
Tem gente que chega aos 97 anos e pede sossego, uma poltrona, um chá morno e silêncio até segunda ordem. Vito, de Los Angeles, olhou para o calendário, ignorou a bula de todos os remédios da gaveta e decidiu que o aniversário seria um “rager” de Halloween. Para quem não frequenta festa desde a era do Orkut, “rager” é aquele tipo de balada em que o vizinho liga para a polícia. Vito tinha quase um século de estrada e o pique de calouro em semana de trote.
Só que o Destino é bem irônico com certas coisas, e Don Vito encontrou com ela, a iniludível, mas de uma forma que… ok, serei honesto. Uma forma que eu mesmo gostaria.
Tudo começou quando a confeiteira Eden Malinoff, de 24 anos e vizinha do aniversariante, ajudou a pôr a coisa de pé (a festa, seus pervertidos. O cara tinha 97 ANOS!). Fez um bolo de chocolate com vinho tinto, que ela descreveu como um bolo “de vinho fino”, numa homenagem que dispensa legenda: Vito, como todo bom rótulo, só melhorava com o tempo.
Segundo Eden (que é um paraíso sem aqueles óculos enormes), o segredo da longevidade dele era de uma simplicidade quase ofensiva para quem paga plano de saúde: nunca deixar a idade mandar em nada. Sem suplemento, sem jejum intermitente, sem aquele influenciador que acorda às quatro da manhã para tomar banho gelado. Só teimosia, vinho e pista de dança.
Em vídeo publicado no TikTok em 2 de novembro (infelizmente, apagado), aparece Don Vito de preto, sorrindo, batendo palmas e se mexendo sob luzes coloridas, enquanto convidados fantasiados giravam ao redor. Em certo momento, toca “Stayin’ Alive”, dos Bee Gees, de 1977, a trilha de John Travolta de terno branco e dedo apontado para o teto em “Embalos de Sábado à Noite”. Uma música sobre sobreviver à selva de pedra de Nova York, dançada por um homem que sobreviveu a quase cem anos dela. Até aqui, poesia.
Aí vem ele: o plot twist que nenhum roteirista teria coragem de assinar. Após cantarem os parabéns, Don Vito morreu naquela mesma noite, cercado pelos melhores amigos. Eden chamou de “saída dramática”. Um amigo que se disse o melhor amigo dele confirmou a história, e a própria confeiteira resumiu o consolo: ele ainda deu uma boa dançada pouco antes. A causa da morte não foi divulgada, e ninguém afirmou que a dança tenha tido qualquer relação com o desfecho. A música, portanto, está inocente, embora o título tenha ficado com cara de piada de mau gosto do irmão mais velho de Sandman.
O vídeo, naturalmente, virou fenômeno. Passou de nove milhões de visualizações, e a Internet fez o que faz de melhor: pediu detalhes que ninguém devia pedir. Teve gente perguntando se ele tinha morrido logo depois de “Stayin’ Alive” ou se era exagero de edição. Eden voltou às redes em 3 de novembro para confirmar o timing, com a frase de quem sabe que a realidade já escreve melhor que ficção: não dá para inventar uma coisa dessas.
Um detalhe de erudição inútil, mas irresistível: “Stayin’ Alive” tem cerca de 103 batidas por minuto, ritmo que entrou para o folclore da primeira ajuda porque se aproxima do compasso recomendado para compressões torácicas em massagem cardíaca. Ou seja, a música que salvou milhões de pessoas em cursos de treinamento tocou na despedida de um senhor de 97 anos. O universo tem humor, só não tem noção de timing.
Moral da história: se é para sair de cena, que seja com bolo, amigos, trilha sonora de discoteca e plateia animada. O resto de nós vai continuar morrendo aos poucos em reunião que poderia ter sido um e-mail. Meus respeitos, Don Vito. Que a terra lhe seja leve e que sua recompensa no Pós-Vida seja enorme!
Fonte: Tabloide Murica Fuck Yeah!, via Elise
