Um almocinho supimpa numa taverna

Então que você está dando um rolê pela Inglaterra do século XIV e está com fome. Problema que o iFood ainda não foi inventado. Comofas? Bem, você faz como os trilobitas do período pré-cambriano e vai num estabelecimento comprar uma refeição. Eram as tavernas, e elas não eram apenas pontos de encontro para beber, mas também um reflexo fascinante da vida e cultura da época.

Claro, você quer saber mais sobre tavernas, mas mais ainda, como fazer em casa um legítimo ensopado que era servido lá. Continuar lendo “Um almocinho supimpa numa taverna”

Os registros muito antigos do clima zuado do passado

A reconstrução climática do passado é um campo de investigação essencial para compreendermos os padrões climáticos atuais e suas tendências futuras, mas é uma pesquisa ingrata. Como saber o que realmente aconteceu? Anéis de troncos de árvores, vestígios sedimentares e toda sorte de registros que a Natureza está sendo bem sacana em nos esconder. A história climática, um campo interdisciplinar que mescla geografia, meteorologia e historiografia, permite-nos decifrar os impactos do clima sobre as sociedades ao longo dos séculos.

Tomemos como exemplo a Transilvânia (sim, aquela), que atualmente parte da Romênia, mas no século XVI pertencia ao Reino da Hungria. Aquela região era um território estratégico marcado por fenômenos climáticos extremos, emergindo como um estudo de caso revelador sobre as interações entre condições climáticas e transformações sociais. E como sabemos disso? Através dos meus espiões que acham que eu não tenho o que fazer e me mandam notícias de coisas escritas em Húngaro para ficarem rindo da minha cara quando eu tento aprender um pouco desta coisa pavorosa. Continuar lendo “Os registros muito antigos do clima zuado do passado”

Quando uma disputa entre torcidas fanáticas salvou um império

Você deve ter aprendido no colégio que a Queda de Constantinopla se deu em 29 de maio de 1453, marcando o fim da Idade Média e início da Idade Moderna. Obviamente, isso é muito mais complicado do que a princípio parece, mas deixe-me voltar um pouquinho mais no tempo. Quando vários sujeitos fanáticos por esporte, verdadeiros hooligans, salvaram Constantinopla e o próprio Império Bizantino.

Vamos nos situar primeiro. Continuar lendo “Quando uma disputa entre torcidas fanáticas salvou um império”

A retidão da Torre Inclinada de Pisa

O cientista sobe as escadas. Pé ante pé. Ele não era bem para estar ali, mas ele precisa estar ali. O experimento precisa ser feito. A face resoluta olha para cima. Pé ante pé. Degrau por degrau. Andar por andar. Ao chegar no seu destino, o cientista cofia a barba, ajeita-se empertigado. Olha para baixo e vê todas as pessoas reunidas. O homem ergue ostentosamente as duas esferas, cada uma com uma massa, e as deixa cair e o que se viu maravilhou a todos ali: elas caíram ao mesmo tempo!

Do alto da Torre de Pisa, Galileu entra para a história, de braços abertos, e pose de triunfo sob aplausos de todos ali.

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O robozinho que lê manuscritos medievais e identifica seu autor

Tudo o que nós temos hoje em termos de cultura no tocante a obras antigas deitadas por escrito é graças aos eruditos árabes e aos monastérios cristãos. O ato de recolher, compilar, copiar, guardar, armazenar e, mais importante, impedir que algum débil mental usasse para fazer fogueiras ou limpar a bunda preservou uma miríade de obras.

Não que alguns débeis mentais não tivessem oportunidade de queimar e limpar a bunda com inúmeros trabalhos e textos que hoje estão perdidos.

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A Verdadeira História da Idade Média

Você pensa que sabe algo sobre a Idade Média. O caos sem sentido, os belos castelos, a imundície, os garbosos cavaleiros, a ignorância exacerbada, as Cruzadas, as iluminuras, as pestes devastadoras, os monastérios, a influência da religião, a Queda de Roma, a ascensão do Islã, o período do retrocesso, a tão-chamada Idade das Trevas. De início posso dizer: você apenas tem fragmentos, mas História não é feita de fragmentos. Fragmentos de informações são como pedras; você pode construir conhecimento com eles, como um castelo é feito de pedras. Mas um amontoado de fragmentos não são a História propriamente dita como um amontoado de pedras não é um castelo. Continuar lendo “A Verdadeira História da Idade Média”

Sobre dar o Koo, medievalismo e outras providências

As coisas no Twitter estão estranhas, mas parecem que vão se encaminhar, apesar dos histéricos. Elon Musk descobriu que Twitter era um cabide de emprego, com funças agindo como se aquilo fosse uma repartição pública (nem vou dizer brasileira, pois todas as repartições públicas são iguais). Então surgiu o Koo e todo mundo foi pro Koo e o Koo tá bombando.

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A mais antiga farmácia do mundo

Vendo um pórtico antigo de uma construção alojada dentro de uma capela florentina do século XVI, ninguém daria nada por ela, mas ali está a farmácia mais antiga do mundo em atividade. O local esconde uma história interessante e faz parte da Itália, e por que não dizer, da história do próprio conhecimento científico.

A dita farmácia se trata da Officina Profumo-Farmaceutica di Santa Maria Novella ou Farmacopeia de Santa Maria Novella, que entre seu catálogo estão poções antigas como o Vinagre dos Sete Ladrões, o primeiro perfume moderno e até um licor de joaninha. E esta é sua história. Continuar lendo “A mais antiga farmácia do mundo”

Um antigo mapa mundi para viajantes que não viajavam

Mapas sempre foram uma necessidade, desde que os primeiros humanos precisavam saber onde estavam e, mais importante, como compartilhar com os outros como chegar em determinados lugares. Em 2020, eu postei sobre o maior mapa mundi existente, falando inclusive do Imago Mundi, o mapa mais antigo que representa o mundo, tendo sido feito pelos babilônios no século 6 AEC. Entretanto, apesar de não ser o mais antigo, nem o maior mapa mundi existente, há um mapa fascinante, datando do século XIII: Mappa Mundi de Hereford. Continuar lendo “Um antigo mapa mundi para viajantes que não viajavam”

Guedelon ou projeto “Meu Castelo, Minha Vida”

A vida na Idade Média era uma maravilha, mas só se você fosse nobre, ricaço ou do clero, que seria nobre e ricaço automaticamente. Se você era peão, ferrou, já era, se deu mal, otário. Pessoal curte Idade Média por causa dos castelos, o que, convenhamos, é algo realmente muito maneiro. Eu também queria ter um castelo., daqueles bem fortificados e inexpugnáveis, como é o Vaticano. Pode ser um desses castelos ingleses ou franceses, mesmo. Ainda tem muitos por aí.

Quem deu uma sorte de comprar um terreno com um castelo em ruínas foi Michel Guyot. Tava lá o castelo e ele pensou uma coisa maluca: “E se eu juntar um monte de cabeças e reconstruir o castelo usando técnicas e ferramentas do século XIII?”. Era uma ideia absurda e insana, mas Michel não sabia disso. Por isso, começou o projeto da construção de Guedelon.

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