Biosfera 2: quando ignorar a Química quase leva a uma extinção em massa

Em 26 de setembro de 1991, oito pessoas se trancaram voluntariamente dentro de uma redoma de vidro e aço no meio do deserto do Arizona e, de quebra, quase morreram sufocadas pelo próprio otimismo. Não havia vírus, não havia sabotagem, não havia nenhum vilão de filme B espreitando pelos corredores. Havia, isso sim, um adversário muito mais chato e muito mais eficiente: o concreto. Bem-vindos à Biosfera 2, o experimento de US$ 150 a 200 milhões que prometia ensaiar a colonização de Marte e acabou dando uma aula magistral sobre como a Terra, com todos os seus bilhões de anos de rodagem, ainda sabe humilhar qualquer tentativa humana de replicá-la em escala reduzida. Continuar lendo “Biosfera 2: quando ignorar a Química quase leva a uma extinção em massa”

Artigos da Semana 313

Hoje é dia do jogo do Brasil. Escrevi isso aqui sem saber o resultado, e isso nem tem algo a ver com os textos, que vão desde um imbecil que trabalha como guia e não sabe o caminho até o câncer que se recusa a morrer passando pelo México tendo o seu próprio Batman.

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O câncer que se recusa a morrer

A Humanidade vem gastando bilhões de dólares procurando a fonte da juventude eterna enquanto um punhado de células malignas na sua pele já descobriu a fórmula há muito tempo, de graça, sem pedir licença e sem nenhuma intenção de compartilhar a receita. O melanoma, aquele tipo de câncer de pele que adora se esconder atrás de uma pinta desconfiada, é uma das formas mais eficientes que a natureza já produziu de driblar a morte celular. E por décadas os cientistas sabiam que ele fazia isso, só não sabiam exatamente como.

Agora, um grupo de pesquisadores da Universidade de Pittsburgh encontrou a peça que faltava nesse quebra-cabeça bioquímico. A descoberta não é apenas mais um tijolo na parede do conhecimento sobre câncer: é o tipo de achado que explica por que essas células insistem em não respeitar o prazo de validade biológico que todas as outras respeitam. Continuar lendo “O câncer que se recusa a morrer”

O câncer fatal que virou um problema de encanamento biológico

Você chega ao hospital com uma dor de cabeça chata, dessas que não passam nem com paracetamol nem com promessas de que amanhã será melhor. Os médicos batem uma tomografia, encontram várias manchas espalhadas pelo seu cérebro e, num tom que tenta ser gentil mas nunca consegue, informam que aquilo tem toda a cara de câncer metastático. O tipo de notícia que reorganiza uma vida inteira em quinze minutos.

Você é medicado com corticoide, melhora rápido, e a equipe médica sai correndo atrás da origem do tumor primário: emarái, colonoscopia, PET scan, a bagaça completa. Daí, descobrem que não existe tumor nenhum. O que parecia o pior cenário possível simplesmente não bate com a realidade, e a equipe se vê obrigada a repensar tudo, porque uma ressonância mais detalhada revela cistos, não tumores, e dentro de alguns desses cistos havia algo com cabeça própria. Literalmente. A notícia boa é que não é câncer. A notícia ruim é que o motivo é ainda mais perturbador, e o paciente carregava vermes alojados no cérebro sabe-se lá quantos anos. Continuar lendo “O câncer fatal que virou um problema de encanamento biológico”

Artigos da Semana 310

Bola tá rolando na Copa do Mundo. Depois do vexame do Brasil frente ao Marrocos e a Alemanha meter 7 a 1 em Curaçao (com brasileiro tendo que ir pro hospital por causa de traumas passados), o que nos resta? Nos resta vermos o que foi postado durante a semana.

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O crocodilão maligno que sonhava com hominídeos

Quando pensamos na evolução humana, costumamos imaginar nossos ancestrais enfrentando desafios grandiosos: aprender a caminhar sobre duas pernas, fabricar ferramentas, dominar o fogo e, eventualmente, dar origem a uma espécie capaz de construir arranha-céus, sondas espaciais e aplicativos para entregar hambúrgueres em quinze minutos. O que raramente aparece nessas narrativas é que, durante boa parte dessa jornada, nossos antepassados também precisavam lidar com um problema bastante básico: evitar ser devorados.

A pré-história costuma ser romantizada como uma aventura heroica rumo ao progresso. Mas a realidade provavelmente parecia menos um documentário inspirador e mais um episódio permanente de sobrevivência extrema. Há cerca de três milhões de anos, na região da atual Etiópia, os ancestrais humanos viviam em um ambiente onde beber água exigia a mesma cautela que hoje alguém teria ao abrir um e-mail com o assunto “urgente” enviado pelo chefe às seis da tarde de uma sexta-feira. Continuar lendo “O crocodilão maligno que sonhava com hominídeos”

O Vale das Baleias Mortas

A humanidade tem um talento quase artístico para acreditar que já conhece o próprio planeta. Afinal, já fotografamos buracos negros, enviamos sondas para além dos limites do Sistema Solar e colocamos satélites suficientes em órbita para que uma geladeira consiga reclamar da velocidade da internet. É fácil imaginar que os grandes mistérios geográficos ficaram para trás, enterrados em alguma época em que exploradores navegavam usando mapas desenhados por pessoas que claramente estavam improvisando.

Mas a Terra adora destruir nossa confiança. Continuar lendo “O Vale das Baleias Mortas”

Sistema sabe aonde você vai e onde está. Esta fofoca pode salvar muitas vidas

Você não tem privacidade. Não existe mais esse conceito, a não ser como lembrança nostálgica, do tipo que os mais velhos evocam com um suspiro e um olhar distante, como quando falam em Fusca ou em disquete. Seu celular sabe onde você está, com quem você conversa, o que você consome, o que você deseja consumir e, se você usa qualquer aplicativo minimamente invasivo, provavelmente sabe quantas horas você dormiu e se estava nervoso quando acordou, desenhando um mapa fiel das suas andanças com uma precisão que qualquer detetive de noir dos anos 1940 encararia com admiração e ciúme.

É com essa constatação um tanto assustadora que chegamos a uma das aplicações mais elegantes e, convenhamos, levemente irônicas da vigilância de massas: usar esses dados de mobilidade para prever onde uma epidemia vai explodir antes que ela exploda. A ideia soa como aquela virada de enredo em que o vilão descobre que pode usar seus poderes para o bem, exceto que, neste caso, o vilão são as telecomunicações e o bem são as crianças que não vão morrer de sarampo. Continuar lendo “Sistema sabe aonde você vai e onde está. Esta fofoca pode salvar muitas vidas”

A Guerra das Invenções Idiotas

A Segunda Guerra Mundial foi, entre outras atrocidades, o maior laboratório de gambiarra da História Humana. Sim, ela nos deu o radar, o motor a jato, o míssil balístico e a bomba atômica; mas também nos deu um urso sargento, um submarino afundado por descarga sanitária e uma proposta de incendiar Tóquio com morcegos colados. A humanidade, quando colocada sob pressão extrema, não apenas sobrevive: ela delira com produtividade assustadora. O que se segue é um catálogo honesto desse delírio. Continuar lendo “A Guerra das Invenções Idiotas”

Artigos da Semana 309

Teve feriadão nesta semana e eu, aqui, tive divertimento de adultos (dormi até tarde, levantei, almocei, volte pra cama, levantei, jantei, voltei pra cama. Recomendo!). Espero que vocês tenham sido muito produtivos (em nenhum momento eu serei louco em achar que produziram algo útil). Claro, nunca abandono meus 3 leitores e deixei artigos entrando (ops) automaticamente.

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