Maria, A virgem que não era

Os cristãos têm vários dogmas. Alguns são mais fortes que outros. Alguns deles são tão fortes que as principais vertentes cristãs, apesar de divergirem em quase tudo, aceitam de comum acordo, como o nascimento milagroso de Jesus de uma mãe virgem. Isso vale para católicos romanos e ortodoxos, e protestantes (não todos). Maria é cognominada “A Virgem” (ou Virgem Maria, o Virgi, ou Vixi, ou só Ixi), pois Jesus foi gerado sem que sua mãe tivesse feito sexo com alguém, muito menos José. Assim, o nascimento milagroso de Jesus o livra do Pecado Original, o que já o deixa mais santo que todos os mortais que nasceram e morreram. Claro, as coisas não são tão simples assim, e o problema é que, ao entendermos tudo o que estava por detrás disso, vemos que foi apenas fruto de uma briga política pelo poder, sustentada debilmente por uma confusão por parte dos redatores da Bíblia.

Primeiro, entretanto, é preciso saber quais são os dogmas impostos a respeito de Maria. A saber, são 4 dogmas tidos pela Igreja Católica. Os protestantes até adotaram alguns, mas não todos, já que se adotassem tudo da Igreja Católica, não teriam por que protestar, certo? Os quatro dogmas são: a Maternidade Divina, a Virgindade Perpétua de Maria, a Imaculada Concepção de Maria e a Assunção de Maria.

Esta última foi oficializada na década de 1950. Sim, isso mesmo! Só decidiriam que Maria não morreu, mas subiu aos Céus de forma mágica há menos de 80 anos. Parece que em 2000 anos de Cristianismo, ninguém tinha pensado a respeito; por isso, Protestantes descartam tal dogma enquanto outros sequer tocam no assunto. Já os três primeiros parecem ser a mesma coisa: Maria foi fecundada pelo Espírito Santo (concepção imaculada ou imaculada conceição, é a mesma coisa), o que gerou Jesus (sendo Deus, a maternidade dele é divina), mas o hímen dela não foi rompido (virgindade perpétua e para sempre). Ela não teve relações carnais antes e depois, o que já começa a ficar problemático e muitas vertentes cristãs não as adotam. No máximo, que o Espírito Santo fecundou Maria.

Vamos do início. Gabriel avisa a Maria que ela dará à Luz o Messias (cf. Mateus 1:18-21 e Lucas 1:26-38). Seu óvulo é fecundado pelo Espírito Santo, ou seja, Deus usou seu poder divino para fazer o Verbo se tornar carne (sim, estou juntando todos os evangelhos para compor a história). Daí, Deus gerou a si mesmo, e seu Filho (Jesus, para os íntimos) é Deus, mas é Homem –, sendo que o hímen de Maria se recompôs (haja complacência!). Então, temos que, para princípio de conversa, Jesus era tido como homem E Deus. Não um “deus”, mas o próprio. Sim, é confuso, já que ele é Deus, mas não é Deus, assim como o Espírito Santo é Deus, mas não é Jesus e nem Deus, embora isso seja tratado em outro lugar.

Jesus já era considerado deus (ou “o” Deus) antes, logo no Cristianismo Primitivo, antes dos Concílios. O problema teológico era: ok, Jesus é Deus. Beleza! Mas que tipo de Deus ele é? Foi para isso que foram criados os Concílios, em que ninguém chegava a um acordo; cada hora era algo a mais a ser adicionado ou retirado. Quem finalmente decidiu isso foi o Concílio da Calcedônia, no ano 451, que explicou em definitivo as duas naturezas de Jesus: a humana e a divina.

Fiéis aos santos padres, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado, gerado segundo a divindade antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem Maria, mãe de Deus;

Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis; a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos padres nos transmitiu.

Obviamente, passou-se um longo tempo até chegar nesta afirmação, mas eu sei que você é sagaz e não perdeu o termo “Virgem Maria, mãe de Deus”. Nem é para menos, já que ela tinha sido alçada nesta posição logo início… ou quase. Mas antes de chegarmos no Concílio da Calcedônia, temos uns fatos históricos e teológicos a examinar.

Maria era chamada Theotókos (Θεοτόκος), ou “A que pariu Deus”, pela tradução literal, mas preferem a versão “Portadora de Deus”, o que não é a mesma coisa, mas soa melhor aos ouvidos; ninguém ia gostar da evocação “Maria que o pariu!”. Por outro lado, os ortodoxos acharam que “Mãe de Deus” estaria mais próxima à tradução literal, o que é verdade. O termo Theotókos foi empregado por Orígenes já no século III, sendo reafirmada por Atanásio (sim, aquele) e João Crisóstomo. Chegou o século V e não havia ainda uma decisão unânime sobre Maria. A bem da verdade, ninguém se importava muito. Estavam ocupados se acusando mutuamente de hereges e se perseguindo mutuamente; mesmo porque, o assunto em voga era Jesus.

Claro, assunto para perseguir os outros não faltava, e Maria virou alvo por parte de um camarada chamado Nestório. Antes, só pra lembrar, devemos dizer que tudo isso se baseava em interpretações particulares de acontecimentos que não foram registrados, não constam nos evangelhos, com detalhes que não foram passados por ninguém que foi testemunha ocular dos acontecimentos, o que nem significa muito, pois, os próprios evangelhos não foram escritos por quem estava presente.

Analisando bem, os próprios evangelhos discordam entre si em várias partes, então, algo que não está em nenhum deles e nem nas epístolas paulinas. São apenas relatos heroicos, tradições criadas por sabe-se lá quem, mas que no fundo não passam de uma opinião pessoal, um palpite que foi se espalhando como mensagem no whatsapp. Claro, vem aquela parte de “é questão de fé”, mas daí vamos para opiniões pessoais e interpretações particulares de novo. Irá ganhar quem defender melhor a ideia (nem que seja com unhas, dentes e espadas).

Logo no início, eu falei que todo mundo tinha uma ideia de como Jesus era Deus. Ser Deus ele já era (assim diziam), o “de que jeito” era o motivo das brigas. Um exemplo disso era então já referenciado patriarca de Constantinopla Nestório. Sabemos que Nestório nasceu no ano 381, na cidade de Kahramanmaras, no que hoje é a Turquia, que no período romano era chamada Germanícia Cesarea. Ele assumiu o bispado de Constantinopla em abril de 428, após a morte de Sisino, sendo que Constantinopla era a segunda maior sé da ekklesia nicena, perdendo apenas para Antióquia, a cidade que mais produziu pensadores, escritores e teólogos, lar da maior comunidade judaica daquela época. Obviamente, como não poderia deixar de ser, o primeiro ato de Nestório quando assumiu o bispado foi eliminar qualquer concorrente ou alguém que sequer tivesse ideias ligeiramente diferentes das dele, o que já era o bastante para que ele classificasse como “herético”, que em grego alternativo seria “alguém que não concorda comigo e merece ir pra vala”.

Nestório já chegou na voadora mandando uma capela ariana (no caso, a que seguia as ideias de Ariano, e não uma capela que seguia horóscopo ou que se julgava da Raça Superior) ir bater um papinho com Jesus em pessoa, aproveitando para convencer o imperador Teodósio II a perseguir os cismáticos, os novacianos e os pelagianos.

Ao final do ano 428, com menos de um ano de episcopado, Nestório pregou de forma virulenta o seu primeiro sermão contra a utilização do termo Theotókos, detalhando sua doutrina sobre a encarnação de Jesus. Se ele achou que isso ia ficar barato, sem encontrar resistência, enganou-se redondamente. Eusébio (não o de Cesareia, já que ele já tinha morrido, mas um leigo que no futuro seria nomeado bispo da cidade de Dorileia) foi primeiro a bater de frente com Nestório, e este não gostou nadinha, mas seus problemas estavam só começando.

Filipe de Side era historiador cristão originário da cidade de Side (óbvio), que ficava na região da Panfília, próximo à Anatólia, sendo autor de História dos Cristãos, uma obra que hoje só resta fragmentose os poucos que foram encontrados são o suficiente para saber que ele se baseou no que Eusébio de Cesaréia havia escrito muitos anos antes. Filipe detestava Nestório e por um motivo simples: inveja. Filipe foi sacerdote em Constantinopla no círculo próximo de João Crisóstomo e foi candidato ao patriarcado de Constantinopla contra Sisínio, em 425. Se você se lembra, Nestório concorreu ao patriarcado quando Sisínio morreu, e Filipe era adversário dele na disputa. Filipe perdeu, como você pode deduzir e concorreu mais uma vez em 431, contra Maximianus, perdendo de novo.

Filipe escreveu muitos trabalhos combatendo a doutrina que Nestório, que o próprio Filipe achava ser um herege, o que por sinal era devolvido por Nestório, que achava que Filipe era o herege. Filipe, então, usou a arma que tinha disponível, mas como o Twitter ainda não tinha sido inventado, Filipe xingou muito Nestório no pergaminho. Mas calma! Ainda tinha mais um: Proclo Lício, também chamado de Proclo Diádoco, ou “Proclo, o Sucessor”, um filósofo neoplatonista e comentarista de Aristóteles que tinha ambições maiores do que ficar ensinando Filosofia para os outros. Proclo foi outro que perdeu a disputa da posição da Sé em Constantinopla para Nestório, o qual desprezava os dois.

Proclo fez inúmeros sermões denunciando Nestório como herege e rechaçando todas as ideias de Nestório. Os cristãos de Constantinopla estavam divididos em dois grupos: os que estavam chocados com este barata-voa e aqueles que nem o pato do sanduíche querendo ver briga.

Voltando às ideias de Nestório, enquanto os perdedores xingavam muito por carta, foi dele a ideia que Jesus possuía as duas naturezas (humana e divina). Como se pode ver na Bíblia, isso não é explicado, nem dito que sim ou não. É tudo uma questão de interpretação de algo que efetivamente não está na Bíblia, e é nisso que se resumiu todos os concílios: discutir opiniões sem base sólida nas escrituras, mas pegando versículos aqui e ali e dando pinceladas com a própria opinião.

Segundo Nestório, as duas naturezas de Jesus conviviam nele simultaneamente, mas eram independentes. Primeiro nasceu o homem, depois a chama divina entrou nele, como um parasita, e assim passaram a viver em simbiose. Claro, Nestório não tinha o conceito de parasitas ou simbiose, e acho mesmo que ele ficaria ofendido se fosse traduzido assim, mas aí é outra história. Se ele não estava nem aí para o que Filipe de Side e Proclo pensavam, eu também não me importo se Nestório gostou ou deixou de gostar.

Como Jesus tinha as duas naturezas simultâneas e independentes – ainda segundo Nestório – Maria não era considerada como sendo melhor que ninguém. Era apenas uma mulher comum, a quem Nestório chamou de Cristotokos (Χριστοτόκος), ou “Portadora de Cristo”. Como em todo concílio, isso não seria na base de “falou, tá falado”, e Nestório confrontou outros bispos, entre eles o poderoso Cirilo de Alexandria, que já estava farto de Nestório e suas ideias estapafúrdias (segundo o próprio Cirilo). Para o Cirilo, Nestório estava destruindo a união perfeita e inseparável da natureza divina e humana em Jesus. Não, não tinha essa de Jesus nascer humano e virar deus depois; Cirilo se baseou no primeiro capítulo do evangelho de João: o verbo se tornou carne. Sendo assim, Jesus tinha as duas naturezas simultâneas e inseparáveis, alegando que isso fazia dele o salvador da humanidade. A conclusão de Cirilo? Nestório estava deturpando tudo e, por isso, era um herege.

Como arena de discussão sobre religião não é lugar pra freiras (ops) Cirilo resolveu jogar duro e apelou ao Papa Celestino I para que este obrigasse Nestório a abandonar os seus ensinamentos sob risco de ser excomungado. Celestino I deu ouvidos a Cirilo e lhe concedeu a autoridade para destituir Nestório de suas atividades, excomungá-lo e expulsá-lo da vida (eclesiástica ou a propriamente dita), caso aquele sujeitinho herético insistisse naquele monte de insânias abjetas (ainda segundo Cirilo).

Só que Nestório tinha amigos, e as pessoas falam. Ficou sabendo do pedido de Cirilo junto ao Papa e resolveu pegar pesado também, já que dois podem fazer o mesmo jogo sujo. No caso, Nestório apelou para o amiguinho dele: o Imperador Romano do Oriente Teodósio II. Teodósio II recebeu Nestório, que desfilou um rosário de como era um coitadinho e estavam perseguindo-o, sem direito a defesa. Para tanto, solicitou que Teodósio II convocasse um Concílio Ecumênico, para que ele pudesse explicar aos demais bispos os seus pontos de vista e, como não poderia deixar de ser, condenassem Cirilo por ser um herege deturpador da Verdade Divina (segundo Nestório).

Assim, no ano de 431, Teodósio presidiu o que ficou conhecido como Primeiro Concílio de Éfeso. Nestório começou a sua argumentação, a qual já discutimos. Não, este concílio não queria saber se Maria era santa, se era mulher normal, serva do Senhor, virgem ou o que seja. A linha de Nestório era exclusivamente sobre como Jesus combinava as duas naturezas (humana e divina). O que viesse daí (como Maria sendo Mãe de Deus ou apenas Portadora de Deus) era um detalhe em segundo plano, apenas uma consequência.

Já o ataque de Cirilo e seus apoiadores foi mais virulento, mais combativo, e acabou por destroçar Nestório e sua visão, que acabou sendo considerada oficialmente como sendo herética. Na obra Contra Nestório, Cirilo reafirma:

E digo isto depois de ter lido as palavras de Nestório e observado que ele não concorda em chamarmos a santa Virgem, Mãe de Deus, nem com a ideia de que dela tivera nascido o Emanuel, que é Deus. Ele não se importa em fazer guerra contra a glória de Cristo

Cirilo se mostra apaixonado no pior significado possível da palavra. Um fervor religioso beligerante que só os mais fanáticos entre os religiosos fanáticos poderiam ser. Ele afirma que Nestório teria dito não se importar que chamassem Maria de Theotókos, desde que se recusassem a considerá-la uma deusa. Isso foi uma grande pancada, mas em nenhum momento Maria foi tida minimamente próximo a uma deusa segundo Nestório. Foi apenas um desvio que Cirilo usou para condenar o seu rival. Como resultado, Nestório foi sentenciado por heresia, deposto do cargo episcopal e enviado para passar férias obrigatórias num mosteiro de Antióquia, no qual não ficou por muito tempo (se bem que preso por apenas um ano já estava sendo uma eternidade para ele). Ademais, a prisão visava tirar-lhe de circulação de forma que suas ideias morressem; Nestório, na sua prisão no Mosteiro, tentou se retratar de sua posição anterior, abjurando tudo o que tinha falado, mas não resultou em nada. Ele continuou preso e, em 436, Teodósio II coroou a sentença condenando Nestório ao desterro para a cidade de Tebas, no Egito, onde Nestório faleceu em 451, preso e esquecido. Sua doutrina morrera, a de Cirilo vencera.

Para finalizar o embate entre os dois, Cirilo de Alexandria morreu no ano 444, tendo sido responsável por uma mudança na doutrina e, responsável por toda sorte de perseguição a vários grupos de pessoas. Desde a comunidade judaica de Antioquia até ser o principal responsável pela perseguição e assassinato de Hipátia de Alexandria, condenando-a a morte horrível por esfolamento total e sua carne ter sido arrancada dos ossos ainda viva, depois de ter sofrido violência sexual por várias pessoas. Pela glória do Senhor!

O tempo passou, mas não tanto quanto se imagina até os mesmos problemas ressurgirem. Mais ou menos pelos idos de 446, outros começam a resgatar as opiniões de Nestório; da mesma forma, outros começam a se contrapor violentamente contra aquelas ideias já consideradas como heréticas. O mais interessante será o que virá disso.

Eutiques de Constantinopla era ferrenho opositor das bobagens (segundo ele) que aquele ímpio do Nestório (ainda segundo ele) propagava por aí. Agora, vem a parte divertida: para se contrapor às ideias de Nestório, Eutiques começou o seu próprio movimento, o qual ficou conhecido como “Monofisismo”. O Monofisismo era a doutrina que estabelecia que Jesus não tinha duas naturezas. Para Eutiques, Jesus não era o Verbo feito carne. Não era humano e Deus simultaneamente co-existentes. Jesus, segundo Eutiques, era a encarnação do Verbo e, por isso, teria uma única essência, uma única natureza. Jesus era Deus e fim de papo! Logo, isso implicava que não havia Santíssima Trindade, Jesus não tinha duas naturezas e Maria era, de fato, a Portadora (ou Mãe) de Deus, ou Theotókos. Esses ensinamentos começaram a se espalhar, também, e não daria em boa coisa, como nunca deu.

Nesse ínterim, em 449, foi instituído o Segundo Concílio de Éfeso, mas parece que não gostaram muito disso, pois acabaram chamando este concílio de “Latrocínio” de Éfeso. O Cristianismo está em crise de novo e dali seria um pulo para mais um concilio na tentativa de anular este. Seria o Concílio da Calcedônia. Nele, foi tido que as pregações de Eutiques eram heréticas, foi reafirmado o Credo de Nicéia, reestabelecendo que o Pai era co-substancial ao Filho e ao Espírito Santo. Maria voltou a ser Mãe de Deus. Mais ainda, voltou a ser Virgem Maria. Não uma deusa, claro. Mas aquela que gerou Deus, mas se manteve virgem.

A Divina Maternidade de Maria não foi objeto de uma declaração dogmática independente ou exclusiva neste concílio. Não houve uma declaração formal (de novo, não era este o assunto, apesar de ter tido isso como consequência, mais uma vez). A declaração acabou embutida em textos que definem a pessoa e a natureza de Jesus Cristo. Dessa forma, o dogma da Maternidade Divina torna-se parte integrante do dogma cristológico. Isso não diminui seu caráter definitivo e obrigatório. O dogma da maternidade divina é geralmente aceito por todas as denominações cristãs, mas de resto, o Concílio da Calcedônia acabou por forçar a cisão da Igreja do Ocidente e do Oriente, levando ao chamado Cisma do Oriente.

Acabou? Nem um pouco. Ainda temos a questão da Virgindade Perpétua de Maria. Sim, isso mesmo! Jesus nasceu, mas milagrosamente sua virgindade se manteve intacta. O Catecismo da Igreja Católica reflete sobre o significado mais profundo da noiva virgem e da virgindade perpétua (499-507). Também afirma que Jesus Cristo foi o único filho de Maria. Os chamados “irmãos e irmãs” são parentes próximos, mas isso vai de encontro com as próprias escrituras, como dito.

O grau máximo de nascimento milagroso de Jesus foi finalmente ratificado alguns poucos anos depois desses concílios. A saber, no ano de 8 de dezembro de 1854, quando o Papa Papa Pio IX publica a bula papal “Ineffabilis Deus“, enfatizando o caráter milagroso do nascimento de Jesus e, por conseguinte, a dignidade e a santidade necessárias para se tornar “Mãe de Deus”. Esse é a chamada Imaculada Conceição, e finalmente ficou como a fonte e a base da santidade de Maria como Mãe de Deus. Mas sem ser uma deusa, lembrem-se. Quanto aos irmãos de Jesus? Esqueçam deste detalhe. O Catecismo é o Catecismo, e é para ser seguido à risca, se quiser ser católico. Se não concordar, bem, tem muitas outras vertentes cristãs, como falei antes.

Nesse arranca-rabo teológico, brigas pelo poder, decisões de concílios, excomunhões etc., fica a pergunta: de onde os bispos tiraram suas ideias? A fonte primaz deveria ser a Bíblia, certo? Será que há base litúrgica para isso? Todas estas ideias são sustentadas pelos evangelhos? Ou será que houve uma grande confusão? Veremos na próxima página.

13 comentários em “Maria, A virgem que não era

  1. Muito bom o artigo.
    Descobri agora até a origem do feriado em 8 de dezembro na minha cidade, entre muitas outras coisas.
    Só uma observação: é dito que Jerônimo de Estridão nasceu no ano 320 e morreu em 470. O cara se cuidava bem assim mesmo?

  2. As “profecias” da Torah, ou antigo testamento para os cristãos, previram, entre outros atributos, que o Messias seria decente de Abrahão, Isaac e Davi. O problema é que na genealogia de Jesus, quem era decente desses personagens citados era José, não Maria. José não participou, segundo a mitologia cristã, na fecundação. Então, Jesus não é o prometido da religião judaica, de onde a cristã se derivou. A discussão se Maria era mãe de Jesus Cristo, o Messias, já teria se resolvido aí. Resolvido isso, pouco importaria se ela era virgem ou não.

    1. Jesus foi também dito como Filho de Abraão, o nascimento virginal de Jesus também foi dito por Isaías.

      1. Abraão é patriarca láááááááá trás. Dizer que ele é descendente de Abraão é o mesmo que dizer que Jesus descende do Homo habilis

  3. A Bíblia não inventou a virgindade de Maria, até porque também foi dito em Isaías isso.

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