Como nossos olfatos viram memórias de longo prazo?

Feche os olhos. Pense naquele almoço de domingo, com aquele assado especial e a deliciosa sobremesa que sua avó preparou. Pense quando você foi ara o litoral e sentiu o cheiro do mar pela primeira vez ou quando você foi ao seu primeiro encontro e sentiu o cheiro da pessoa amada, toda perfumada. Nossa memória afetiva é excelente para guardar sons, imagens e até mesmo aromas. Todas essas memórias são armazenadas na memória de longo prazo (porque, DÃÃÃÃ, você se lembra por muito tempo). Mas como esses aromas são armazenados no cérebro por muito tempo? É o que uma pesquisa alemã procura responder.

A drª Christina Strauch e a drª Denise Manahan-Vaughan do Departamento de Neurofisiologia da Ruhr-Universität Bochum resolveram pesquisar mais a fundo onde fica nossa memória olfativa. Quais áreas do cérebro são responsáveis ??por armazenar esses maravilhosos odores para sempre guardados na memória de longo prazo. Alguns desses odores podem desencadear memórias de experiências de muitos anos. Como isso acontece?

Tudo acontece no córtex pré-piriforme e piriforme e pela porção cortical do núcleo amigdaloide. O aroma chega nessas áreas e penetram (êpa! no sistema límbico), principalmente em áreas menos primitivas, como o hipocampo. O córtex piriforme e periamigdalóide são partes do cérebro que processam as informações olfativas, estando diretamente ligados no processo de salvar essas memórias. Isso já se sabe. A questão é por que isso não acontece com todos os aromas que sentimos ao longo da vida, mas só com alguns em especial? O que faz algo especial ser ESPECIAL pro cérebro? A chave é que o mecanismo desse procedimento só funciona em interação com outras áreas do cérebro.

Até agora, todo mundo sabia que o córtex piriforme é capaz de armazenar memórias olfativas de forma temporária. Ok, beleza. Mas ele seria capaz de armazenar por longo prazo? Bem, vamos à Ciência.

Para princípio de conversa, temos que lembrar daquele conceito de plasticidade sináptica, ou seja, a capacidade que as sinapses tem de se fortalecerem ou enfraquecerem ao longo do tempo, como se fosse uma sanfona crossfiteira de célula. Isso é resultado dos aumentos ou diminuições na atividade neuronal. Como as memórias são representadas por redes vastamente interligadas de sinapses no cérebro (vocês sabem: sinapse é a forma como um neurônio se liga em outro, sem haver toque físico, com informações trafegando por meio de sinais químicos e elétricos, consumindo muita energia, apesar de alguns canais no YouTube dizerem que energia não existe). A plasticidade sináptica é uma das importantes bases neuroquímicas para o aprendizado e a memória, já que as mudanças plásticas nas sinapses resultam da alteração do número de receptores de neurotransmissores localizados em uma sinapse, existindo vários mecanismos que cooperam para alcançar essa plasticidade sináptica.

A plasticidade sináptica é um processo neuroquímico em nível celular, envolvendo armazenamento de informações, o que dá condições da memória se manter por diferentes extensões de tempo. Ou seja, ela pode fazer com que as memórias possam ser retidas de forma mais duradoura. As formas persistentes dessa plasticidade são expressas em estruturas de processamento de memória, como o hipocampo, bem como em estruturas envolvidas no processamento de informações sensoriais, como o córtex visual. Em outras palavras, você precisa outras estruturas dando apoio. Por isso, quando você sente o cheiro conhecido, desperta outras lembranças, como vovó volitando pela cozinha deixando tudo pronto, deixando tudo armazenado de forma mais eficiente. Mas, para isso, é preciso outras respostas emocionais de forma que o gatilho seja eficiente. Caso contrário, é apenas mais um cheiro como os zilhões que você sente todos os dias e mal se lembra deles antes de dormir, se é que lembra.

Mas como testar isso?

Strauch e Vaughan testaram para ver se o córtex piriforme de ratos é capaz de expressar plasticidade sináptica e se essa mudança dura mais de quatro horas; indicando que a memória de longo prazo pode ter sido estabelecida. Sendo assim, elas aplicaram impulsos elétricos diretamente no cérebro do roedor de forma a imitar os processos que desencadeiam a codificação de uma sensação olfativa como uma memória. Elas, então, usaram diferentes protocolos de estimulação que variaram na frequência e intensidade dos pulsos. Legal, né? Só que o anti-clímax veio em que os mesmos protocolos não induziram armazenamento de informações de longo prazo sob a forma de plasticidade sináptica no córtex piriforme.

Strauch e Vaughan resolveram, então, estimular uma área cerebral mais alta chamada córtex orbitofrontal (também chamada de córtex pré-frontal ventromedial), uma região do córtex pré-frontal nos lobos frontais no cérebro que está envolvida no processamento cognitivo da tomada de decisão e pela discriminação de experiências sensoriais. Desta vez, a estimulação da área do cérebro gerou a mudança desejada no córtex piriforme. Nisso, ficou demonstrado que o córtex piriforme é realmente capaz de servir como um arquivo para memórias de longo prazo, mas precisa de instruções do córtex orbitofrontal, indicando que um evento deve ser armazenado como uma memória de longo prazo.

A pesquisa foi publicada no periódico Cerebral Cortex. Pense nela quando for visitar seus pais e vovó trouxer aquela maravilhosa sobremesa que você sempre gostou desde criança.

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