Por Emilio Sant’Anna
Estudo diz que site permite identificar corretamente doenças, mas há risco de automedicação e diagnóstico errado.
Site de pesquisas mais usado na internet, o Google está se tornando uma espécie de consultório virtual dos internautas, para preocupação dos médicos. Pessoas acessam as páginas em busca de informações sobre doenças – desde a simples identificação de sintomas até a interpretação de exames e tratamentos. Surpreendido por um paciente que chegou a seu consultório com sugestão de diagnóstico e tratamento para a doença do filho, o médico Hangwi Tang, do Hospital Princess Alexandra, na Austrália, resolveu testar a precisão de diagnóstico do Google. A internet acertou em 58% dos casos.
Tang examinou casos publicados ao longo de um ano pela revista médica New England Journal of Medicine sem consultar os diagnósticos corretos. Com a busca por até cinco termos citados nos estudos, o Google forneceu dados permitindo que médicos chegassem a diagnósticos iguais aos publicados.
O site acertou o diagnóstico de linfoma e síndrome torácica aguda, por exemplo, mas pensou que a febre do Nilo Ocidental fosse a “doença do enxerto contra o hospedeiro”. Tang concluiu que ferramentas de busca como o Google são boas como complemento para os médicos. Isto é, não podem substituí-los.
Mesmo assim, o temor é que os resultados da experiência sejam simplificados e levem as pessoas a acreditar que uma busca na internet substitui uma consulta. “Alguns confundiram nosso estudo com uma defesa do uso do Google como uma ferramenta essencial de diagnóstico”, diz Tang. Ele publicou seu estudo, intitulado Dando um Google em busca de um diagnóstico, na edição online de novembro da revista especializada British Medical Journal.
Alguns comentários publicados em blogs e sites de saúde depois da divulgação da experiência sugeriram que, para muita gente, os sites são tão bons quanto os médicos. Um deles chegou a afirmar que “são um instrumento de diagnóstico melhor que o estetoscópio”.
O que alguns na blogosfera esqueceram, diz Tang, é que a internet é útil particularmente nas mãos de um médico ou outro especialista em saúde. “Os clínicos têm mais referência sobre sintomas inusuais e os termos técnicos para os sintomas”, afirma ele. Quanto mais precisos são os termos da busca, mais exato é o diagnóstico. “Além disso, há muito lixo na web e um especialista pode eliminá-lo rapidamente.”
CONFIÁVEL?
Essa busca de informações também chama a atenção no Brasil. O clínico geral e professor convidado da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Flávio Dantas diz que essa é uma tendência natural e relatada com freqüência, mas que precisa de orientações. “É fundamental oferecer uma fonte confiável para o público”, diz.
Ele alerta que durante as pesquisas é importante verificar o perfil dos sites acessados. As páginas das instituições oficiais, como as universidades e associações médicas, são as mais recomendáveis. “Quando um site tem interesses comercias e estimula a venda de algum produto, a pessoa deve desconfiar”, diz ele. Esse tipo de precaução pode evitar efeitos indesejáveis. “A pessoa pode achar que tem uma doença que não tem, ou comprar um produto (remédio) e ele ter um efeito adverso”, alerta Dantas.
A assessora comercial Maria Júlia Paim, de 22 anos, utiliza o Google para buscas freqüentes sobre problemas de saúde que tem para se adaptar a anticoncepcionais, assuntos relacionados a depressão e alimentação.
Para ela, os sites mais confiáveis são geralmente aqueles que aparecem entre os primeiros links do Google, “por serem também os mais acessados”. “Geralmente nem passo das primeiras páginas “, conta. Apesar disso, ela diz procurar sempre por informações em sites relacionados a universidades, ou com a identificação do autor. “Os sites que têm dicas em debates de usuários não são tão confiáveis, apesar de causarem curiosidade”, diz.
Essa curiosidade, segundo o psicólogo Salomão Rabinovich, da Academia Paulista de Psicologia, pode levar a um perigo maior: a automedicação. Além do excesso de informações na rede de computadores, isso é facilitado pela falta de acesso à saúde e de um acompanhamento médico constante. “Nós temos um problema que é a falta dos médicos de família”, diz.
Nessa busca pela informação, o mais importante é conseguir estabelecer filtros, e não aceitar tudo o que aparece na tela do computador como sendo a verdade. “Não dar informação nenhuma é ruim. Mas informação em excesso para quem não tem capacidade de entendê-la também pode ser muito ruim”, afirma o psicólogo.
COMO PESQUISAR COM SEGURANÇA
Confiança: Uma das principais fontes de consulta deve ser o próprio médico. O paciente pode pedir a ele informações sobre sites da internet que tenham informação confiável sobre seu problema.
Oficiais: Os especialistas alertam que os chamados ‘sites oficiais’ podem ser fontes mais confiáveis. Bons exemplos são as páginas de universidades, instituições de saúde, órgãos governamentais e associações médicas.
Comercial: O internauta deve desconfiar das informações sempre que o site pesquisado tiver fins comerciais e promover a venda de produtos médicos e medicamentos. Geralmente essas informações são tendenciosas ou parciais.
Profissionais: Outra opção válida para os pacientes é procurar informações úteis em sites de profissionais médicos que sejam credenciados, reconhecidos e com credibilidade.
Medicação: Seja qual for a fonte pesquisada na internet, em hipótese nenhuma a pessoa deve medicar-se por conta própria a partir dessas informações.
