Kadesh: o outdoor mais caro da Idade do Bronze, agora com caco novo

A única verdade dita nos filmes do Indiana Jones é que a maior parte do trabalho de um arqueólogo é feito em bibliotecas. A segunda maior parte do trabalho é catar uns cacos por aí e tentar dar significado ao que tem lá, além de tentar escapar de algumas maldições (corte de verbas é uma delas). Aliás, eu acho que o arqueólogo fica muito mais feliz com múmias e cacos de argila (não que achar uma máscara de ouro como a do Tut faça algum mal, mas, convenhamos, não é algo que acontece todos os dias).

A rigor, arqueólogos ficam mais do que loucamente excitados quando descobrem umas tabuletas de argila, ainda mais algo que há muito tempo estava perdido e, de repente, chega à luz do dia: o tratado de paz firmado depois da Batalha de Kadesh. Continuar lendo “Kadesh: o outdoor mais caro da Idade do Bronze, agora com caco novo”

Artigos da Semana 324

Depois de um longo e tenebroso inverno, hoje abriu o Sol, o nosso amigo Sol, que brilha lá, bem longe daqui. Já dá pra ir pra praia, vemos vizinhos animados na rua, o vozerio das crianças. Voltem logo, frio e chuva! Sinto saudades.

Bóra pro que foi publicado esta semana enquanto me tranco em casa.

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Vênus comeu a própria lua (e nem pediu desculpas)

Há coisas no universo que a gente aceita sem questionar, tipo a Terra ter uma Lua, o Sol nascer no leste e aquele parente que só aparece em churrasco quando tem carne cara. Mas de vez em quando a Ciência decide cutucar essas certezas confortáveis, e é exatamente isso que aconteceu com Vênus, aquele planeta tido como “gêmeo da Terra” mesmo sabendo que é um gêmeo estilo Raquel: mesmo tamanho, mesma massa, composição rochosa parecida, e ainda assim um inferno sulfúrico de 460°C com chuva de ácido.

E para completar o quadro de disfunção familiar, Vênus não tem nenhum satélite natural. Nem unzinho sequer, e uma nova pesquisa finalmente explica por que, e a resposta é tão deliciosamente e aterrorizante quanto a ideia de pasar um dia completo em Vênus. Continuar lendo “Vênus comeu a própria lua (e nem pediu desculpas)”

O Ironman alemão imortalizado por um pronunciamento escatológico

Há gente que perde uma mão em batalha e vira nota de rodapé em livro de história militar; mas nenhum deles é Götz von Berlichingen, o cavaleiro que perdeu a mão direita e acabou conhecido, não apenas pela sua bravura, mas por um de seus pronunciamenteos, ainda que tal expressão que já rondasse as terras alemãs antes da Alemanha existir, e que virou clássico nacional depois que Götz gritou a versão certa para o interlocutor errado.

Alguns alcançam a imortalidade de formas bem expressivas. Continuar lendo “O Ironman alemão imortalizado por um pronunciamento escatológico”

As inusitadas pesquisas vencedoras do Ig Nobel 2026

Todo mês de setembro, pouco antes de o comitê sueco anunciar quem vai salvar a humanidade com uma descoberta em Física Quântica ou com alguma bobagem da Economia, um bando de cientistas se veste de cogumelo, sobe a um palco em algum canto da Europa e aceita, com lágrimas genuínas nos olhos, um prêmio por ter enfiado o pé em cima de uma cobra, enterrado mil cuecas ou descoberto, com rigor de laboratório, o jeito certo de assoar o nariz.

Bem-vindos à trigésima sexta edição do Ig Nobel, a premiação que existe para provar, ano após ano, que a curiosidade científica não tem freio de mão e, às vezes, nem senso de autopreservação; e sim, esta é a sua cientificamente revisada SEXTA INSANA! Continuar lendo “As inusitadas pesquisas vencedoras do Ig Nobel 2026”

Um médico árabe, um judeu siciliano e um lugar chamado Brasil entram num bar…

Havia uma vez um livro tão estranho que só podia ter vindo de outro mundo. Letras vermelhas e pretas, tabelas que se liam na horizontal, na vertical e na diagonal ao mesmo tempo (uma espécie de Sudoku medieval para quem queria saber se ia sobreviver à próxima peste), e um dono que jurava tê-lo recebido de uma ilha encantada perdida no Atlântico. Era o tipo de história que qualquer editora de best-seller pagaria caro hoje: mistério, magia, um segredo guardado por sete anos a fio. Só que, como quase sempre acontece quando se puxa o fio de uma lenda bonitinha, a verdade por trás do Livro de Hy-Brasil é ainda mais interessante do que a fantasia, e de quebra ajuda a explicar por que um país inteiro do outro lado do oceano se chama… Brasil. Continuar lendo “Um médico árabe, um judeu siciliano e um lugar chamado Brasil entram num bar…”

Os mal-cheirosos segredos dentais de Ricardo III desvendados

Há uma categoria de descoberta científica que eu adoro particularmente: aquela em que a Ciência gasta uma fortuna, um exército de pesquisadores e uma tecnologia de ponta para provar que, no fim das contas, somos todos igualmente nojentos por dentro. Reis, camponeses, imperadores, pastores de cabra: por baixo do esmalte, a boca de todo mundo é uma zona de guerra microbiana, e a realeza, ao que parece, não tinha acesso a nenhum tratamento VIP nesse departamento.

O caso que motiva essa reflexão começa com um esqueleto encontrado, literalmente, sob um estacionamento. Em 2012, arqueólogos ingleses desenterraram em Leicester os restos de um monarca que a história tratou com a mesma delicadeza que Shakespeare: como vilão de peça teatral. Essa é a história de como fomos acabar fuçando a boca de Ricardo III. Continuar lendo “Os mal-cheirosos segredos dentais de Ricardo III desvendados”

O bolo de Ea-Nasir (sim, aquele pior comerciante da História)

Vocês conhecem a história de Ea-Nasir, o vendedor de cobre vagabundo e trapaceiro que eu já apresentei por aqui como o pior comerciante da História. Ele vendia cobre saído do Golfo Pérsico para a Mesopotâmia, ostentava o cargo oficial de “Alik Dilmun” — importador licenciado que ia até o atual Bahrein trocar prata, cevada e tecido por metal — e morava numa casa de sete cômodos com capela particular, escavada nos anos 1920 pelo arqueólogo Leonard Woolley, que resolveu batizar as ruas de Ur com nomes ingleses só porque podia. Resultado: o maior vigarista documentado da Idade do Bronze mora, para efeitos de citação acadêmica, na Old Street número 1.

Mas tem algumas coisinhas que eu não falei. Continuar lendo “O bolo de Ea-Nasir (sim, aquele pior comerciante da História)”

A vida secreta e barulhenta dos répteis

Passamos décadas acreditando numa fábula reconfortante: a de que répteis são bichos de poucas palavras, quase monges zen do reino animal, gastando a vida entre um banho de sol e outro sem fazer alarde. Aves cantam para tudo quanto é lado, mamíferos latem, rosnam e berram por qualquer motivo (inclusive nenhum), mas cobra, lagarto, jacaré e tartaruga sempre ficaram no papel de figurantes silenciosos, quase um cenário reptiliano estático. Pois bem, essa imagem serena está desmoronando mais rápido do que uma resolução de ano novo. Continuar lendo “A vida secreta e barulhenta dos répteis”

Anatomia da anatomia da invasão do Hugging Face e o que ninguém viu

Em julho, o Hugging Face sofreu um ataque maciço. Saiu em tudo que foi jornal e blogs e tecnologia (gringos, porque os blogs brasileiros estão na base de só fazer publi e escreverem bobagens irrelevantes). Dias depois, A OpenAI, dona do ChatGPT veio fazer mea culpa, me maxima culpa dando algumas explicações sobre o que ocorreu. Eu vi isso e quando saíram as informações dias depois eu percebi uma coisa em meu próprio blog. Continuar lendo “Anatomia da anatomia da invasão do Hugging Face e o que ninguém viu”