Antropóloga registra chimpanzés caçando com ferramentas

De acordo com pesquisa liderada por uma antropóloga da Universidade Estadual do Iowa (EUA), chimpanzés do Senegal confeccionam e usam lanças com regularidade para caçar outros primatas – sem a ajuda de seres humanos. O estudo, com financiamento da National Geographic Society, é o primeiro a registrar o uso habitual de ferramentas por animais não-humanos para caçar outros vertebrados.

Jill Pruetz, professora assistente de antropologia da Universidade Estadual do Iowa (ISU, na sigla em inglês), e Paco Bertolani, aluno de pós-graduação do Centro Leverhulme para Estudos Evolucionários Humanos, do Departamento de Antropologia Biológica da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, documentaram 22 casos em que os chimpanzés confeccionaram ferramentas, a serem usadas na caça de primatas menores, em cavidades de galhos ocos ou de tronco de árvores. A descoberta foi feita no local de pesquisa em Fongoli, no Senegal, entre março de 2005 e julho de 2006.

Uma dissertação sobre o estudo, de autoria de Jill Pruetz e Bertolani, intitulada “Savanna chimpanzees (Pan troglodytes verus) hunt with tools” [“Chimpanzés da savana (Pan troglodytes verus) caçam com ferramentas”], será publicada na edição de 6 de março da revista Current Biology. O artigo estará disponível no site dessa publicação profissional na quinta-feira 22 de fevereiro.

“Fizemos essa descoberta de maneira bastante inusitada”, diz Jill Pruetz. “Havia indícios de que esste comportamento poderia acontecer, mas só tinha ocorrido uma vez em um outro local. Então, conversei com meu gerente de projeto (Bertolani), e ele me disse que tinha visto uma fêmea caçando com ferramentas. Quando ele examinou os dados originais coletados, percebemos que provavelmente havia outras evidências e observações do mesmo comportamento. Quando passei meu primeiro semestre no Senegal, vi cerca de 13 episódios isolados de caça. Então, realmente é um hábito.”

Os chimpanzés enfiavam ferramentas à força em troncos ou galhos ocos repetidas vezes e os cheiravam e/ou lambiam depois de retirá-las de lá. Apenas dois entre os 22 casos relatados foram considerados brincadeira – no caso de um filhote macho – ou de natureza exploratória. Em todos os outros casos, os pesquisadores julgaram que os chimpanzés utilizaram força para inserir a ferramenta no buraco, de modo a ferir a presa que estivesse lá dentro. Eles presenciaram apenas um caso em que um chimpanzé tirou um bushbaby [Galago senegalensis] – um primata menor – de um buraco com a ajuda de uma lança.

Apesar de a caça ser atividade predominantemente executada por machos adultos, apenas um macho adulto (entre os 11 da comunidade) foi visto usando ferramenta de caça. As ocorrências relatadas incluem uma fêmea adulta, um macho adulto, três fêmeas adolescentes, dois machos adolescentes, uma fêmea jovem, um macho jovem e um bebê macho.

“Na literatura relativa aos chimpanzés, há muita discussão a respeito da caça desempenhada pelos machos adultos, porque, basicamente, são eles os responsáveis por isso – e eles não usam ferramentas”, declara Jill Pruetz. “As fêmeas raramente se envolvem. Então, isso foi surpreendente em muitos níveis. Não são apenas chimpanzés caçando com ferramentas, mas fêmeas – e os chimpanzés que mais caçavam junto com elas eram fêmeas adolescentes.”

“É clássico entre os primatas que, quando há a introdução de alguma inovação, especialmente em termos do uso de ferramentas, as gerações mais novas aprendam rápido”, prossegue ela. “Os últimos a adotar a novidade são os adultos, principalmente os machos. Isso acontece porque os chimpanzés imaturos aprendem com as mães, com quem têm maior afinidade.”

Os autores concluíram que essas descobertas embasam a teoria de que as fêmeas podem ter tido papel importante na evolução da tecnologia das ferramentas entre os primeiros seres humanos. Essas tecnologias incluíam comportamento relativo à caça, além de atividades ligadas à coleta.

“A combinação da caça com o uso de ferramentas em Fongoli, comportamento há muito considerado marca típica da nossa espécie, faz com que aquela população seja especialmente intrigante”, escreveram. “A observação de que os indivíduos que caçam com ferramentas incluem fêmeas e chimpanzés imaturos sugere que precisamos repensar as explicações tradicionais para a evolução de tal comportamento na nossa própria linhagem. Aprendendo mais sobre os comportamentos únicos dos chimpanzés nesse ambiente específico, antes que desapareçam, poderemos descobrir pistas importantes a respeito das provações encontradas por nossos ancestrais mais antigos.”

Para fazer as observações, Jill Pruetz e sua equipe passaram quatro anos “habituando” os chimpanzés – familiarizando-os com os seres humanos – na área de estudo em Fongoli, de 63 quilômetros quadrados. Esse processo mudou com o passar dos anos.

“É preciso passar horas e horas tentando segui-los e acompanhá-los, e basicamente fazer com que eles se acostumem conosco para que nos considerem presença benigna”, diz Jill Pruetz. “No passado, os pesquisadores costumavam alimentar os chimpanzés com banana, e assim eles se acostumavam com os seres humanos com muita rapidez. Mas esse método causa problemas. Sabemos hoje que há muitas doenças que podem passar dos chimpanzés para as pessoas e vice-versa. Há também problemas éticos, porque em alguns locais os chimpanzés se acostumaram tanto com as pessoas que deixaram de ter medo dos seres humanos e passaram a ser uma ameaça.”

Jill Pruetz e seus alunos de pós-graduação da ISU dão prosseguimento a sua pesquisa com chimpanzés no Senegal, por meio de bolsas adicionais da National Geographic Society e da instituição de ensino. Stephanie Bogart, aluna de pós-graduação de ecologia e biologia evolucionária da Universidade Estadual do Iowa, de West Palm Beach, na Flórida, é a atual gerente da pesquisa in loco.

A pesquisa durante o período de estudo foi financiada por bolsas do Centro da National Geographic Society para o Estudo da Violência na ISU, Bolsa de Viagem Internacional da ISU, Bolsa de Desenvolvimento Profissional do Corpo Docente da ISU e Bolsa de Conservação da Sociedade Norte-Americana de Primatologistas.


Fonte: National Geographic Brasil


Para saber mais:
Chimpanzés pré-históricos usavam martelos
Por que alguns animais são tão inteligentes?

3 comentários em “Antropóloga registra chimpanzés caçando com ferramentas

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