Uma cartinha

Eu estou sentado na minha poltrona favorita. É dia 24 de dezembro e era para eu estar trabalhando, mas não estou. Estou definitivamente aposentado. O tempo chegou, tristemente chegou. Eu gostaria de estar trabalhando agora, mas não. Ninguém precisa mais de um velho que já está muito velho para o mundo de hoje. Velho e inútil. Ninguém precisa mais de mim.

Minha esposa coloca uma caneca de leite morno na mesinha ao meu lado. Acaricia meu braço e sai, silenciosa. Ela sabe que atualmente eu fico triste nesta época, me sinto solitário. Eu sei que ela me apoia e me acompanha. Sou muito grato a ela. Ainda assim eu sinto falta do meu trabalho.

Era um trabalho fantástico. Eu viajava muito. Entregava brinquedos das crianças, mas agora, não mais. Ninguém mais se importa comigo. Os brinquedos que outrora fazia e alegrava todo mundo , mas ninguém mais quer saber deles. Eu era uma lenda, depois um mito, e depois algo esquecido. Apenas um personagem de shopping. Ninguém mais acredita em mim. Acho que é assim com os mitos.

Não há mais cartinhas, crianças pedindo seus modestos brinquedos e eu atendia. Atendia de maneira que achassem que eram os pais. Atendia de forma que não achassem que era eu, mas esperando que fosse eu. Era algo divertido. Mas eu perdi. Eu perdi para a modernidade. Antes, era um personagem lembrado com carinho. Eu até aparecia no Maracanã. Faziam um evento, casa cheia, tudo lotado esperando por mim. Eu chegava de helicóptero. Mas ninguém precisa mais de mim. Distraem as crianças com uma telinha brilhante.

Eu era um mistério bem-vindo das crianças. Elas ficavam até mais tarde acordadas (22 horas) me esperando, mas o sono vencia. Hoje, ficam acordadas até a uma da manhã jogando, mal levantando pra escola. Quem iria me esperar? O que tem de excitante num velho como eu?

Estou cansado. Cansado de tudo. Vocês decidiram que eu não era mais necessário. Os mitos morrem se as tradições morrem, porque ninguém dá continuidade a elas. Vocês poderiam continuar de alguma forma? Sendo bons, sendo justos, se comportando bem para com o próximo e cuidando de si mesmos.

Hora de dormir. Estou cansado. Já terminei meu leite, minha esposa veio me buscar para descansar minha mente preocupada. Esta noite, pelo menos haverá uma cartinha, e ela será atendida. Eu a escrevi sob a forma de blog, e pedi para que vocês estivessem aqui comigo e lessem meu texto. Acho que consegui. Muito obrigado.

Desejo a todos um Feliz Natal, e que vocês não percam a simplicidade de uma criança de outrora, porque as de hoje já a perderam antes de terem nascido. Eu fiz a minha parte ao longo desses longos anos. Vocês farão daqui pra frente?

Por favor?

2 comentários em “Uma cartinha

  1. Acho que conseguimos deixar uma marca no meu sobrinho.
    Decoramos a casa, tem luzinhas, os presentes só aparecem de manhã no dia 25, espalhamos purpurina dourada (pó mágico), tem biscoito e leite também!
    Mas acho que esse será o último Natal em que ele acreditará no Bom velhinho., pois no alto dos seus seis anos ele já se pergunta como o papai Noel entra na nossa casa se não temos chaminé.
    Mas não importa, tudo valeu e vale a pena!

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