
A humanidade finalmente alcançou um estágio de evolução moral tão extraordinário que agora está preocupada em obter autorização de cadáveres com três mil anos de idade. Depois de milênios de guerras, genocídios, saques, escravidão e outras demonstrações pouco edificantes da nossa capacidade de convivência, descobrimos que o verdadeiro problema civilizatório estava numa vitrine de museu em Glasgow. Uma múmia egípcia, aparentemente, vinha sendo exibida sem ter assinado um termo de consentimento
Isso é um escândalo! Uma afronta à dignidade de um cidadão que não apresenta reclamações formais desde aproximadamente 1000 A.E.C. Felizmente, a burocracia escocesa, sempre vigilante, resolveu intervir antes que o defunto sofresse novos constrangimentos. Mesmo porque, não basta morrer, ser embalsamado, atravessar trinta séculos, sobreviver ao colapso de impérios e acabar numa coleção europeia. Agora é preciso também estar em dia com a legislação de proteção à privacidade póstuma.









