Da numerologia ao algoritmo: mesmos videntes, roupagem nova

Há um pânico circulando pelo mercado de trabalho brasileiro, e ele tem nome técnico, PowerPoint corporativo (ok, atualmente é feito naquela merda do Canva) e até fala em inglês: dizem que a Inteligência Artificial vai decidir quem é contratado, promovido ou despedido, e que ninguém mais entenderá os critérios por trás disso.

Executivos de inovação concedem entrevistas graves alertando que a “revisão humana” nesses processos costuma se resumir a um recrutador carimbando a lista que o algoritmo já organizou, e que empresas raramente sabem explicar como o sistema chegou a determinada classificação. Tudo isso é verdade, é seríssimo, e merece ser dito. Só tem um pequeno detalhe incômodo: nada disso é novidade. O RH brasileiro só trocou de vidente.

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Um novo projeto!

O mundo anda chato do lado de cá. Eu sento, escrevo um artigo ou outro, alguns de vocês leem, pouquíssimos compartilham. No dia seguinte, eu vejo algo que possa ser interessante, escrevo artigo, posto, alguns de vocês leem, pouquíssimos compartilham. Depois eu fico escrevendo um imenso texto, posto, alguns de vocês leem, pouquíssimos compartilham. Tá tudo muito chato.

Então, pensei cá comigo: e que tal fazer algo diferente? Então lancei um novo projeto: textos voltados para gringos.

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Artigos da Semana 315

Hoje é a finalzaça da Copa do Mundo, e estou escrevendo com antecedência. Não sei quem ganhou e, sinceramente, não dou a mínima. Gosto do espetáculos, admirar as boas jogadas, xingar as jogadas merdas e, principalmente, xingar o jogador filho da puta que faz escanteio curto. Seja você ávido torcedor ou não, aproveite o que foi postado durante a semana.

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O amor proibido nos tempos do algoritmo

O ser humano passou milênios escrevendo poemas para explicar por que o amor é irracional, um fogo que arde sem se ver, uma ferida que dói e não se sente. Então, inventou computadores capazes de conversar, decidiu transformá-los em namorados e, agora, chegou ao ponto em que um governo precisou publicar uma regulamentação para lembrar que, em princípio, pessoas deveriam se apaixonar por outras pessoas. Se algum arqueólogo do futuro encontrar apenas essa manchete, provavelmente concluirá que nossa civilização morreu de vergonha logo depois.

Foi exatamente isso que aconteceu na China. Entraram em vigor regras que proíbem sistemas de inteligência artificial de estimular dependência emocional ou funcionar como companheiros românticos da maneira como vinham fazendo.

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A IA que vai ensinar seus filhos… e apagar o que eles realmente precisam aprender

Uma criança de onze anos senta-se à mesa depois da escola. Abre o notebook, digita o enunciado da redação ou do problema de matemática no ChatGPT, no Gemini, no Claude ou, na falta de coisa melhor, no tosco do Copilot. O robozinho cospe o resultado e o estudante feliz copia a resposta, troca duas ou três palavras para “parecer dela” (ou nem isso) e chuta pra frente. O professor, quando muito, passa o texto por um detector de IA, e o ciclo se fecha. A nota sai, todo mundo está satisfeito e ninguém pergunta se a criança aprendeu alguma coisa além de formular um prompt decente. Questionar é algo visto como perigoso, danoso e odioso em várias fases da História da Humanidade.

É exatamente nesse momento, quieto e doméstico, que o Apocalipse Tecnológico Moderno deixa de ser abstração e se instala dentro da própria formação cognitiva da próxima geração. Não com explosões nem com robôs assassinos. Com algo muito mais eficiente: a substituição sistemática do esforço intelectual por respostas prontas, personalizadas e sem atrito. Continuar lendo “A IA que vai ensinar seus filhos… e apagar o que eles realmente precisam aprender”

Enshitification: a palavra de ordem justificando o que nossos avós diziam

Sabe quando os mais velhos dizem que antigamente tudo era melhor? Eles não estavam errados. Olhe ao redor e preste atenção. Da geladeira ao Sistema Operacional, dos carros até um forno, em que é preciso logins, e senhas, e IA, muita IA, cheio de IA e para que? Para você sentar na frente da TV e colocar um programa preferido, driblando comerciais. Uma pesquisa te dá tudo, menos o que você está pesquisando. Isso tem um nome: Enshitification, o, como eu prefiro traduzir livremente: esmerdalhamento das coisas. Continuar lendo “Enshitification: a palavra de ordem justificando o que nossos avós diziam”

Artigos da Semana 314

Esta semana acaba  Copa do Mundo e eu estou desesperançado. Não terei mais 3 jogos por dia com seleções buscando a glória máxima. Ah, sim, ainda teve a o Brasil, também. Enfim. Pelo menos, a certeza é que continuamos colocando aqui os melhores artigos de vários assuntos, e eu continuo com a série O Apocalipse Tecnológico Moderno, algo que você não lerá em blogs de tecnologia, já que eles apenas viraram vitrine de empresinha ou press release ou coisas sem sentido.

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Data centers, manipulações e um monte de idiotas repetindo bobagens sem entender o que está acontecendo

Existe uma maneira extremamente cara de vencer uma corrida tecnológica. Você investe centenas de bilhões de dólares em pesquisa, forma engenheiros durante décadas, constrói fábricas, ergue data centers do tamanho de bairros inteiros e torce para chegar primeiro. E existe outra muito mais barata: convencer quem está na frente a pisar no freio.

A história da tecnologia está repleta desse tipo de disputa, e ela nunca fica restrita a laboratórios e patentes. Sempre que uma inovação ameaça reorganizar mercados inteiros, a batalha se muda para a política, os tribunais, a imprensa, as audiências públicas e, cada vez mais, as redes sociais. Continuar lendo “Data centers, manipulações e um monte de idiotas repetindo bobagens sem entender o que está acontecendo”

Batman Mexicano mete moral e prende bandidagem

Havia uma cidade na qual a noite chegava mais cedo do que o de costume, não por causa do inverno nem da latitude, mas porque a luz dos postes parecia ter desistido de brigar contra a escuridão que se instalara nas ruas. O crime crescera devagar, mas sombriamente, como quem se muda de mansinho para não incomodar os vizinhos, até que os moradores aprenderam a andar olhando por cima do ombro e a polícia aprendeu a preencher boletim de ocorrência com a mesma resignação de cobrador de ônibus recebendo a passagem. As autoridades prometiam providências, os jornais prometiam apuração, e o cidadão comum prometia, silenciosamente, parar de acreditar em qualquer uma das duas promessas.

Este lugar era o tipo de lugar onde criminosos acham que podem fazer seus ganhos e nada irá lhes acontecer. Este lugar não é uma Nova Jersey disfarçada de metrópole gótica, e o super-herói que ela produziu não tem mordomo, não tem helicóptero e definitivamente não tem verba de marketing: essa cidade é Lagos de Moreno, no estado mexicano de Jalisco, e o herói que decidiu aparecer, sem convite e sem antecedentes claros, atende, nas redes sociais, pelo nome de… O Batman Mexicano!

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A anunciaram a próxima desculpa para o preço das memórias. Dica na imagem de abertura

O Meio Bit publicou esta semana uma reportagem que merece ser emoldurada como obra-prima do eufemismo corporativo. Martin Hiegl, diretor executivo de Soluções Avançadas da Lenovo, durante a ISC High Performance 2026, avisou a plateia que os preços de memória RAM e NAND “talvez nunca mais” voltem ao patamar de antes da explosão da Inteligência Artificial, e ainda fez questão de soltar essa bomba em tom jocoso, como se estivesse contando uma piada e não anunciando que o consumidor vai pagar a conta por pelo menos cinco anos, “e um pouco além disso”

A Microsoft, generosa, já adiantou que os preços devem dobrar até 2027, depois de reajustes superiores a 2,5 vezes só neste ano. Tudo isso porque Samsung, SK Hynix e Micron, que juntas controlam de 90% a 95% do mercado mundial de DRAM, decidiram que é mais lucrativo fabricar memória HBM para data centers de IA do que abastecer o resto da humanidade com DDR4 e DDR5 comuns. Continuar lendo “A anunciaram a próxima desculpa para o preço das memórias. Dica na imagem de abertura”