Apertem os cintos, o piloto se jogou

Há certas frases que, ditas no momento errado, deixam de ser conselho e viram sentença. Por exemplo, dizer “Você sabe o que fazer, continue seguindo em frente” é, na maioria das vezes, algo que normalmente um instrutor faz a um aluno nervoso; problema é a minoria das vezes em que isso não soa legal, como falar isso segundos antes de tirar o fone de ouvido, organizar os pertences, destravar o cinto, abrir a porta e pular fora de um avião em movimento.

Não é o tipo de coisa que alguém queira presenciar, pincipalmente sendo o próprio aluno de pilotagem.

A cena aconteceu na segunda-feira, 6 de julho, nos céus de Toledo, uma pequena localidade na província de Córdoba, Argentina. Uma estudante de 22 anos, com brevê de piloto já emitida, mas ainda poucas horas de voo, ainda estava aprendendo a não suar frio na hora de pousar um Cessna C-150 com vento cruzado. Ao seu lado, Leandro Bertazzo, instrutor havia quatro anos na escola Flying Parrot Córdoba e ex-piloto comercial no Chile (não sei se Papagaio Voador seja um bom nome), um homem que o diretor da escola, Eduardo Alvarez, descreveria depois como alguém “sempre sorridente”.

Problema é que sorriso por fora esconde o que se passa por dentro.

No meio do voo, Bertazzo tirou o headset, arrumou seus pertences (incluindo o celular, detalhe que carrega um peso quase burocrático em meio à tragédia, como se estivesse organizando a mesa antes de sair do escritório), destravou o cinto, forçou a porta e saltou; por “forçou”, é exatamente isso, já que por design a porta não deveria ser fácil de abrir em pleno voo, independente do que os filmes digam.

A aeronave, de repente, ficou com um piloto a menos e uma aluna sozinha a bordo, sem tempo para processar o que tinha acabado de testemunhar. Ela avisou as autoridades por mensagem e fez o que qualquer manual de aviação chamaria de “procedimento exemplar sob estresse extremo”: voltou para o Aeroporto Coronel Olmedo e pousou sozinha, em perfeitas condições, apesar de, nas palavras de Alvarez, estar justificadamente muito abalada. Ele foi mais longe e classificou a reação da jovem como “clara, decidida, madura e profissional”, o tipo de elogio que normalmente se reserva a comandantes com décadas de carreira, não a alguém que ainda está acumulando horas de voo.

O corpo de Bertazzo foi encontrado cerca de vinte minutos depois, em um campo próximo, por volta das três da tarde. A investigação segue aberta e, até agora, sem explicação oficial: as autoridades dizem que as circunstâncias são “tão incomuns” que não conseguem ainda estabelecer com certeza o que motivou o salto, embora não descartem nem mesmo uma eventual falha mecânica na porta ou nos sistemas de segurança da aeronave, hipótese reforçada justamente pelo fato de a porta ser conhecidamente difícil de abrir em voo.

Relatos locais indicam que Bertazzo vinha passando por acompanhamento neuropsiquiátrico, informação que, segundo essas mesmas fontes, era conhecida apenas por familiares próximos antes do episódio; e, pelo visto, a parentada não via nada de mais alguém nessas condições estar trabalhando como instrutor de voo. Acho que ninguém penou no que poderia acontecer de pior e a essa altura está todo mundo com cara de Pikachu Surpreso.

Fica, no fim, uma história que não cabe bem em nenhuma categoria confortável. Não é exatamente um acidente aéreo, porque a aeronave pousou intacta e sem um arranhão. Não é uma falha técnica clássica, porque o avião funcionou perfeitamente do início ao fim, foi o ser humano dentro dele que saiu pela porta. E não é, tampouco, uma história sobre incompetência, porque a única pessoa que teve uma atuação impecável ali foi justamente quem menos experiência tinha.

Sobra a lição mais incômoda de todas: às vezes o maior risco dentro de uma cabine não está nos instrumentos, no motor ou no clima, está na cabeça de quem segura o manche ao seu lado, e nem sempre há um manual que ensine a lidar com isso.

Mas se ao menos os familiares tivessem levantado o dedo e dito pro Bertazzo: “escute, você tem certeza que é uma boa ideia?”


Fonte: Tabloide Fish n’ chips via @FellipeC

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