Pesquisa desvenda segredos genéticos da mais comum DST

Por David Biello

Um micróbio que descende de microorganismos comuns no intestino humano migra para a região genital e se desenvolve, aumentando em tamanho e complexidade genômica. O Trichomonas vaginalis tem material genético 10 vezes maior que o de seus parentes microbianos próximos e mais genes confirmados – 26 mil, que podem chegar a 34 mil – que seu hospedeiro humano. Seu genoma é o maior entre todos os organismos unicelulares já seqüenciados, de acordo com estudo publicado na revista Science de 12 de janeiro.

A Organização Mundial de Saúde estima que 170 milhões de casos de tricomoníase ocorrem todos os anos no mundo. Mesmo sendo tão disseminada, a infecção não é monitorada pela maioria das agências de saúde pública. Apesar disso, ela aumenta a suscetibilidade ao HIV e pode causar corrimento malcheiroso e espumoso em algumas mulheres. “No laboratório, é possível dizer se ele está crescendo bem se um cheiro horrível exala do recipiente”, observa Jane Carlton, geneticista da Universidade de Nova York e principal autora do artigo.

O T. vaginalis, entretanto, não é interessante apenas por causa dos prejuízos que causa à saúde. Seu genoma é o mais repetitivo já seqüenciado até hoje. Mais de 65% da informação genética é uma repetição específica com cópias muito próximas. “Elas divergem apenas 3%”, afirma Carlton. “No presente não temos os algoritmos de computador necessários para lidar com um genoma como esse. Por isso, ele permanece em milhares de fragmentos.” De fato, é muito difícil tentar juntar o genoma a partir de suas partes constituintes, todas parecidas.

Não obstante, Carlton e sua equipe conseguiram decifrar ao menos 26 mil genes. A maioria deles ajuda o parasita a causar a doença e consumir outras células, variando de bactérias benignas nas proximidades às células vermelhas e brancas do próprio corpo. Mas nem todos os genes têm um propósito claro. “O T. vaginalis tem mais de 800 genes codificando proteínas de superfície, um número enorme”, diz Carlton. “Não sabemos por quê.”

Uma possível causa dessa proliferação de material genético é que o micróbio simplesmente acrescentou material genético de organismos vizinhos no passado; ao menos um gene parece ser resultado de um cruzamento com outra bactéria, permitindo que o patógeno fabricasse seu próprio aminoácido pela primeira vez. Os pesquisadores especulam que o genoma tenha crescido em tamanho quando o T. vaginalis se transferiu de sua localização tradicional, o intestino, para os genitais – um fato cuja causa também é misteriosa.

Quando se aloja na vagina ou na uretra, o T. vaginalis, que é extremamente móvel, achata seu corpo – que normalmente tem forma de pêra – contra a parede desses órgãos e secreta proteínas a fim de destruir as células vizinhas e consumir bactérias benévolas para alterar a acidez geral do ambiente a seu gosto. Essa multiplicidade de ações perniciosas – e a área de superfície ampliada ao se achatar – pode ser responsável pelo tamanho do genoma do micróbio.

Mais insights sobre o mistério desse genoma com tamanho fora do comum terão de esperar pela tentativa de seqüenciamento de parentes próximos do micróbio, como os que infestam o gado e podem ter passado por migração similar. “Gostaria de seqüência-lo e ver se tem um tamanho semelhante, o que seria uma maneira de provar nossa hipótese”, reflete Carlton. Com isso, o T. vaginalis começa a obter a atenção que um flagelo tão disseminado merece. “Ele é a mais comum infecção não-viral sexualmente transmissível, mais freqüente que a clamídia, a sífilis ou a gonorréia”, acrescenta ela. “Apesar disso, é ignorado porque algumas pessoas não têm sintoma, em especial os homens.”

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