O prédio baixinho que deu origem aos gigantes

Você hoje olha para os inúmeros arranha-céus nas grandes cidades, indo desde o prédio do jornal A Noite, primeiro arranha-céu do Brasil, do alto de seus 102 metros, cuja foi iniciada em 1927. 3 anos depois seria construído o Empire State Building, em Nova York, com seus impressionantes 381 metros de altura. Ambos, joias da engenharia, apesar de haver hoje prédios bem mais altos, mas a inovação é do que estamos falando aqui. E essa inovação é devida ao um prédio de mais de 200 anos, descrito muitas vezes como o “Avô dos Arranha-Céus”.

Em 1797, a fábrica de linho Shrewsbury foi erguida em Shropshire. O prédio era inovador e magnífico, e o motivo de se afirmar isso é a técnica de construção usada nele, já que foi o primeiro edifício no mundo a usar uma estrutura de ferro para sustentação, o que mudaria para sempre a forma de construir prédios, posto que culminaria na moderna estrutura de estrutura de aço usada em edifícios modernos hoje.

Em fins do século XVIII, Shrewsbury já tinha uma longa história de acabamento têxtil e comércio, e vários comerciantes locais encontraram sucesso na indústria de lã. Entre os que fizeram mais fortuna estavam dois irmãos chamados Thomas e Benjamin Benyon. No entanto, quanto mais perto chegava o final do século, mais o setor sofria retração, e o mercado começou a encolher. Dessa forma, Thomas e Benjamin resolveram que o melhor era diversificar para a florescente indústria de linho.

Em 1793, os irmãos Benyon formaram uma parceria com John Marshall, de Leeds, que foi pioneiro na mecanização da fiação do linho; este processo baseia-se na técnica de pegar o linho cru e fiar as fibras em fios. Eles fizeram investimentos em várias usinas em Leeds, mas uma das usinas sofreu um incêndio catastrófico, que era um problema comum em usinas na época por causa da presença de fibras no ar que tornavam a atmosfera inflamável. O mesmo problema que silos de cereais sofrem.

Se só a presença de pó e fibras de linho na atmosfera já é causa de incêndio, a coisa escalona com o fato da maioria dos edifícios naquela época usarem esquadrias de madeira em sua construção, bem como pisos de madeira. Uma vez que um incêndio começou, já era! Contê-lo era um esforço hercúleo, já que brigadas de incêndio eram a cavalo e não ficavam pertinho. A catástrofe estava garantida.

Depois de pesquisar locais, os irmãos Benyon encontraram um lugar perfeito em Ditherington, localizado ao lado do Canal Shrewsbury, o que facilitaria o transporte de carvão para alimentar as máquinas a vapor da usina. O canal também facilitaria a exportação de produtos da fábrica para mercados em todo o Reino Unido e no mundo todo. Era o melhor dos mundos. Mas o problema ainda era a construção do prédio em si, já que era um investimento alto e ninguém é idiota de sequer aventar a possibilidade de perdê-lo num incêndio.

Em 1796, os dois irmãos contrataram o arquiteto Charles Bage e o encarregaram de projetar um moinho que fosse o mais à prova de fogo possível. Bage era um curioso que enveredou para vários projetos. Seu pai fundou uma fábrica de papel, tornando-se mais tarde sócio de uma fábrica de ferro, e foi lá que Bage começou a se interessar por Engenharia e Arquitetura.

Quando os irmãos Benyon foram procurar Charles Bage, ele era um comerciante de vinhos que também, se interessava na aplicação das tecnologias de ferro e gás na construção civil e iluminação.

Ah, sim. Bage também era romancista, mas isso não vem ao caso e estou mencionando só a título de curiosidade, mesmo.

A tarefa encarregada caiu como um presente divino nas mãos de Bage, que viu isso como uma oportunidade única de explorar as suas habilidades de Engenharia e aplicar suas ideias de empregar aço em construções civis.

Charles Bage, então, projetou um prédio de cinco andares que tinha uma estrutura interna feita inteiramente de ferro fundido. A estrutura era composta por três fileiras de pilares de ferro fundido e vigas de ferro fundido estendidas entre eles. Arcos de tijolos foram construídos entre as vigas para sustentar os pisos e tirantes de ferro forjado impediram que esses arcos se separassem. Juntos, eles formaram uma estrutura resistente e à prova de fogo.

A construção se mostrou tão bem projetada e construída que o edifício depois de terminado era tão sólido que sobreviveu sem incidentes, mesmo com o passar do tempo. A fábrica de linho fechou em 1897, exatamente cem anos depois de inaugurada, e o edifício foi então convertido em uma maltaria para a indústria cervejeira e, como consequência, muitas janelas foram emparedadas e o resto foi feito menor para que os trabalhadores da maltaria pudessem controlar a quantidade de luz, umidade e ventilação, criando as condições necessárias para produzir o suco de cevada tão amado por muitos.

A fábrica de cerveja funcionou por mais noventa anos antes de fecharem por causa da forte concorrência dos métodos modernos de produção. Os métodos de produção poderiam ter se modernizado, mas a técnica de construção não só se mantinha eficiente como é a base de construção dos mais modernos prédios e arranha-céus empregados até hoje.

Quanto ao prédio especificamente, ele ainda está de pé, firme e forte. Ficou abandonado um tempo, mas em 2005 foi adquirido pela English Heritage e, mais tarde, em 2015, pela Historic England. Os edifícios abandonados foram restaurados e reabertos em 2022 como espaço de trabalho de uso misto e exposições que você poderá visitar para conhecer a engenhosidade dos nossos tetravós.


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