Espanha toma uma gotinha do próprio remédio e é invadida por gente que ela não queria lá

Ontem, todo mundo (menos eu, e já direi o motivo) ficou estarrecido com a horda de imigrantes ilegais indo em massa que nem arrastão em Copacabana, só que indo pra terreno espanhol. Segundo o Ministério do Interior da Espanha, cerca de 49 mil migrantes atravessaram para Corsa Ceuta em apenas 24 horas, vindos do Marrocos por mar e por terra. Somando os dias anteriores, a conta bate em 60 mil pessoas, o equivalente a mais da metade da população do enclave se materializando do nada, como se o território tivesse sido escolhido a dedo para um experimento de física social.

A Espanha e o Marrocos, tomados de um súbito interesse por engenharia civil, reforçaram a cerca fronteiriça , mas o saldo, no entanto, já inclui ao menos 34 corpos encontrados, porque toda crise migratória insiste em lembrar que estatística é gente. Quanto a mim? Eu estou achando divertidíssimo!

Invadindo a sua praia, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “Espanha toma uma gotinha do próprio remédio e é invadida por gente que ela não queria lá”

A cidade que esqueceu de inventar reis

Há um roteiro que a história repete com a monotonia de uma novela mexicana. Vila prospera, vira cidade, e aparece um sujeito de coroa (ou tiara sacerdotal) reivindicando que os deuses o escolheram pessoalmente para acumular a maior parte do excedente. O Egito teve seus reis e pirâmides, a Mesopotâmia seus reis-sacerdotes e Creta o suntuoso palácio de Cnossos. Por décadas, o consenso entre historiadores foi simples e fatalista: cidade que cresce é cidade que concentra riqueza no topo.

Só que uma cidade no que hoje é o Paquistão parece ter perdido a memória desse roteiro. Entre 2600 e 1900 A.E.C., ela cresceu, prosperou, virou a maior metrópole do Vale do Indo e, em vez de gerar uma elite cada vez mais destacada, fez o oposto: ficou mais igualitária à medida que enriquecia. Nada de palácios, nada de tumbas de ouro, nada de estátuas de governantes olhando para baixo com desdém arquitetônico. Continuar lendo “A cidade que esqueceu de inventar reis”

Um novo projeto!

O mundo anda chato do lado de cá. Eu sento, escrevo um artigo ou outro, alguns de vocês leem, pouquíssimos compartilham. No dia seguinte, eu vejo algo que possa ser interessante, escrevo artigo, posto, alguns de vocês leem, pouquíssimos compartilham. Depois eu fico escrevendo um imenso texto, posto, alguns de vocês leem, pouquíssimos compartilham. Tá tudo muito chato.

Então, pensei cá comigo: e que tal fazer algo diferente? Então lancei um novo projeto: textos voltados para gringos.

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Abriram uma múmia… e encontraram Homero lá dentro

Há descobertas arqueológicas que mudam datas. Há outras que mudam mapas. E há, muito raramente, aquelas que desafiam tudo o que pensávamos saber sobre o passado: arqueólogos encontraram um fragmento da Ilíada de Homero cuidadosamente colocado dentro de uma múmia egípcia de cerca de 1.600 anos, usado de forma intencional durante o processo de embalsamamento. Não se trata de um texto que caiu acidentalmente na tumba. É literatura grega elevada à condição de amuleto ritual, algo tão inesperado quanto imaginar Os Lusíadas enterrado junto a um antepassado para acompanhá-lo na eternidade. Continuar lendo “Abriram uma múmia… e encontraram Homero lá dentro”

A última canção de um império: o Epitáfio de Seikilos

Há uma sala no Museu Nacional da Dinamarca onde a luz entra devagar, como se meros fótons tivessem consciência da importância do local. Caminhando por corredores silenciosos, chega-se perante uma pequena coluna de mármore. Ao redor, o silêncio educado e um pouco solene que só existe em museus e em velórios. Ali é o Departamento de Antiguidades, e a coluna está cercada de outros fragmentos gregos e romanos que também sobreviveram por acaso ou por teimosia. Vasos que perderam a alça. Estátuas que perderam o nariz. Moedas que perderam o brilho mas não o perfil do imperador. É uma sala de sobreviventes, uma espécie de sala de espera na qual cacos do passado aguardam, pacientemente, que alguém pare, incline a cabeça e leia… e escute.

A coluna ali presente canta silenciosamente por meio de letras gregas entalhadas há muito tempo, junto aos símbolos que indicam a melodia. Uma voz que atravessou o tempo que traz a sensação de que a pedra sussurra, baixinho, para quem se debruça sobre o vidro. Aquela coluna é o Epitáfio de Seikilos. Continuar lendo “A última canção de um império: o Epitáfio de Seikilos”

O Zoológico da Masmorra

O Reiuno Unido recebe cerca de 37 a 38 milhões de turistas internacionais por ano.Claro, quem passa por Londres não deixa de passar pela Torre de Londres, e muitos que passaram por Londres no passado iam parar na Torre, mas contra a vontade. Acontece que a Torre tem um quê de pitoresco que as pessoas normalmente não sabem. Há uma pergunta que os guias turísticos da Torre de Londres deum modo geral não fazem, mas que merece ser feita: o que você faria se soubesse que, por mais de seiscentos anos, aquele complexo de pedra e terror que serviu de prisão, palácio e depósito das joias da Coroa também funcionou como zoológico?

A resposta correta é perguntar se os animais tinham celas melhores que os presos humanos. A resposta provável é que sim. Continuar lendo “O Zoológico da Masmorra”

O caso do amor flamejante de uma adolescente apaixonada

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

– Camões

Há histórias de amor que terminam bem. Depois existem as que terminam com dois jovens separados para sempre, um coração partido e uma cidade em chamas. A de Yaoya Oshichi pertence definitivamente à segunda categoria, com o agravante de que ela própria foi quem tocou fogo e ainda teve a honestidade fatal de confirmar sua idade ao juiz no momento exato em que deveria ter mentido. Continuar lendo “O caso do amor flamejante de uma adolescente apaixonada”

O homem que quis carregar o Império e acabou esmagado por ele

Há muitas maneiras de um rei morrer. Batalha, envenenamento, conspiração de corte, uma queda não muito discreta das escadas do palácio e até comer demais. A História está cheia de monarcas que partiram desta para melhor de formas que fariam corar qualquer roteirista de tragédia grega. Mas poucos conseguiram a façanha de Ying Dang, o Rei Wu, do reino de Qin, que em 307 A.E.C. decidiu provar ao mundo que era o homem de maior proeza atlética do Período dos Reinos Combatentes, e foi literalmente esmagado pela própria ambição. No caso dele, a ambição tinha a forma de um caldeirão de bronze do tamanho de uma banheira de hidromassagem imperial. Continuar lendo “O homem que quis carregar o Império e acabou esmagado por ele”

Mulheres, negociantes e trapaceiros na Assíria

Existe uma ideia muito popular, suficientemente errada para incomodar, de que as mulheres entraram no mundo dos negócios em algum momento entre a Segunda Guerra Mundial e a invenção do blazer feminino. A História, no entanto, tem o péssimo hábito de não cooperar com narrativas convenientes. Por volta de 1850 A.E.C., enquanto a Europa estava lá, na Idade do Bronze, sem nem saber escrever direito e se matando e trabalhar com uma agricultura plantada ainda de maneira tosca, mulheres assírias administravam empresas, faziam investimentos em sociedades de capital compartilhado, concediam empréstimos a juros e se correspondiam por escrito sobre fraudes financeiras com uma fluência que envergonharia muitos diretores financeiros de hoje.

Tudo isso gravado em tabuletas que sobreviveram 4.000 anos para nos lembrar que a Humanidade não mudou tanto assim; principalmente em termos de golpistas, salafrários, vagabundos e trapaceiros. Continuar lendo “Mulheres, negociantes e trapaceiros na Assíria”

O peixe que deixava os romanos doidões, como no LSD

Imagine jantar num restaurante à beira-mar, pedir um peixe grelhado aparentemente inocente e acordar dois dias depois sem qualquer memória do que aconteceu. Não é o enredo de um thriller psicológico nem o relato de uma festa que saiu do controle. É o que pode acontecer quando alguém tem o azar, ou a curiosidade, de comer a Sarpa salpa, modestamente conhecida no mundo árabe como “o peixe que faz sonhos.” Os romanos chamavam-lhe delicatessen. A ciência moderna denomina esse fenômeno de ichthyoallyeinotoxism, dito em latim científico para soar menos embaraçoso nos relatórios hospitalares, porque “intoxicação alucinogênica por peixe” não tem, convenhamos, a dignidade que a situação merece.

Viajando firme na peixaria, chapadões durante o Império, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “O peixe que deixava os romanos doidões, como no LSD”