Os milagres do Eclipse

Eclipses, ao contrário de pseudoobras literárias, são coisas que nos fascinam desde que a humanidade, bem, se entendeu por serem seres humanos. Há bilhões de anos que eles ocorrem, milhões de anos que a Lua fica no caminho do Sol, obscurecendo a Terra e enchendo os pobres habitantes de temor, para algum tempo depois o júbilo tomar o lugar da apreensão. Tudo isso orquestrado pela mais fraca das forças: a Gravidade.

Junto com o fenômeno, a ignorância nos fez acreditar que algo de ruim estava acontecendo. Os antigos chineses achavam que a Lua (ou o Sol, dependendo se o eclipse era lunar ou solar) estava sendo devorada por um dragão maléfico. Na Índia, o mito era semelhante; onde Rahu, a serpente, devora Suryadev (o Sol) ou Chandra (a Lua). É o mito do Navagraha (em sânscrito: os 9 reinos). As pessoas viam com apreensão o astro-rei ser tomado por uma força maligna; mas em toda boa história, o bem prevalece e o Surya volta com seu esplendor, derrota os antigos espíritos do mal, relegando-os a uma forma decadente.

Mitos sempre ajudaram as pessoas a compreenderem seu mundo, à sua maneira. Pouco a pouco, fomos compreendendo como a Natureza age. Os babilônios já calculavam eclipses, assim como os assírios e os egípcios. Grandes civilizações dispunham de astrólogos que perscrutavam os céus e ainda havia muito mito mesclado com a ciência chamada Astronomia. Somente ridículas tribos esparsas não tinham tal conhecimento, pois mal sabiam ler, e mesmo que soubessem não faria diferença, pois não tinham o que ler e nem se importavam com isso.

Vatasseri Paramesvara foi um dos maiores astrônomos hindus e era discípulo de Madhava of Sangamagrama, fundador da escola Kerala. Isso no século XV. Paramesvara observou os astros, contribuiu com inúmeros tratados de matemática e comentarista das obras de Bháskara, que desenvolveu o método para extração da raiz de uma equação de segundo grau. Seu conhecimento era calcado em muitas obras anteriores e nos tratados publicados pelas centenas de cientistas árabes (os mesmos cientistas lidos por Giordano Bruno). Paramesvara estudou os eclipses e criou tábuas astronômicas com previsões.

Observação: ainda não se usava telescópios.

Mitos sempre nos ajudaram a ver o mundo com alguma espécie de explicação e não há nada de mal nisso. Criamos uma identidade com o mundo natural e passamos a ter consciência de nosso lugar ínfimo aqui, pois há coisas mais grandiosas no Universo e nenhuma delas foi feita pra nos agradar. Entretanto, as pessoas continuam sem entender o significado dos mitos, e os trazem para o mundo racional. Mythos e Logos acabam se tornando uma coisa só (leia Uma Breve História do Mito, da Karen Armstrong), gerando uma única coisa: a superstição. Com isso surgem “banhos mágicos”, pulseiras holísticas powernãodasquantas aprovada pela NASA, o NOAA e pela padaria do seu Joaquim e rituais totalmente desprovidos de sentido, como os pais paquistaneses que estavam enterrando suas crianças até o peito durante o eclipse da semana passada.

Me disseram que era por desespero e fé. Se é desespero, não é mais fácil exigir das autoridades que haja um programa hospitalar decente? Ah, sim, eles estão mais preocupados em guardar armas para enfrentar a Índia qualquer dia. Fé? Em quê? Não será a fé que irá curar a deficiência na criança, além de causar mais uma: elas estavam com óculos escuros para protegerem os olhos dos raios solares. Maravilhoso, não?

Alá não está se importando com as crianças deficientes, nem Hindra, nem Jeová nem Hórus nem nenhuma outra entidade fantástica, criada pelo imaginário popular. Isso não cabe hoje em dia, só em lugares atrasados, repletos de pessoas ignorantes que não frequentaram nem mesmo o Ensino Fundamental. Você conhece algum lugar assim? (pergunta retórica, não precisa responder)

PS. Até agora eu não soube de nenhuma informação se as crianças foram curadas. Deve ser por causa dos movimentos céticos que estão escondendo a verdade.

25 comentários em “Os milagres do Eclipse

  1. Estava lendo o artigo pensando que seria alguma informação nova sobre eclipses e quando me deparo com o principal da história fiquei sem reação. Acho correto religiões não serem impostas em pessoas que já tenham alguma ou não queiram nenhuma, mas aceitar uma crença que põem em risco a vida dos outros (vide o menino da última foto, está só com o rosto para fora da areia)… Isso não deveria ser preocupante e a porcaria da ONU lá não deveria fazer algo? Aí fica a dúvida.. A ONU possui a UNICEF que supostamente é o orgão mundial que cuida das crianças. E cadê o cuidado com essas crianças sendo enterradas vivas? Uma coisa é respeitar o individualidade das pessoas, outra é permitir que essa individualidade cause ferimento à outras. É muito irritante. Muito.

  2. Eu não sei como a ignorância ainda me surpreende. :roll:

    Sério, com o passar do tempo, eu percebo que estou cada vez mais intolerante a certos tipos de comportamento. Seja uma crise existencial por causa de um eclipse, seja qualquer outra forma mais “refinada” de crendice. Eu entendo que no passado, as pessoas procurassem explicações para os eventos e, com a falta de conhecimento, acabassem buscando para coisas sobrenaturais.

    Mas o pior não são essas, mas as pessoas que, hoje, mesmo tendo acesso a todo o conhecimento, mesmo tendo estudado, mesmo com uma infinidade de “poréns”… Ainda soltam explicações desse tipo. É foda. :evil:

  3. Eu me pergunto como aquelas civilizações que davam uma importancia especial ao sol reagiam a um eclipse…

          1. – Boa noite, senhoras e senhores. Declaro aberto o 1000º Congresso de Neurocirurgia.

            – Posso ter a palavra?

            – Pois, não, doutor.

            – Gostaria de comentar a notícia sobre a vitória do cajuzinho do Oeste pela Copa Municipal de Pindamonhagaba

            – Hã, mas doutor…

            – Que custa discutirmos isso se é importante, hein?

  4. Fui ler rapidamente algo sobre datação de registros históricos destes fantásticos fenomênos e percebi que ainda não há um consenso do mais antigo,pois tinham da dinastia shang no século 12 a.c, bom me parece que esta gravado num casco de uma tartaruga.. mas isso é sobre o eclipse solar´, já o lunar parece ser mais antigo …!! De todo o modo nos povos antigos vinculavam quase tudo a deuses, André me lembro de ouvir uma “história” de que na virada do milênio houve um grande alvoroço sobre o fim do mundo e muitas pessoas se suicidaram pois parece ter havido um eclipse solar na época, sabe me dizer se é conto da caroxinha ou fato? Procurei e não achei , talvez você disponha de algum dado . Valeu e excelente post..!

      1. @André, seria muito bom se a seleçao natural atualmente pudesse filtrar esse tipo de anomalia mental de predisposição a crença no sobrenatural

        1. @drumyoshiki, Mas filtra sim, geralmente esses predispostos são lavadores de carro, carregadores de peso e por aí vai. Os mais dispensáveis na sociedade. E justamente os que não vão sobreviver a possíveis crises globais futuras.

        2. @drumyoshiki,

          A crença no sobrenatural tem um papel importante na nossa história e no nosso desenvolvimento. Como o André disse no artigo, a criação de mitos ajudaram as civilizações a compreenderem o seu mundo. Todos os povos desenvolveram seus mitos, logo, ela é a nossa característica.

          Newton foi um grande gênio, mas também foi um praticante do ocultismo. Mas será que se ele não tivesse esta curiosidade de entender o sobrenatural, será que ele teria sido um grande cientista?

          1. @Icarus,Isaac foi um gênio sim. Um grande gênio inclusive. E praticante do ocultismo também. Mas naquela época, talvez até eu teria sido ocultista por osmose.

            Newton foi, na minha opinião, uma exceção. Mas ele não era perfeito, ele disse sandices como acreditar nos seis mil anos de existência que a Bíblia dá à Terra.

            Se ele tivesse vivido depois da descoberta da datação radiativa, eu acredito que ele teria uma opinião diferente sobre isso. Talvez ele até mudasse a sua opinião sobre a cronometria imutável das escrituras.

            Se ele pudesse ver os fósseis que já foram encontrados talvez ele seria até um defensor da evolução (como se esse termo existisse na época dele.) Talvez, ele dedicasse mais a sua genialidade a formular mais uma ou duas leis da física.

            De fato, a genialidade de Newton era muito grande, ele era tão metódico que abordou a bíblia e suas profecias com um estudo critico e moderno, de cronologia detalhada. Disse inclusive que o mundo acabaria em algum instante DEPOIS de 2060, mas com toda a certeza não antes desta data. (odeio profecias auto-realizaveis)

            Mitos ajudaram civilizações antigas a compreender o mundo, a sua maneira. Isso não significa que seja a compreensão da verdadeira realidade. Por causa de mitos se mata pessoas e animais pelo seu ‘sagrado’ sangue. Por causa de mitos faz-se coisas inúteis e abestalhadas para agradar um ser invisível. E é por causa de mitos que grandes nações se erguem e controlam massas de forma sistemática. E graças a estes mitos e estas nações, hoje estamos aqui. Mas isso não significa que eles AINDA sejam necessários para o desenvolvimento das civilizações.

            A religião atrapalha o desenvolvimento da ciência, pois é baseada em respostas falsas e mínguas, para dúvidas verdadeiras e complexas.

            O resultado é que a maioria religiosa não se procupa em procurar respostas para suas dúvidas, pois as respostas estão todas ali, em escrituras arcaicas e creditadas a um ser sobrenatural. E quem sai perdendo é o desenvolvimento da informação e conhecimento de todos os seres humanos. Claro que existem exceções como o Sir Newton, mas se não fosse o freio religioso, hoje em dia teríamos muito mais cientistas e estaríamos em um outro patamar de informação.

          2. @drumyoshiki,

            Aparentemente vc não entendeu o que eu quis dizer, vou tentar ser mais claro. Vc disse:

            “seria muito bom se a seleção natural atualmente pudesse filtrar esse tipo de anomalia mental de predisposição a crença no sobrenatural”

            Se a seleção natural filtrasse a nossa pré-disposição as crenças, muito provavelmente não teríamos a ciência evoluída hoje. Nós devemos as crenças do passado a nossa tecnologia atual. A astronomia nasceu da astrologia, e a química nasceu da alquimia, ambas crenças no sobrenatural. E não foi só Newton que buscava o sobrenatural. Galileo, Copérnico e Kepler eram astrólogos. Existe até um mapa astrológico feito por Kepler que foi descoberto, não faz muito tempo.

            Já leu sobre Marcelo Gleiser? Ele chegou a acreditar em vampiros e também buscou algumas religiões antes de se tornar o físico que é. Einstein também acreditava no sobrenatural.

            Resumindo: Nós devemos agradecer a evolução pela nossa tendência de crença e não querer acabar com ela. Não foi atoa que a evolução nos “deu” a característica de acreditar no sobrenatural. ;-)

          3. Gleiser é judeu. Não buscou religião nenhuma. Aliás, as justificativas dele pra defender a existência de Deus em seus livros soa idiota. Ele pode acreditar em Deus e não penso que cientistas devam ser ateus para estudar o Universo. Mas tem hora que parece proselitismo fora de propósito, não acrescenta nada a livros como o Dança do Universo.

            Mas acreditar em vampiros é foda…

          4. ,

            André,

            Curioso, ele se declara ateu. :-(

            http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2803201003.htm [Como é só para assinantes, vou colocar o trecho que importa]

            “A pergunta que mais me fazem quando dou palestras, ou mesmo quando me mandam e-mails, é se acredito em Deus. Quando respondo que não acredito, vejo um ar de confusão, às vezes até de medo, no rosto da pessoa”…

            Eu li o livro a Dança do Universo, mas faz tempo. Eu não lembro dele ter defendido Deus, mas posso estar enganado, pois eu não lembro do conteúdo :-(. Mas eu li o outro livro dele recentemente, a Criação Imperfeita, neste livro ele vai totalmente contra o deus dos judeus/cristãos.

            Quanto a buscar a religião, são palavras dele hehehe, se ele está mentindo, eu não sei. Quanto aos vampiros é foda mesmo :mrgreen: , bom ninguém é perfeito, mas ele acreditava em vampiros quando era bem jovem. Eu acreditava em coisa pior :oops: … bom deixa para lá esta parte.

      2. @André, Sorry, ato falho de minha parte não especificar, na virada do primeiro milênio…..! mas acho que também pela época suicidios em massa devido a histeria mitológica eram comuns… valeu.

      1. @Daniel Sugui, Valeu cara mas eu quis dizer do primeiro milênio…… falando nisso não foi um doido que convenceu um bando de crentes a se enfiar em um buraco acho que na rússia??? e depois passou um tempão e eles ficaram com cara de tacho? Sabem se foi por causa do eclipse?

          1. @André, Graças a shiva , existe o ceticismo.net……… era esta loucura mesmo que procurava….kkkkkkkk!!

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