo, segundo esse modelo cosmológico. Whittle revela que os tons mais graves são muito fortes e “alguns podem atingir seu estômago, mas não seu ouvido”, como as notas mais baixas de um órgão de igreja.

Willian Herschel ficaria maravilhado com tudo isso. Herschel (1738 – 1822) foi um maestro que trocou a regência de orquestras pela astronomia. E foi o maior astrônomo de sua época.

Para saber mais: Dos Pitagóricos às Estrelas

2 comentários em “Sonoridade do Universo

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