O sábado anuncia: o domingo morreu

Eu me lembro quando era menino. Era um mundo estranho que muitos de vocês não reconheceriam. Era um mundo pré-internet. Computadores eram coisa de ficção científica. Ter acesso a todo o conhecimento da Humanidade? Só se abrisse a Barsa (é algo com um monte de folhas de papel escritas. Tinhas uns mapas de imagens. Perguntem aos seus pais). As mães preparavam “O” almoço, um almoço de domingo. Os pais estavam em casa, depois de uma semana de trabalho. Era um evento. O evento do almoço de domingo. Às vezes com avô e avó, tios, ou apenas só os de casa. Sim, vocês não sabem, o que isso significa, a geração de cada um pega o seu prato, vai pro quarto e fica no celular.

Havia outra coisa certa aos domingos: um homem. Ele trabalhava aos domingos! Um terno simples, um auditório. Microfone preso no pescoço. Um imenso sorriso. Desde a manhã até a noite, aquele homem conduzia a diversão. Jogos, divertimento, para as senhoras e senhores, moças e rapazes, meninas e meninos. Era um mundo de alegria, mas esse mundo acabou, não existe mais, já era. Se foi. Os almoços, as reuniões, os programas, o homem. Sílvio Santos morreu, e com ele morreu o domingo.

Hoje se deu o passamento do homem que tinha a alcunha de Senor Abravanel, mas seu verdadeiro nome era conhecido por todos: Sílvio Santos. Por décadas ele levou a diversão leve, sem apelação. Sim, ele zuava todo mundo, mas todos riam, era uma família, amigos, em que cada um brinca com o outro. Os jovens de hoje não sabem, mas amigos se tratam assim, ao invés de fazerem uma olimpíada de oprimidos para ganhar troféuzinho de quem é mais sofredor.

Os relatos são inúmeros. Ele trazia pessoas de várias partes, pagava-lhes o transporte, o almoço, o lanche, as roupas e maquiava. Todo mundo aparecia na TV, pois, TV era magia. Sim, as caravanas eram pagas por ele, e ele falava com todo mundo antes do programa começar. Eram pessoas humildes que tinham algumas horas de magia em suas vidas: estar perto do Sílvio! Era como você ir a Metrópoles e o Super-Homem lhe levar para voar com ele.

Numa época que gays eram vistos como escória, dignos de morrerem na porrada, Sílvio Santos abriu seu programa momentos para eles se apresentarem como “transformistas”. Todos aplaudiam. Todas as senhoras e senhores em casa, pessoas já de idade, não viam nada demais. Eram artistas e se o seu Sílvio levou, é porque são boa gente!

Para terem uma ideia, era um mundo tão diferente que assistíamos Domingo no Parque esperando para saber qual a criança iria ganhar o incrível, maravilhoso, resplandecente prêmio: uma bicicleta. Uma época que tudo era caro, a Inflação era horrível, uma imensa recessão, e a bicicleta era o prêmio mais cobiçado, já que era algo extremamente caro.

Por décadas, Sílvio Santos manteve programação infantil, a última e única emissora de canal aberto a transmitir desenhos, depois que a legislação proibiu publicidade direcionada a crianças. A rigor, era um horário que só dava prejuízo, mas Sílvio sempre disse que enquanto ele estivesse vivo, o horário infantil iria se manter e que não importava que desse prejuízo. Ainda havia outras coisas em jogo.

Por várias vezes, Sílvio entrou em embate com a Globo, a Vênus Platinada, com seu modo americano de fazer TV e o SBT no modo mais brasileiro de ser: anárquico, descontraído, algo digno do brasileiro. Mas a Globo tinha suas regras draconianas. Os artistas e funcionários não podiam ir em outras emissoras de TV. Nem mesmo atuar em comerciais que não fossem veiculados pela Globo ou somente pela Globo. Quando atores da Globo ganhavam o Troféu imprensa, eles eram impedidos de receberem, então, Sílvio liga diretamente pro Roberto Marinho, era como se A Presença da DC chamasse o One Above All da Marvel. “Roberto, eu e você já estamos ricos, não precisamos disso. Os atores precisam, pois este é o trabalho deles. Não os prejudique em suas profissões. Big Robert liga pro Boni e manda deixar que os atores fossem receber o prêmio, ao que Boni teve que acatar (muito puto da vida, mas mandou, tá mandado).

Hoje, o último bastião do domingo acabou. Já não se faz mais almoção de domingo. O encontro com parentes virou discussão, disputas políticas, jovens enchendo o saco. O Homem Sorriso levou seu sorriso para outros lugares. Não sei quais, não sei se existem, não me importo. O que quer que seja só significa que o mundo ficou mais triste. É a última memória que irei guardar de um tempo distante.

O destino da programação infantil eu já sei qual é. Seguirá a inexistência, assim como o homem que chamava todas as pessoas pobres que iam ao seu auditório para terem um momento incrível com ele de “colegas de trabalho”.

Muitas pessoas são poeira (eu incluso), outras nascem para ser estrelas. Outros são galáxias inteiras. Sílvio Santos era o Universo.

O criador da TV brasileira no modo genuinamente brasileiro se foi. Não teremos outro, nunca tivemos outro. É o preço que pagaremos por termos a certeza que ele era único.

Obrigado por todos os domingos, obrigado pelo SBT, obrigado por ter criado a TV mais brasileira do Brasil.

6 comentários em “O sábado anuncia: o domingo morreu

  1. O Silvio tinha respeito pelo público porque sabia que sem o público ele e o SBT não seriam nada. Ele tratava as pessoas que iam ao programa com decência porque ele as respeitava. Ele fazia questão dos desenhos porque respeitava as crianças. A geração Netflix esperneando hoje não tem ideia do que seja respeito. Sorte que nós, que crescemos com os domingos recheados pelo Silvio, não precisamos dar ouvidos a esses jovens que, apesar de não respeitarem o Silvio, seriam respeitados por ele.
    Silvio era o universo e nós, poeiras, tivemos o imenso privilégio de compartilhar o planeta e o tempo com ele.

    Curtido por 1 pessoa

  2. No Domingo no Parque eu gostava era de ver a criança trocar a bicicleta por uma meia furada sem o par.

    Curtir

  3. Já deixou um grande legado de saudades em seus admiradores, incluso eu, todos micro poeirinhas a orbitar algum corpo celeste dentro desse universo chamado Sílvio Santos. Aproveito a homenagem para compartilhar que meu maior sonho na década de 1980 (infância e começo de minha adolescência) era participar do quadro Portas da Esperança; não tinha nenhum pedido especial (tampouco caro, até porque meu genitor era funcionário-padrão do Banco do Brasil, nós tínhamos mais condições do que 90% dos brasileiros naquela época), eu queria apenas conhecer o homem do baú, como o chamávamos em casa.

    Descanse em paz, Sílvio, na certeza de que nenhum de seus admiradores jamais te esquecerá.

    Curtir

Deixar mensagem para jkoldobika Cancelar resposta