A bactéria que curte um calorzinho

Você sabe que esquentando muito a água (ok, fervendo), vai passar o cerol em tudo que estiver vivo ali. Só que muitas vezes a preguiça não deixa você esperar até a fervura, e você sabe que existe uma temperatura a partir da qual a vida complexa deveria começar a reconsiderar seriamente suas escolhas. Proteínas perdem a forma, membranas ficam instáveis, processos celulares começam a falhar e aquilo que até então era um organismo passa a caminhar perigosamente na direção de sopa orgânica. Para os eucariotos, seres cujas células possuem núcleo e outras estruturas internas, acreditava-se durante décadas que a fronteira estava por volta dos 60 °C. Era uma espécie de placa biológica de “não ultrapasse”.

Então apareceu uma ameba na Califórnia que aparentemente não sabe ler placas. Continuar lendo “A bactéria que curte um calorzinho” →

O problema nº 1 de fazer o nº 2 no Espaço

A corrida espacial nos deixou imagens gloriosas: marcas de botas no solo lunar, bandeiras fincadas e frases para a posteridade. O que não entrou nos cartazes foi a logística do outro extremo do corpo humano. Nos tempos do programa Apollo, o banheiro era um saquinho preso com adesivo, e a tripulação da Apollo 10 teve a companhia inesperada de um visitante flutuante que ninguém quis assumir. Meio século depois, a engenharia evoluiu: existe vaso sanitário em órbita, e o problema de fundo segue ali, teimoso como boleto de condomínio: a prisão de ventre no Espaço.

Sabia-se que o intestino de quem deixa o planeta fica preguiçoso, mas faltava uma explicação sólida. Pesquisadores da Universidade de Copenhague, em colaboração com a NASA, foram buscá-la onde ela estava escrita em letras químicas miúdas: no sangue de 52 astronautas: 488 amostras, em missões de dois a nove meses a bordo da Estação Espacial Internacional. O achado sugere que, poucas semanas depois de sair da Terra, as bactérias intestinais mudam de cardápio, e não para melhor. Continuar lendo “O problema nº 1 de fazer o nº 2 no Espaço” →

O seu cérebro tem duas certidões de nascimento

Você aprendeu na escola que a célula é a menor unidade estrutural e funcional dos seres vivos. Aprendeu também que células especializadas se reúnem em tecidos e que tecidos diferentes se combinam para formar órgãos. Coração, fígado, pâncreas, cérebro: cada um sendo uma peça só, singular, simples, sem complicação (salvo quando bate um câncer ou alguma outra doença que estraga tudo). Com o avanço dos estudos, você descobriu que o cérebro tem dois hemisférios que trabalham em parceria, conectados pelo corpo caloso, e que, em boa parte, o direito comanda o lado esquerdo do corpo e o esquerdo comanda o direito. Simples, não? Só que a Ciência avança e adora complicar as coisas!

Um grupo de especialistas em desenvolvimento embrionário resolveu mexer na certidão de nascimento do órgão mais badalado do corpo, aquele que escreve poemas, resolve equações e ainda esquece onde deixou a chave do carro. E a divisão que eles encontraram não tem nada a ver com direita ou esquerda (não estou falando de política, seus retardados que chegaram aqui pelo Google). Continuar lendo “O seu cérebro tem duas certidões de nascimento” →

Artigos da Semana 324

Depois de um longo e tenebroso inverno, hoje abriu o Sol, o nosso amigo Sol, que brilha lá, bem longe daqui. Já dá pra ir pra praia, vemos vizinhos animados na rua, o vozerio das crianças. Voltem logo, frio e chuva! Sinto saudades.

Bóra pro que foi publicado esta semana enquanto me tranco em casa.

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Cientistas invocam o MAL para salvar paciente

A maioria das pessoas sabe o próprio tipo sanguíneo de cor, como o número do calçado, e dá o assunto por encerrado. Só que a superfície de um glóbulo vermelho lembra mais um condomínio lotado do que uma ficha de cadastro, e é nesse território, cheio de marcadores moleculares que quase ninguém conhece, que a história de hoje se passa.

Pois um grupo de cientistas britânicos resolveu um enigma que durava meio século. O antígeno AnWj foi identificado em 1972, ano de O Poderoso Chefão e da última missão Apollo à Lua, e desde então ninguém sabia qual gene o fabricava nem qual proteína o carregava. A resposta veio com brinde: um sistema sanguíneo inédito, batizado de MAL. Continuar lendo “Cientistas invocam o MAL para salvar paciente” →

A mulher atrevida que driblou a Marinha do Rei e circunavegou o planeta

A audácia, em sua mais pura raiz etimológica, nasce do latim audere: o ato de atrever-se, de ousar cruzar a fronteira do que já está posto. Na prática da vida, essa herança linguística se manifesta naqueles raros indivíduos que conseguem despir o olhar dos grilhões invisíveis e dos impedimentos sociais que moldam a maioria de nós.

Enquanto o mundo caminha sob o peso de regras tácitas, expectativas alheias e o medo paralisante do julgamento, o audaz enxerga a realidade sem filtros ou amarras. Para ele (ou ela), as convenções não são muros intransponíveis, mas linhas imaginárias desenhadas pelo hábito; sua mente opera em uma frequência de liberdade que transforma o risco em espaço de criação e o “impossível” em mero ponto de partida. Olhar a existência através dessa lente de desapego social não é apenas uma demonstração de coragem, mas uma rebeldia silenciosa contra as prisões cotidianas que nós mesmos aceitamos construir. Continuar lendo “A mulher atrevida que driblou a Marinha do Rei e circunavegou o planeta” →

O submarino que vazou o TNT que virou comidinha de mexilhão

Você estudou na escola (espero) que os U-boats alemães foram os maiores responsáveis por dar uma imensa dor de cabeça à Inglaterra por causa do bloqueio que a Alemanha Nazista impôs para colocar os súditos do Leãozinho e do Unicórnio. Entretanto, o pessoal da época do Káiser já tinha o hábito de fazer uso de submarinos para furtivamente tocar o terror nas águas, quando ninguém esperava por eles, ainda mais quando as tecnologias de detecção eram simplificadas pelo nome “sorte”. Sim, pois é! Pouca gente sabe que durante a Primeira Guerra Mundial a Alemanha já fazia uso de submarinos para tocar o terror no Mar do Norte.

A história de hoje é sobre como algo deu muito, muito ruim naquela época, e ainda hoje ainda pode ser péssimo. Motivo? Um submarino vazando TNT (sim, o explosivo).

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Artigos da Semana 323

Esta semana foi um saco: gente choramingando com IA trazendo o Apocalipse, Médium que usa Google, rei achado no estacionamento que teve seus dentes verificados e até o pessoal “ain u qui vussê fazia no 11 di çetembru?” (eu estava trabalhando, não tinha tempo para ficar com o cu na frente da TV o dia todo).

Bem, vejamos o que foi postado durante a semana, inclusive com Brasil endo uma terra mística esquisita e fora dos mapas convencionais.

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A cabeça enorme que enganou muita gente e enriqueceu um esperto

Eu fui numa feira de antiguidades uma vez (obrigado, óbvio. Eu sou apenas o marido e sou que nem criança: vou para onde me levam). Eu não entendo como alguém pode gostar de coisa velha (exceto na hora de comprar celular, cortinas etc), daí fica-se um tempão olhando aquilo, principalmente sabendo que é ótimo na loja, mas ninguém vai comprar aquelas monstruosidades. É um imenso tempo perdido e, claro, você vai ler o primeiro parênteses e entender como fui parar lá.

Inexoravelmente (eu sempre busco alguma forma de colocar “inexoravelmente” num texto, e quase nunca consigo) você vai encontrar aquele item de péssimo gosto que ninguém quer: o bicho empalhado torto, de olho esbugalhado, que alguns compram por causa de altas concentrações de álcool no sangue e visando fazer rir o vizinho também altamente alcoolizado. Então, por mero e ridículo capricho do Destino (que eu acho que TAMBÉM estava alcoolizado), alguém tira a sorte grande. Continuar lendo “A cabeça enorme que enganou muita gente e enriqueceu um esperto” →

As inusitadas pesquisas vencedoras do Ig Nobel 2026

Todo mês de setembro, pouco antes de o comitê sueco anunciar quem vai salvar a humanidade com uma descoberta em Física Quântica ou com alguma bobagem da Economia, um bando de cientistas se veste de cogumelo, sobe a um palco em algum canto da Europa e aceita, com lágrimas genuínas nos olhos, um prêmio por ter enfiado o pé em cima de uma cobra, enterrado mil cuecas ou descoberto, com rigor de laboratório, o jeito certo de assoar o nariz.

Bem-vindos à trigésima sexta edição do Ig Nobel, a premiação que existe para provar, ano após ano, que a curiosidade científica não tem freio de mão e, às vezes, nem senso de autopreservação; e sim, esta é a sua cientificamente revisada SEXTA INSANA! Continuar lendo “As inusitadas pesquisas vencedoras do Ig Nobel 2026” →