A vitamina do Sol que veio turbinar a quimioterapia

Há algo quase filosoficamente perturbador na ideia de que um dos aliados mais promissores no combate ao câncer de mama seja algo que o ser humano sintetiza simplesmente tomando sol. Não um anticorpo monoclonal de última geração que custa o preço de um apartamento na Barra da Tijuca. Não um inibidor molecular produzido em laboratório com nome impronunciável. Vitamina D. Aquela mesma que os médicos pedem para checar no exame de sangue anual e que metade da população apresenta deficiência sem saber, possivelmente porque trabalha em escritório das nove às seis com a persiana fechada.

Pois, bem, uma pesquisa brasileira acaba de mostrar que esse nutriente barato e amplamente disponível pode fazer a quimioterapia funcionar significativamente melhor, e o resultado é suficientemente expressivo para dar o que pensar. Continuar lendo “A vitamina do Sol que veio turbinar a quimioterapia”

Comida saudável faz um mal desgraçado, diz ciência (ou quase)

A humanidade passou décadas escrevendo, revisando e praticamente plastificando o manual da vida saudável. Era bonito, coerente e vinha com aquele bônus psicológico irresistível: além de viver mais, você ainda podia julgar discretamente quem pedia fritura. Frutas, verduras, grãos integrais, água e uma certa antipatia pelo cheeseburger. Pronto. A fórmula da virtude alimentar. Aí chega um estudo e faz o que a realidade adora fazer com certezas humanas: dá uma risadinha e vira a mesa.

No encontro anual da Associação Americana para Pesquisa do Câncer, pesquisadores apresentaram um resultado que não quebra exatamente a Ciência, mas dá uma entortada elegante nela: Jovens com menos de 50 anos, não fumantes, diagnosticados com câncer de pulmão tinham, em média, dietas melhores do que a população geral dos Estados Unidos. Não é um “melhor” simbólico, do tipo “troquei o refrigerante por suco de caixinha”. É melhor com método, disciplina e provavelmente uma air fryer que nunca viu óleo. Enquanto o americano médio marca 57 pontos no Healthy Eating Index, esse grupo chega a 65. A Realidade tem esses probleminhas de não dar a menor bola pro que esperamos dela. Continuar lendo “Comida saudável faz um mal desgraçado, diz ciência (ou quase)”

O câncer que sempre demoraram pra identificar não tem mais onde se esconder

Existe uma categoria especial de vilão na medicina: aquele que não dá pistas, não manda aviso, não aparece no exame de rotina e só resolve se revelar quando já está com a faca no pescoço do paciente. O câncer de pâncreas é o campeão olímpico dessa modalidade. Enquanto o câncer de mama aceita mamografia, o de próstata se deixa rastrear pelo PSA e o de colo de útero condescende com o Papanicolau, o adenocarcinoma ductal pancreático fica ali, quieto, crescendo no meio do abdômen como um inquilino que nunca faz barulho mas está destruindo o encanamento. Quando ele finalmente aparece no scanner, geralmente já virou problema do vizinho também, isto é, já metastatizou.

Um novo estudo apresentou um exame de sangue capaz de detectar o sem-vergonha do câncer de pancreas com uma precisão que, no contexto desta doença, beira o milagroso: 91,9% de acerto geral e 87,5% de acerto nas fases iniciais da doença, exatamente quando o tratamento ainda tem alguma chance real de funcionar. Continuar lendo “O câncer que sempre demoraram pra identificar não tem mais onde se esconder”

A mutação que nos deu cérebros maiores e também um câncer mais esperto

Você já deve ter ouvido aquela história de que, na Evolução, sempre há um preço a pagar. Tipo: ganhamos polegares opositores, mas perdemos a habilidade de viver pelados em temperaturas abaixo de 10 °C. Agora, um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia, em Davis, descobriu um novo “custo evolutivo” pra nossa conta: uma mutação genética que pode ter ajudado nosso cérebro a crescer, mas que, de brinde, deixou o câncer mais esperto que nosso sistema imune.

A vilã da vez? Uma proteína com nome de chef medieval: Fas Ligand, ou simplesmente FasL. Continuar lendo “A mutação que nos deu cérebros maiores e também um câncer mais esperto”

Gloria Ramirez: a história da mulher que derrubou um derrubou geral

A mulher desfalecida é levada rapidamente na sala de emergência. O tempo é curto. A equipe de atendimento não sabe o que tem ali, mas logo saberão, e da pior forma. Assim que a figura sombria adentrou o local, a equipe fez o que foi treinada para fazer, mas não tinham sido treinados para o que aconteceu. Várias pessoas caíram imediatamente, desmaiadas, e tiveram que ser atendidas também. A equipe médica assombrada pelo ocorrido. O que aconteceu?

Essa é a história da Mulher Tóxica, e como ela quase leva muitas pessoas consigo. Continuar lendo “Gloria Ramirez: a história da mulher que derrubou um derrubou geral”

O mundo invisível do interior de sapatos observado pelo poder da Era Atômica

A família risonha entra saltitante na loja. O pai, a mãe e o filhinho. Eles entram de mãos dadas e o vendedor, com terno bem alinhado, o espera com um sorriso maior ainda. O filho iria provar novos sapatos, era um evento! Papai pede pelo melhor par, mamãe, com cabelos bem arrumados, fica extasiada na seção de feminina. O filho olha pro sapato e escolhe, papai orgulhoso prepara a carteira, mas a mãe, preocupada como só as mães podem ser, indaga se aquele sapato seria o ideal, ao que o vendedor estufa o peito e diz com orgulho que a modernidade da ciência iria auxiliá-los. Ele apresenta o aparelho e com ele conseguirão ver através dos sapatos, das meias e até da pele como estará o pé do pequeno petiz. A mãe leva a mão à boca, seria seguro. O pai ri, pois é óbvio que seria seguro, completamente seguro, disse o pracista. E assim, ele mostra de forma indolor como o sapato se adequava ao párvulo que lá estava. Sem dor, sem perigo. Todos estavam completamente seguros ao ver as imagens.

Mas eles estavam enganados. Terrivelmente enganados. Continuar lendo “O mundo invisível do interior de sapatos observado pelo poder da Era Atômica”

Boas intenções, palavras e as pretensas ofensas

Há muito tempo, meus pais me ensinaram que de boas intenções, o Inferno está abarrotado. Não apenas isso, tem a parte que a emenda sai pior que o soneto. No mundo em que várias pessoas se esforçam para não ofender com algo que não sabem se vão ofender, algumas atitudes acabam gerando peças que vão do humor involuntário até um “Maquidiabeisso?”. Um exemplo disso foi a organização que rebatizou a vagina para “buraco bônus”. Continuar lendo “Boas intenções, palavras e as pretensas ofensas”

Pesquisa demonstra ligação do uso de maconha com casos de câncer. Thank you, Darwin!

A todo momento, imprensa corre para noticiar novas maravilhas dos “medicamentos à base de maconha”, que não necessariamente é da Canabis sativa, e sim outras espécies, daquelas sem altas concentrações de tetrahidrocanabinol, também conhecido como THC (a molécula que deixa doidão), de preferência focando em substâncias específicas, como as do grupo canabdiol. Não, fumar o jererê não lhe fará mais saudável, e agora vem aquela pesquisa que vão esbravejar dizendo que é financiada pela Big Pharma (a Big Pharma que pesquisa os canabdióis, tão amados pelo pessoal que odeia a Big Pharma).

Uma recente pesquisa identificou o mecanismo molecular ativado pela presença de THC na corrente sanguínea que acelera o crescimento do câncer e HPV.

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Pesquisa estuda novas formas de detecção de câncer nos olhos

Em 2014, eu noticiei o caso do pai que, ao fotografar o filho, percebera que tinha algo de errado em seus olhos. Era a leucocoria. Ela não é uma doença, apenas um reflexo branco que aparece na pupila, mas não é na pupila, propriamente dita. Pode ser indicativo de várias doenças, inclusive do retinoblastoma, uma espécie de câncer que se forma nas células detectoras de luz na parte de trás do olho. Ele geralmente aparece em crianças menores de dois anos e pode levar à cegueira ou à remoção dos olhos. O problema do retinoblastoma é que você não pode fazer biópsia direta. A biópsia direta pode causar recaída ou disseminação da doença fora do olho, o que ninguém vai querer que isso aconteça.

Pode a Ciência… tá, vamos parar de fazer uma pergunta imbecil que será respondida em “sim, pode, conta aí”.

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Pesquisadores de Câncer pesquisam método para identificar, localizar e destruir tumores

Câncer é uma droga. Não só porque ferra com a pessoas, como joga sujo e faz de tudo para se esconder das formas de detecção. Às vezes, se detecta logo, e isso garante 80% de chances de se ver livre do Caranguejão do Mal. Em outras palavras: quanto melhor identificar quem é o bandido no corpo, fica fácil mandar o BOPE biológico sentar o dedo na eliminação do lazarento. A saída é qual? Tentar outros métodos de identificação, que é o que pesquisadores da Universidade Yale estão desenvolvendo.

Não, nada de se esconder, Mr. Crab!

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