A descoberta de entalhes em uma pedra em forma de cobra, além de pontas de lança nas suas proximidades, constitui evidência de que o comportamento ritual – e provavelmente a religião – é muito mais antigo do que se imaginava. O achado vem de uma caverna escondida nas Colinas Tsodilo, em Botsuana, uma espécie de Meca para os habitantes locais, que as chamam de Montanhas dos Deuses.
“É uma notícia muito importante”, diz Sheila Coulson, arqueóloga da Universidade de Oslo, na Noruega, e líder do estudo. Antes da descoberta, pesquisadores haviam identificado sinais de prática ritual com no máximo 40 mil anos em sítios da Europa.
Pesquisadores acreditam que os humanos anatomicamente modernos tenham surgido no leste da África há talvez 120 mil anos. “A dificuldade sempre foi esse incrível intervalo de tempo entre esse acontecimento e qualquer aspecto mais complexo da cultura além da sobrevivência básica”, afirma Coulson. Embora alguns ornamentos entalhados e marcas nas paredes de outro sítio africano sejam tão antigos quanto o novo achado, eles parecem não ter nenhum significado ritual óbvio.
Um líder do povo local San convidou Coulson e seus colegas para analisar a caverna nas Colinas Tsodilo. Eles não estavam preparados para o que encontraram ao entrar: uma pedra de seis metros de comprimento com uma aparência impressionante de cobra, incluindo um talho em forma de boca no final. “Nunca tinha visto algo como aquilo”, afirma Coulson.
Centenas de pequenos entalhes, com espaços grandes entre si em alguns locais e mais próximos em outros, cobrem a pedra. As pessoas que entravam na caverna aparentemente fizeram essas marcas para aumentar a ilusão de cobra, criando a impressão de escamas e movimento. “Quando é iluminada por uma luz tremeluzente, ela parece muito uma cobra se mexendo”, diz Coulson. As cobras têm destaque nas tradições e mitologia do povo San, também chamado de Bosquímano.
Embora muitos entalhes pareçam antigos, marcadores mais confiáveis da longevidade do sítio estão enterrados em pedra meio metro abaixo do chão da caverna. Em uma escavação de um metro de largura e dois metros de profundidade bem perto da cobra, os pesquisadores descobriram mais de 100 pontas de lança multicoloridas num total de 13 mil artefatos manufaturados.
As pontas se parecem muito com as encontradas em outro local na África datadas pelos pesquisadores em até 77 mil anos, afirma Coulson. A julgar pelas cores raras das pontas de pedra e o padrão dos fragmentos, pessoas de lugares distantes as trouxeram à caverna parcialmente prontas e acabaram de fazê-las ali, explica ela.
Algumas das pontas de pedra parecem ter sido queimadas ou quebradas no que pode ter sido um tipo de sacrifício. Das 22 pontas feitas a partir de pedras vermelhas, todas apresentavam rachaduras e falhas consistentes com exposição a calor intenso, diz Coulson. Outras pontas de lança exibem lascas e marcas que sugerem que alguém as tenha batido de forma precisa, algo que pesquisadores tinham observado em sítios na Sibéria, ressalta ela.
“Quando se considera tudo isso em conjunto, fica claro que algo o caráter extraordinário desse achado”, diz o arqueólogo e especialista em religião pré-histórica Neil Price, também da Universidade de Oslo, que não fez parte da escavação. “Há coisas ocorridas ao longo de um longo período de tempo que não têm uma explicação funcional. Deve haver todo um complexo de pensamentos por trás dessas ações, e isso por si só é emocionante.”
Fonte: Scientific American
