A ópera-bufa do roubo ao Louvre

O homem audacioso passou muito tempo planejando. Aquele era o momento e ele está de pé, ali, de frente para o local de seu crime. A fachada do palácio se estende imponente sob o céu cinzento, suas alas simétricas de calcário já manchadas por séculos de chuva parisiense. Colunas coríntias subiam em fileiras solenes, frontões barrocos coroavam pavilhões como coroas esquecidas de reis mortos, e estátuas de deuses greco-romanos observavam o pátio vazio de paralelepípedos irregulares com olhos de mármore indiferente. Eram deuses, por que iriam se importar com as paixões humanas? Os telhados de ardósia negra desenham silhuetas dramáticas contra as nuvens, enquanto janelas altíssimas refletiam o céu como espelhos cegos. Nada quebrava a geometria clássica, nenhuma multidão de turistas profanava o silêncio; apenas o palácio e sua arrogância secular, guardião de tesouros que acreditava invulneráveis, enquanto a cidade acordava lenta e desatenta do outro lado dos portões.

O Louvre aguarda o homem cujas mãos pecaminosas irão despojar o magnífico museu de seus tesouros. O homem é audacioso, já falei, e ele irá colocar sua audácia e sua ousadia sob teste e ele conseguiu, de fato, seu intento ao realizar o roubo mais espetacular de sua época.

Ele roubou a Mona Lisa. Continuar lendo “A ópera-bufa do roubo ao Louvre”

Como borrões falsos, chá e cara de pau enganaram a elite do mundo da arte

E hoje falaremos sobre o maravilhoso mundo do mercado da arte, aquele grande teatro onde senhores de paletó e lencinho no bolso no bolso fingem entender o significado de um retângulo vermelho pintado sobre um fundo um pouco menos vermelho, enquanto sussurram “genial” com lágrimas nos olhos e dólares nas mãos. Pois bem, prepare seu lencinho de linho egípcio: porque alguém pintou um monte de rabiscos falsos, assinou como se fosse Pollock ou Rothko, vendeu por milhões e enganou gente demais que deveria saber mais. Continuar lendo “Como borrões falsos, chá e cara de pau enganaram a elite do mundo da arte”

Uma milenar tumba de surpresas

Essa é para você, sim, você mesmo que adora coisa antiga como seu tio Nicanor, sentado no canto da sala dormindo depois de ter tomado uns gorós. É exatamente isso que trata a Arqueologia: coisa velha (é praticamente a etimologia da palavra), e já que todo mundo aqui adora uma velharia,  vocês encontrarão uma história cativante na recente descoberta de uma tumba de 1.200 anos na China, que lança luz sobre a vida de pessoas comuns durante a Dinastia Tang (618 – 907 E.C.).

Desenterrada durante a construção de uma estrada perto de Taiyuan, esta tumba revela uma riqueza artística e cultural que desafia as nossas percepções sobre as práticas funerárias antigas. Continuar lendo “Uma milenar tumba de surpresas”

Um antigo mapa mundi para viajantes que não viajavam

Mapas sempre foram uma necessidade, desde que os primeiros humanos precisavam saber onde estavam e, mais importante, como compartilhar com os outros como chegar em determinados lugares. Em 2020, eu postei sobre o maior mapa mundi existente, falando inclusive do Imago Mundi, o mapa mais antigo que representa o mundo, tendo sido feito pelos babilônios no século 6 AEC. Entretanto, apesar de não ser o mais antigo, nem o maior mapa mundi existente, há um mapa fascinante, datando do século XIII: Mappa Mundi de Hereford. Continuar lendo “Um antigo mapa mundi para viajantes que não viajavam”

Afinal, o vidro é líquido ou sólido?

Você deve ter ouvido esta história: a prova que vidros são líquidos altamente viscosos é que os vitrais das catedrais são mais grossos embaixo do que em cima; e a única explicação para isso é que o vidro vai escorrendo muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito lentamente ao longo dos anos, décadas e séculos.

É uma explicação simplista para mentes simplistas.

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Artistas, censuras, pênises cortados e puritanismo. Escondendo o que todo mundo já viu

Dizem que quem não estuda história corre o risco de repeti-la. O mundo segue eventos cíclicos em termos de comportamento geral. Um exemplo é a onda que intercala períodos de liberou geral com o que eu chamo de “recatismo”. Alguns chamariam de “conservadorismo”, mas eu leio isso e penso “o que estão conservando?”. É uma questão de semântica, prefira o termo que quiser, não é este o assunto.

De tempos em tempos, atitudes (principalmente as idiotas) acabam sempre se repetindo, e agora temos um vislumbre disso quando a UNESCO achou que nudez, apesar de bonita (às vezes) ofende a moral e os bons costumes e acabou por cobrir estátuas peladas.

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Molde, forja e instalação da Estátua Equestre de Luis XV

A magnífica estátua equestre de Luis XV, esculpida por Edme Bouchardon, demorou muito tempo para ser feita. Ela foi esculpida ao longo de vinte anos, numa técnica fantástica, tendo sido instalada na Praça da Concórdia, em frente ao Champs-Élysées, em 1763. Foi destruída em 11 de agosto de 1792, em plena Revolução Francesa.

Aqui descrevemos como foi o processo de modelagem, fundição do bronze, feitura da estátua e transporte até seu lugar de descanso.

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Hamas está vendendo estátua de Apolo. No mon deles ser mais barato

O filho de Leto estava adormecido, na escuridão. Uma vergonha para quem simboliza o Sol e a luz da Verdade. O irmão de Ártemis estava lá, esquecido, até que o poderoso rei dos Deus ergue-se em toda a sua estatura e ordena. Que o filho de Zeus venha das profundezas e que o Sol brilhe em sua fronte.

E como os deuses são caprichosos, Zeus fez de seu instrumento um simples pescador, que ergueu um dos deuses primordiais do reino de Posseidon e levou-o para casa, sem saber que ali havia 500kg  de cultura e 2000 anos de História.

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Quando a ciência ajuda a preservar a arte

Restauradores de arte, curadores de museus e cientistas de todo o mundo se reuniram no início de fevereiro em Caracas, Venezuela, para discutir algumas preocupações crescentes com a recuperação de obras de arte e peças de acervos em todo o mundo – especialmente em climas tropicais, onde são mais atingidas por mofo, fungos e insetos. No fórum sobre a Conservação do Patrimônio Cultural pesquisadores destacaram diversas aplicações de , que pode ser prejudicial para objetos delicados, até limpar uma peça com bactérias adequadamente selecionadas. Continuar lendo “Quando a ciência ajuda a preservar a arte”