
Existe um tipo de coragem que não deveria ser estimulada, celebrada ou sequer mencionada sem um aviso de risco. Não é bravura. É o curto-circuito completo entre cérebro e realidade. Foi exatamente isso que se manifestou em Commerce City, Colorado, quando um homem decidiu que roupas eram uma opressão cultural, leis eram uma sugestão educada e uma delegacia de polícia era um playground mal explorado.
Commerce City, para quem nunca ouviu falar (ou seja, ninguém. Se bobear, nem os commercecitianos a conhecem) é aquele subúrbio americano genérico de filme mais genérico ainda, com cerca de 62 mil habitantes, refinarias, galpões industriais e o sonho singelo de jamais virar manchete por um motivo constrangedor. É uma espécie de Rocinha, mas com mais neve e menos vergonha. Até tem um time de futebol, o Colorado Rapids, o que não significa muita coisa (ou seja, não significa nada, mas eu vou encher linguiça e fazer vocês de otários).
Segundo os Meganhas Commercecitianos, que o máximo de criminalidade que enfrentaram foi a srª Betina McFuck não ter regado suas petúnias e ofendeu a vizinha, estavam sem ter ação. Eles alegaram que já viram de tudo (meu irmãozinho em Cristo Jesus, você sabe que não viu nada), e mesmo assim sentiu a necessidade de classificar o episódio como “truly bizarre”.
O que aconteceu, perguntarão vocês. Já responderei, direi eu. Ande, ande, se não vos cansardes, insistirão vocês. Calma, tranquilizarei eu. Por que escreves diálogos assim, ponderarão vocês. Por que não faria isso, rirei eu.
CHEGA, ANDRÉ!
Um idiota rastejou por baixo de um portão de segurança e invadiu o estacionamento privado da delegacia. Pelado, pelado. Nu com a mão no bolso! Estava lá, do jeito que veio ao mundo, só que com bem menos inocência e muito menos noção. Nada diz “ideia sólida” como invadir literalmente o quintal da polícia. É como entrar na boca do leão e reclamar que ele não tem opções veganas.
E então, num feito quase admirável se não fosse completamente imbecil, ele conseguiu entrar numa viatura policial, ligá-la e sair dirigindo. Tudo isso completamente despido. Em nenhum momento — nem ao sentir o banco frio, nem ao lembrar que carros de polícia costumam ser rastreados, nem ao refletir sobre o conceito abstrato de consequência — o meliante econsiderou. Calças são para os fracos. Cuecas são uma construção social. Prudência é coisa de quem não quer virar lenda local.
A polícia descreveu o evento como “o mais breve, e queremos dizer MUITO BREVE, dos passeios alegres”. Quando um policial usa caixa alta num comunicado oficial, é porque o constrangimento já venceu qualquer tentativa de profissionalismo. A “joyride” durou tão pouco que não deu tempo de escolher trilha sonora, ajustar retrovisor ou cometer o erro clássico de todo criminoso: achar que vai dar tempo. Foi mais rápido que meme ruim, mais curto que promessa de Ano Novo e mais efêmero que carreira de subcelebridade.
Antes mesmo que o sujeito pudesse decidir se aquilo tudo era um sonho libertário ou um surto completo, a polícia o interceptou perto do Civic Center. A surpresa foi geral — para ele. Para a polícia, não tanto. Afinal, quando você rouba um carro da própria polícia, a chance de passar despercebido é exatamente zero. Zero absoluto. Menor que a dignidade restante naquela cena. Ao ser retirado da viatura, veio a confirmação visual do que já era evidente: o homem estava completamente nu. As imagens das câmeras corporais mostram o suspeito tentando cobrir a região da cintura com um pano ou uma bandeira. Uma bandeira. Nada grita “erro de cálculo” como ser preso pelado segurando uma bandeira, como se estivesse inaugurando a República Independente das Decisões Estúpidas.
Tenho certeza que a tia não tá pura, não.
O mais impressionante não é o crime em si, mas o encadeamento de más decisões. Rastejar sem roupa, invadir uma delegacia, roubar um carro policial, dirigir por alguns quarteirões e ser preso em tempo recorde. É uma sequência tão perfeita de autossabotagem que merecia ser estudada em aulas de psicologia sob o título “quando o cérebro entra em greve”. O cara foi autuado por Roubo de veículo em 3º grau e Invasão criminal em 2º grau. Ah, e dirigir sem licença. Não, não tem lei obrigando a dirigir vestido, pelo que percebi. Lembrem-se disso quando estiverem no Colorado.
A aventura inteira durou menos que o tempo de esquentar comida no micro-ondas. Três minutos gloriosos de liberdade nua, seguidos por uma prisão imediata e uma entrada definitiva para o folclore urbano local. Ele agora está como hóspede dos cidadãos do Condado de Adams, onde, presume-se, alguém teve a gentileza de oferecer roupas. Porque até o sistema penal americano traça uma linha clara entre punição e nudez desnecessária.
Que fique o ensinamento: se um dia você acordar com vontade de invadir uma delegacia pelado, não faça isso. Tome um café. Ligue para alguém. Questione suas escolhas. Porque absolutamente qualquer alternativa é melhor do que virar notícia mundial por ser nu, preso e incrivelmente convencido de que ia dar certo. E como reflexão final, só quem se arrisca vive o extraordinário…
… e vai em cana.
Fonte: Outkick

Um comentário em “Bandido pelado rouba polícia, foge e vai preso”