
Se você já anda tomando suplementos de vitamina D e acha que tá fazendo tudo certo, dá uma segurada: pode ser que você esteja reforçando o inimigo ao invés de fortalecê-lo. Pesquisadores descobriram que tomar vitamina D2 pode abaixar seus níveis de vitamina D3, aquela forma que o corpo humano realmente usa com eficiência. Ou seja: o remédio pode estar sabotando o efeito.
É quase como trocar etanol por metanol na sua manguaça. Ok, metanol é álcool, mas não o álcool que você vai querer ingerir.
A drª Emily I. G. Brown é pesquisadora do Departamento de Nutrição da Universidade de Surrey. Ela e outros pesquisadores das universidades John Innes e do Quadram Institute resolveram estudar os efeitos de diferentes tipos de vitamina D no organismo.
“Péra. Tem mais de um tipo de Vitamina D?”
Bem, se não tivesse eu não teria escrito isso, né? E sim, existem duas formas principais de vitamina D nos suplementos: a D2 (ergocalciferol) e a D3 (colecalciferol). A D2 vem de fontes não-animais, como fungos, liquens e plantas, que foram expostos à luz solar, sendo os cogumelos selvagens uma das fontes mais ricas. A D2 é produzida quando o esteroide ergosterol presente nesses organismos reage com a radiação UVB do Sol.
A D3 é produzida naturalmente pela nossa pele quando exposta ao Sol, mas obviamente você precisa ter o 7-dehidrocolesterol (um precursor) em pré-vitamina D3, que e ativada pelo UVB e subsequentemente transformada em vitamina D3. Essa vitamina D3 é então metabolizada no fígado e nos rins, formando a vitamina D ativa no corpo. A D3 ainda pode ser obtida de fontes animais como óleo de fígado de peixe e lanolina da lã de ovelha.
Embora ambas sejam tecnicamente “vitamina D”, a D3 é estruturalmente mais parecida com o que nosso corpo produz, e isso faz toda a diferença na forma como o organismo processa e utiliza cada uma delas.
O estudo avaliou os efeitos da suplementação com vitamina D2 nos níveis de 25-hidroxivitamina D3, que é o marcador que os médicos usam para saber se estamos bem nutridos de vitamina D. Os autores coletaram dados de vários ensaios clínicos, aplicaram modelos estatísticos robustos e chegaram a uma conclusão incômoda: D2 não é equivalente à D3 como muitos pensam. Ela pode até ser antagônica. Tomar D2 pode interferir na eficácia da D3, e isso tem implicações sérias para o sistema imunológico, saúde óssea e todo o resto que esperamos que a vitamina D faça direito.
Mas hein?
Os pesquisadores examinaram os testes controlados escolhidos aleatoriamente; ou seja, basicamente, juntaram um monte de estudos sérios para ver se a vitamina D2 realmente merece passar de ano, e a nota não foi boa. Em vários testes, quem tomou D2 acabou com menos D3 no corpo do que quem não tomou suplemento nenhum. É como se o suplemento tivesse dito que ia ajudar, mas no fim atrapalhou a festa.
Os resultados sugerem que, para a maioria das pessoas, suplementar com vitamina D3 é uma opção mais segura e eficaz. Isso é especialmente importante nos meses de inverno ou em latitudes mais altas, quando nosso corpo mal consegue sintetizar vitamina D pela exposição solar. Em lugares onde a deficiência de vitamina D já é um problema de saúde pública, escolher a forma correta de suplemento pode fazer toda a diferença.
Para aqueles que acham que vitamina D e tudo a mesma coisa… bem, não é. Os rótulos bonitinhos dizendo “vegano” ou “plant-based” como equivalente automático. O estudo deixa claro que D2 e D3 não são apenas nomes diferentes, suas interações no organismo são bastante distintas. Se a D3 ativa vias imunológicas que a D2 não toca – como a produção de interferon tipo I, essencial no combate viral – então não estamos falando de uma substituição simples, mas potencialmente de uma redução nas suas defesas.
Então, sua opção vegana é linda, fofa e consciente; o problema é que seu corpo não evoluiu para isso, e na hora de combater aqueles serezinhos maléficos conhecidos como vírus ela não só não é útil, como atrapalha quem seria.
Os pesquisadores ajustaram os ensaios por fatores como dose do suplemento, duração do estudo e diferenças individuais, além de usarem métodos estatísticos de meta-análise para estimar efeitos comuns entre estudos com populações diferentes. Não é pegar um estudo aqui e ali e fazer milkshake de conclusões, é uma costura bem pensada para ver se há um padrão consistente. E o padrão que encontraram não favorece a D2.
Claro, como todo bom estudo, este também tem suas limitações: heterogeneidade entre os ensaios, doses variadas, tempos de intervenção diferentes e populações diversas (idades, estado de saúde, exposição solar). Por isso a conclusão foi cautelosa: “D2 pode diminuir D3” é um alerta, não uma sentença final para todos os casos.
Para o futuro, é preciso mais investigação, especialmente em populações vulneráveis, com baixa exposição ao sol, dietas restritivas (incluindo veganas), condições inflamatórias ou imunossuprimidas. Também vale pensar em políticas públicas, regulação de suplementos e rotulagem mais transparente. Afinal, se parte do mercado está vendendo D2 como “equivalente” à D3, isso precisa ser reavaliado com base em evidência real
A pesquisa foi publicada no periódico Nutrition Reviews

Um comentário em “Vitamina D: quando o suplemento trabalha contra você”