Cormorão, um pescador habilidoso

Por David Grémillet 

Niaqornarsuk, oeste da Groenlândia, numa manhã de março de 2000. Surgem as primeiras luzes ao fim da noite polar. São 6 horas, e me arrasto com dificuldade para fora do saco de dormir. Quinze graus abaixo de zero dentro da barraca, -27ºC fora. Acendo a lamparina e derreto um punhado de neve. Após tomar um bule de chá, entreabro a porta da tenda e espio o exterior com meus binóculos. As lentes desembaçam pouco a pouco e surge paisagem ártica: as águas mansas do fiorde, um resto de neblina que se dissipa, picos nevados, céu azul-cinzento com abundantes nuvens. Diviso uma falésia a cerca de 500 metros; a visibilidade ainda é baixa, mas começo a distinguir a silhueta de algumas dezenas de pássaros sobre a geleira. Muitos ainda dormem, a cabeça sob as asas, mas alguns já se agitam. Logo alçarão vôo, em grupos de cinco ou dez, para ir pescar nas águas do fiorde próximas às geleiras, cuja temperatura é de -1,5ºC.

Esses pássaros, conhecidos como grandes cormorões ou corvos marinhos (Phalocrocorax carbo), são extraordinários pescadores. De origem tropical, parecem mal-adaptados ao clima ártico: sua plumagem retém água e seu isolamento térmico é limitado. Ainda assim, alguns deles vivem ao norte do círculo polar e suportam o rigor do inverno da Groenlândia. O grande cormorão é uma ave palmípede da ordem dos pelicaniformes, isto é, um parente próximo dos pelicanos e das gaivotas. Presente em todos os continentes, sobretudo nas regiões costeiras, mas também nas interiores, essa família agrega cerca de 30 espécies.

O Phalacrocorax carbo, com seis subespécies, tem área de ocorrência bem mais vasta que a de outras espécies e só não é encontrado na América do Sul e na Antártida. Como o nome indica, o grande cormorão é o maior entre os cormorões voadores (existe uma espécie ainda maior nas ilhas Galápagos, com as asas atrofiadas). As dimensões e peso variam bastante entre as subespécies, mas costumam ter tamanho comparável ao de um ganso, pesando entre 1,5 kg e 3,5 kg. Seu corpo é atarracado, as asas são curtas e grandes, próprias para vôos entrecortados, e o pescoço é longo e flexível. Com olhos azul-esverdeados e bico longo, com 5 cm a 8 cm, terminado com em gancho afiado, o grande cormorão tem plumagem marrom e preta, com manchas brancas na base do bico e ao longo do pescoço e – no início da primavera – também nas coxas.

Como todos os outros membros de sua família, o grande cormorão se alimenta de peixes vivos capturados durante rápidos mergulhos. Os peixes são agarrados pelo bico encurvado e engolidos rapidamente, em geral ainda sob a água. O pássaro pesca uma enorme variedade de peixes, de água doce e de água salgada, a menos de 10 metros de profundidade, durante mergulhos de cerca de 30 segundos, mas é capaz de mergulhar até a 40 metros e permanecer mais de 2 minutos sob a água.

Grande e Cruciforme

A grande silhueta negra cruciforme dos cormorões em repouso é familiar. Pondo-se ereto sobre as patas, a certa distância da água, o grande pássaro negro estende as asas durante alguns minutos após cada rodada de pescaria. Acreditava-se que esta ação ajudava a secar as asas, mas a idéia é falsa. Como veremos, a água escorre das penas do cormorão tão rapidamente quanto as encharca. Na verdade, a postura altiva do grande pássaro tem função digestiva: utilizar os músculos das asas lhe permite liberar energia suficiente para esquentar o bolo alimentar, facilitando a digestão.

O grande cormorão se reproduz aos 2 ou 3 anos, gerando entre 1 e 5 filhotes por ano, em colônias que podem contar com dezenas de milhares de pássaros. Os ninhos, construídos sobre árvores ou na terra, são feitos de matéria vegetal e penas diminutas. Sua expectativa de vida é estimada em 12 anos. Devido à caça, o contingente de cormorões na Europa ocidental diminuiu muito no final dos anos 70. Posteriormente, a população teve rápido crescimento, e hoje em dia, somente na França, existem cerca de 10 mil deles. A eles se juntam, no inverno, em torno de 90 mil cormorões não nativos, provenientes da Europa setentrional, que se dispersam fora da época da reprodução. Não é exatamente uma migração, pois algumas aves habitam locais próximos aos de nidificação, mas as mais aventureiras percorrem milhares de quilômetros, entre a Europa setentrional e o norte da África.

Submarino com Penas

O grande cormorão parece muito mal-adaptado a seu ambiente aquático. Segundo uma crença muito difundida, sua plumagem é permeável. Por muito tempo se creditou essa suposta deficiência à ausência ou mau funcionamento da glândula uropigial. Situada próxima à base da cauda na maioria dos pássaros, essa glândula secreta um líquido oleoso que lustra e impermeabiliza a plumagem. No grande cormorão, ao contrário do que se afirma, a glândula está presente e funciona bem. Então, qual a diferença entre a plumagem do cormorão e a de outros pássaros?

Constatamos que ela é capaz de reter 0,4 litro de ar a 1 metro debaixo d’água, três vezes menos que a plumagem de outros pássaros mergulhadores, como os patos. Isso corresponde a uma camada isolante de ar de 1,75 mm de espessura, distribuída sobre o corpo do pássaro.

O exame da estrutura das penas do grande cormorão com microscópios ópticos e eletrônicos de varredura nos revelou a conformação peculiar das penas de pequena dimensão que recobrem seu corpo. A parte central da pena, correspondente a um quarto de sua área total, tem a estrutura habitual de uma pena de pássaro: feita de barbas (ramificações) de onde saem bárbulas, por sua vez ligadas entre si por pequenos filamentos. O conjunto é muito resistente à pressão da água (cerca de 0,6 bar, em média).

No entanto, a parte periférica da pena, correspondente a três quartos de sua área total, não é estanque. Faltam os filamentos, e as bárbulas não se conectam entre si, o que torna essa área totalmente permeável. A estrutura da pena do cormorão, única entre os pássaros mergulhadores, explica por que sua plumagem retém um volume tão pequeno de ar durante o mergulho.

Essa permeabilidade fez com que por muito tempo o cormorão fosse visto como um animal arcaico, com plumagem semelhante à dos primeiros pássaros do Cretáceo. No entanto, nossos estudos demonstraram a sutileza de sua adaptação morfológica: como um submarino, ele se livra do ar quando submerge e, com a mesma facilidade, se livra da água ao emergir. Reduzindo sua flutuabilidade, consegue descer sem esforço a moderadas profundidades. Outros pássaros mergulhadores, cuja plumagem retém três vezes mais ar, precisam bater vigorosamente as patas ou as asas, embaixo d’água, para contrabalançar o empuxo de Arquimedes, que tende a empurrá-los para a superfície, ou então devem atingir profundidade suficiente para a pressão hidrostática reduzir significativamente sua flutuabilidade (diminuindo o volume de ar aprisionado). Portanto, tais pássaros gastam mais energia a pouca profundidade que o grande cormorão. Neste, a semipermeabilidade da plumagem reduz a capacidade de flutuar, mas conserva algum isolamento térmico. Essa estratégia é particularmente interessante em águas quentes e pouco profundas, razão pela qual se supõe que a ave originalmente tenha vivido em lagoas rasas tropicais.

Mas dado que o cormorão vive também em regiões temperadas boreais e polares, a questão é explicar a adaptação de um pássaro de origem tropical a climas árticos e temperados. No mergulho, quanto mais fria é a água, maiores são as perdas térmicas. O grande cormorão, mergulhando em águas a 5ºC, gasta três vezes mais energia que pingüins com a mesma massa corporal submetidos à mesma temperatura.

O grande cormorão da Groenlândia possui a mesma plumagem semipermeável de seus congêneres europeus, asiáticos e africanos. Durante a pesquisa de campo no oeste da Groenlândia, analisamos seus ganhos alimentares ao longo do período estival. Para tanto, pequenas balanças eletrônicas foram escondidas sob seus ninhos para registrar o aumento de massa após cada ingestão.

No verão o consumo de peixe dos cormorões é o mesmo na Groenlândia (água a 5ºC) e na Normandia (água a 12ºC), e a necessidade alimentar é a usual para pássaros aquáticos dessas dimensões. Assim, os grandes cormorões das regiões temperadas e polares não parecem compensar as grandes perdas de calor resultantes do mergulho na água fria com maior consumo de alimentos.

Equipamos então grandes cormorões da Groenlândia com sensores eletrônicos miniaturizados, a fim de estudar seu comportamento durante o mergulho. Os dados revelaram seu desempenho extraordinário como predador: ao menos 30 gramas de peixe capturados por minuto sob a água. Esse desempenho é duas a três vezes superior ao dos grandes cormorões da França, e 20 vezes melhor que o dos pingüins. Graças a essa eficiência, o grande cormorão polar diminui a duração de seus mergulhos, o que reduz a perda térmica: assim, pescam 45 minutos por dia para se alimentar no verão na Groenlândia, em vez das duas horas e meia na Normandia na mesma estação.

Como essas aves realizam tal proeza permanece um enigma. Contabilizando os peixes presentes nas zonas de pesca dos cormorões através de câmeras subaquáticas ou mergulhos diretos constatamos que a densidade dos cardumes explorados pelos cormorões da Groenlândia é muito baixa. Portanto, o sucesso desses pássaros não repousa de maneira alguma sobre a superabundância das presas, mas sobretudo em técnicas de locomoção e predação particularmente eficazes.

Os pingüins utilizam as asas para nadar sob a água, mas os cormorões se locomovem com as patas palmadas. A princípio, esse meio de propulsão parece menos eficiente que o “vôo” submarino dos pingüins. No entanto, cientistas israelenses mostraram que os cormorões ondulam sob a água à maneira das focas, atingindo velocidades consideráveis com gasto energético pequeno.

Velocímetros eletrônicos registraram, por exemplo, picos de 3,8 metros por segundo, suficientes para não dar chance a um peixe com até algumas dezenas de centímetros. Filmagens com câmeras em miniatura presas às costas de grandes cormorões domados por pescadores chineses revelaram que esses pássaros só atacam com golpes certeiros. Todos os peixes capturados são ingeridos, de modo que o cormorão não faz nenhuma presa inutilmente.

Nossas primeiras expedições de observação, durante o verão da Groenlândia, revelaram a excepcional eficiência predatória dos grandes cormorões árticos. Ainda assim, isso não explica como esses pássaros de origem tropical sobrevivem ao inverno ártico.

A população de cormorões da Groenlândia vive, com efeito, tão longe do resto do mundo que seus membros não migram durante o inverno. Seria possível considerar que eles sobrevivem aumentando ainda mais sua eficiência predatória durante o inverno a fim de compensar as enormes perdas térmicas durante os mergulhos gelados? Durante a expedição mencionada no início deste artigo pude observar o comportamento dos pássaros em meados de março, quando o fim do inverno se aproximava. As observações preliminares, realizadas sob condições extremamente difíceis, sugeriram que os pássaros de fato diminuem o tempo que passam debaixo d’água para menos de dez minutos por dia.

Pesca Eficiente

Contudo, não estávamos convencidos. Ao longo de uma nova expedição experimental realizada em colaboração com o Instituto Polar Francês, equipamos os pássaros com sensores em miniatura, por um ano. Os aparelhos foram colocados na cavidade abdominal dos cormorões e registravam a freqüência cardíaca, cada dois segundos e a profundidade dos mergulhos, bem como, a cada seis segundos, a temperatura abdominal. Um estudo preliminar nos assegurou que esse procedimento não traria conseqüência alguma para a sobrevivência das aves, tanto a curto quanto a longo prazo, nem para seu desempenho predatório e sua capacidade de criar os filhotes. Os dez sensores instalados em julho de 2002 foram recuperados ao longo dos verões de 2003 e 2004, e nos proporcionaram uma montanha de dados relativos à ecofisiologia do grande cormorão durante o inverno ártico. Essa foi a primeira vez que esse tipo de medição contínua foi realizada em um animal de sangue quente em regiões polares.

Descobrimos que os cormorões continuam a mergulhar nas águas geladas durante todo o inverno. Alguns animais de sangue quente, como os pingüins imperiais, que fazem mergulhos profundos, resolvem o problema simplesmente deixando a temperatura corporal baixar, de modo a reduzir o gasto energético. Nossos sensores mostraram que os cormorões da Groenlândia, ao contrário, passam o inverno inteiro com temperatura corporal estável. Em meio a suas diversas atividades (repouso, vôo, mergulhos), a freqüência cardíaca também permanece invariável. Percebemos ainda que o tempo de mergulho varia bastante de uma estação a outra: de 30 a 50 minutos diários no outono e primavera, ele quase dobra entre dezembro e fevereiro. Assim, não é por uma adaptação fisiológica, mas sim comportamental, que o grande cormorão resiste ao inverno ártico, quando as temperaturas da água e do ar são, respectivamente, –1ºC e –15ºC, e a noite se estende de fim de dezembro ao início de fevereiro.

Isto significa que, no coração do inverno ártico, o grande cormorão tem muita dificuldade para se alimentar. Como acumula pouca gordura e não pode se abster de alimento por mais de dois dias, ele é confrontado por três dificuldades: geleiras, que recobrem grande parte de suas zonas de pesca, baixa luminosidade nas águas descobertas e aumento das perdas térmicas por causa do inverno.

Como resolve esses problemas? Apesar da extensão do gelo, o grande cormorão passa a pescar nas zonas pouco profundas que as fortes correntes marítimas mantêm abertas. Sua perda de calor é tal que ele precisa ingerir mais de 1 kg de peixe por dia, isto é, o dobro do que um cormorão da Normandia necessita no mesmo período. As águas onde o grande cormorão da Groenlândia pesca no inverno não são apenas glaciais, mas turvas. De fato, durante a noite polar, a claridade sob a água mal chega a 1 lux, o que para o olho humano corresponde à escuridão total. Dado que as presas do grande cormorão pesam em média 45 gramas, eles precisam, portanto, capturar aproximadamente 20 peixes por dia, o que os obriga a passar 70 minutos sob a água, para capturar um peixe a cada três ou quatro minutos. Nas águas sombrias e geladas da Groenlândia, esse desempenho é realmente prodigioso. Se os cormorões caçam visualmente, é razoável supor que sua visão é comparável à das corujas. Mas eles podem ter outros modos de detecção, talvez auditivos e táteis. Graças ao trabalho de campo paciente de diversos pesquisadores, hoje sabemos que o grande cormorão está entre as aves predatórias marinhas mais eficientes na pesca. Essa eficiência chega a incomodar comunidades de pescadores. É importante continuar a estudar seus hábitos para encontrar a melhor forma de solucionar problemas resultantes do convívio com humanos e estabelecer uma coexistência pacífica com este notável pássaro.

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