Por David Biello – Scientific American
Um pequeno lagarto que vive em ilhotas caribenhas poderia demonstrar a evolução em ação, se os furacões parassem de varrer esses locais. Jonathan Losos, da Universidade de Harvard, e seus colegas já tentaram observar três vezes a seleção natural em ação, até que surgem os furacões, inundam as ilhotas e acabam com a população estudada. Da última vez, foi o furacão Frances, em 2004. Entretanto, mesmo resultados preliminares da última rodada (de apenas um ano) já revelaram algumas provas surpreendentes de que a seleção natural age de forma rápida e pode até mesmo provocar reviravoltas.
Losos e sua equipe estudaram o Anolis sagrei – um lagarto pequeno e comum que tem uma dilatação característica na garganta, reproduz-se rapidamente e tende a viver no chão na ausência de predadores. Os cientistas descobriram 12 ilhas com populações naturais desses répteis, que ocorrem em versões com pernas curtas e compridas. Eles deixaram seis ilhas intocadas, apenas marcando os lagartos para a experiência. Nas outras seis ilhas, eles introduziram um predador comum — Leiocephalus carinatus, lagarto de cauda enrolada – para testar a hipótese de que no curto prazo essa mudança favoreceria o A. sagrei de membros longos (o que foge correndo melhor), mas no longo prazo favoreceria os A. sagrei de membros curtos (o que escala melhor) à medida que saem do solo e sobem nos arbustos para se proteger.
Esse experimento no mundo real tem valor científico enorme. “A maior parte desse tipo de trabalho ocorre sob condições artificiais”, diz o biólogo Butch Brodie, da Universidade da Virgínia. “Eles estão fazendo isso na natureza e de modo duplicado – isso permite que observem a evolução com todas as dificuldades e demônios, como furacões e variações climáticas.”
Mas, “para medir a seleção, é preciso comparar sobreviventes com não-sobreviventes”, ressalta Losos. Em maio de 2004, as 12 ilhas originais foram reduzidas a apenas cinco – três de controle e duas experimentais; nas outras, ou todos os lagartos sobreviveram ou todos morreram. No entanto, as medições dos membros dos machos nas duas ilhas experimentais remanescentes (as fêmeas não puderam ser incluídas em razão da propensão de pôr um ovo por semana, inchando o abdômen e atrapalhando as medições das patas) mostraram que durante os seis primeiros meses do ano o A. sagrei de patas mais longas sobreviveu à introdução do predador L. carinatus.
O segundo período de seis meses, porém, revelou que seus pares com membros menores se tornaram predominantes. “Em um prazo muito mais longo, esperamos que, com a presença contínua do L. carinatus, o A. sagrei permaneça em locais mais altos e finos, desenvolvendo por fim patas substancialmente mais curtas”, escreveu a equipe em um artigo apresentando o achado na edição de 17 de novembro da Science. Infelizmente, o grupo não conseguiu verificar se a redução da perna continuaria: o furacão Frances varreu essa possibilidade.
Mas o A. sagrei é resistente. “A população não se extingue”, afirma Losos. “Os ovos no solo vingaram pouco depois. Os Anoli estão repovoando agora.” E os cientistas perseveram: Losos planeja relançar o experimento uma vez mais e espera que haja um intervalo de cinco a 10 anos antes que o próximo furacão destrua os A. sagrei adultos. Além disso, a ciência, como a maré, não pára, revelando novas possibilidades para o futuro. “O genoma de um lagarto Anolis está sendo seqüenciado agora”, acrescenta Losos. “Talvez possamos ir lá e descobrir os genes que na verdade estão sendo selecionados.” Isso apenas se o clima – e os lagartos – cooperaram durante um longo prazo.
