O milagre colorido da Taça de Licurgo

Havia artistas de mão extraordinária nas oficinas da Roma Antiga. Seus artesãos faziam joias, esculpiam figuras minuciosas e davam ao vidro uma delicadeza que ainda hoje prende o olhar. Algumas dessas peças chegaram até nós e permitem acompanhar, nos detalhes, a paciência e o domínio dos materiais de quem as criou. Uma delas é a Taça de Licurgo.

Guardada no Museu Britânico, as figuras e videiras esculpidas nesta maravilha da tecnologia antiga formam uma trama delicada em torno do recipiente, como uma renda esculpida em vidro. O trabalho já bastaria para admirar seus criadores. Mas a peça tem outra característica que faz seu esplendor mudar conforme a luz. Continuar lendo “O milagre colorido da Taça de Licurgo” →

20 anos de Ceticismo.net. Feliz Aniversário!

Era uma vez uma conversa displicente entre dois amigos. Participantes de fóruns de discussão, um deles comenta que já tinha tido um site antes, feito em HTML puro e simples, hospedado num Geocities da vida. O outro diz que hoje (ok, naquela época), estava ainda mais fácil com o formato de blogs. Seria algo interessante, um blog de divulgação científica, de algo que estava se tornando comum: pensamento crítico, e de mudanças nos rumos da tecnologia, mas não um site de “tecnologia” que só é briefing entregue por empresa de informática.

Era um mundo diferente de hoje, as pessoas escreviam mais, liam mais. Sim, um novo blog, com novos assuntos, com nova estrutura, a estrutura feita com o que os dois amigos queriam ler, e isso devia interessar mais pessoas. Aquele era o mundo de 29 de outubro de 2006, e há exatos 20 anos, Ceticismo.net viu a luz do dia. Continuar lendo “20 anos de Ceticismo.net. Feliz Aniversário!” →

Antes de criticar o sábio chinês, confira o endereço

Existe uma ciência que dispensa telescópio de bilhões e acelerador de partículas: basta um texto velho, um mapa e uma teimosia admirável. É a ciência que usa registros históricos como instrumento de medição, e ela funciona bem com eclipses. Como Sol e Lua seguem uma coreografia previsível, saber onde e quando um eclipse foi visto permite deduzir, anos-luz de distância do evento (metaforicamente), quão depressa a Terra girava naquele instante. O céu, afinal, sempre foi o melhor cronômetro que já tivemos, e os escribas da Antiguidade eram os únicos que anotavam as leituras.

Foi com essa lógica que uma equipe internacional revisitou um dos registros mais antigos e mais precisamente datados de um eclipse solar total, ocorrido em 709 A.E.C. na capital do antigo Ducado de Lu, na China. Havia um problema constrangedor: quando os pesquisadores refizeram o cálculo com as melhores estimativas disponíveis para a rotação da Terra, a conta teimava em dizer que, naquele lugar, o eclipse não poderia ter sido total. Os cronistas afirmavam uma coisa, a astronomia afirmava outra, e alguém estava errado. Spoiler: não eram os cronistas. Continuar lendo “Antes de criticar o sábio chinês, confira o endereço” →

Harriet Cole: a funcionária mais antiga da Universidade Drexel

A funcionária mais antiga da Drexel University, na Filadélfia, nunca tirou férias, jamais pediu aumento e não faltou um único dia desde o século XIX. A própria instituição a apresentou ao público, em 2012, como sua servidora de mais longa data, e dá para entender o orgulho: poucas folhas de pagamento ostentam alguém que trabalha em regime de alfinetes.

Hoje, essa funcionária executa o seu trabalho no Student Activities Center, entre a cozinha dos estudantes e as mesas de pingue-pongue, com os nervos pintados de branco, os olhos no lugar e um nome que a anatomia mundial pronuncia como se fosse de família: Harriet. Há perguntas no ar: Quem ela foi? Quem teve a gentileza de lhe perguntar se topava virar patrimônio científico? São questões que levaram mais de um século para serem tratadas com seriedade. As respostas, como costuma acontecer quando alguém resolve abrir uma caixa de arquivo, são bem menos reluzentes que o cartão-postal. Continuar lendo “Harriet Cole: a funcionária mais antiga da Universidade Drexel” →

Quando um exército de robozinhos capitaneados por um programador humilhou big techs

Houve um tempo, não muito distante, em que você entrava numa loja, escolhia um produto, pagava e, pasme, a coisa era sua! Comprava um disco e ouvia até a humanidade desenvolver orelhas de reposição. Com os programas era parecido: pagava, instalava e usava aquela versão enquanto o computador aguentasse. Isso sempre foi maravilhoso.

Claro, foi uma corrida para impedir que as pessoas espalhassem seus programas com os amigos, e daí veio a corrida para impedir, craqueadores burlavam a segurança e estava tudo bem, já que a verdade é que Microsoft não estava nem aí se o Zezinho morador de Nova Iguaçu tinha comprado um Uíndous Jack Sparrow. Ela ganha dinheiro com as empresas, mesmo. Continuar lendo “Quando um exército de robozinhos capitaneados por um programador humilhou big techs” →

Artigos da Semana 325

Esta semana foi a semana da velharia dizer a que veio. Seja da Terra das Múmias, seja do vô resolvendo peitar um moleque de 34 anos e ganhando! No tiro, claro, porque esse negócio de fazer na mão é coisa de gente sem preparo. Também tem texto sobre como o seu cérebro tem partes vindas de pais diferentes e até sobre o uso de burcas na Itália.

E lembrem-se: suas opinião são muito importantes pra você, nem sempre são efetivamente importantes!

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Kadesh: o outdoor mais caro da Idade do Bronze, agora com caco novo

A única verdade dita nos filmes do Indiana Jones é que a maior parte do trabalho de um arqueólogo é feito em bibliotecas. A segunda maior parte do trabalho é catar uns cacos por aí e tentar dar significado ao que tem lá, além de tentar escapar de algumas maldições (corte de verbas é uma delas). Aliás, eu acho que o arqueólogo fica muito mais feliz com múmias e cacos de argila (não que achar uma máscara de ouro como a do Tut faça algum mal, mas, convenhamos, não é algo que acontece todos os dias).

A rigor, arqueólogos ficam mais do que loucamente excitados quando descobrem umas tabuletas de argila, ainda mais algo que há muito tempo estava perdido e, de repente, chega à luz do dia: o tratado de paz firmado depois da Batalha de Kadesh. Continuar lendo “Kadesh: o outdoor mais caro da Idade do Bronze, agora com caco novo” →

A mulher atrevida que driblou a Marinha do Rei e circunavegou o planeta

A audácia, em sua mais pura raiz etimológica, nasce do latim audere: o ato de atrever-se, de ousar cruzar a fronteira do que já está posto. Na prática da vida, essa herança linguística se manifesta naqueles raros indivíduos que conseguem despir o olhar dos grilhões invisíveis e dos impedimentos sociais que moldam a maioria de nós.

Enquanto o mundo caminha sob o peso de regras tácitas, expectativas alheias e o medo paralisante do julgamento, o audaz enxerga a realidade sem filtros ou amarras. Para ele (ou ela), as convenções não são muros intransponíveis, mas linhas imaginárias desenhadas pelo hábito; sua mente opera em uma frequência de liberdade que transforma o risco em espaço de criação e o “impossível” em mero ponto de partida. Olhar a existência através dessa lente de desapego social não é apenas uma demonstração de coragem, mas uma rebeldia silenciosa contra as prisões cotidianas que nós mesmos aceitamos construir. Continuar lendo “A mulher atrevida que driblou a Marinha do Rei e circunavegou o planeta” →

O Ironman alemão imortalizado por um pronunciamento escatológico

Há gente que perde uma mão em batalha e vira nota de rodapé em livro de história militar; mas nenhum deles é Götz von Berlichingen, o cavaleiro que perdeu a mão direita e acabou conhecido, não apenas pela sua bravura, mas por um de seus pronunciamenteos, ainda que tal expressão que já rondasse as terras alemãs antes da Alemanha existir, e que virou clássico nacional depois que Götz gritou a versão certa para o interlocutor errado.

Alguns alcançam a imortalidade de formas bem expressivas. Continuar lendo “O Ironman alemão imortalizado por um pronunciamento escatológico” →

Um médico árabe, um judeu siciliano e um lugar chamado Brasil entram num bar…

Havia uma vez um livro tão estranho que só podia ter vindo de outro mundo. Letras vermelhas e pretas, tabelas que se liam na horizontal, na vertical e na diagonal ao mesmo tempo (uma espécie de Sudoku medieval para quem queria saber se ia sobreviver à próxima peste), e um dono que jurava tê-lo recebido de uma ilha encantada perdida no Atlântico. Era o tipo de história que qualquer editora de best-seller pagaria caro hoje: mistério, magia, um segredo guardado por sete anos a fio. Só que, como quase sempre acontece quando se puxa o fio de uma lenda bonitinha, a verdade por trás do Livro de Hy-Brasil é ainda mais interessante do que a fantasia, e de quebra ajuda a explicar por que um país inteiro do outro lado do oceano se chama… Brasil. Continuar lendo “Um médico árabe, um judeu siciliano e um lugar chamado Brasil entram num bar…” →