Dicas de redação

redacao.jpgInicialmente, reforçamos a idéia de que um trabalho de redação é, antes de mais nada, um trabalho de criatividade. Portanto, é muito pessoal, subjetivo; cada cabeça, um estilo. Consideramos um absurdo a tentativa de se padronizar um texto, de se elaborar um “modelo” a ser seguido ou, pior ainda, um gabarito para redação (não confundir com o trabalho de reflexão e análise sobre textos de bons escritores, considerados modelos; tal trabalho é proveitoso para que possamos fixar o nosso estilo).

Entretanto, mesmo sendo um trabalho subjetivo, de criatividade, de manifestação de um estilo individual, podemos enumerar algumas qualidades e alguns defeitos.

Como qualidades que devem ser observadas, podemos citar: correção, clareza, concisão e elegância.

Como defeitos que devem ser evitados, mencionamos: ambigüidade, obscuridade, pleonasmo ou redundância, cacofonia e eco.

AS QUALIDADES

Correção: evidentemente, um texto deve obedecer às regras gerais da língua, ressalvando-se sempre algumas liberdades como conseqüência do estilo (o uso que cada indivíduo faz da língua, conforme sua vontade).

Clareza: se o texto não obedece às normas gerais da língua, torna-se pouco claro, difícil de ser compreendido. As palavras devem ser bem colocadas, as idéias devem obedecer a uma determinada lógica, sem se cair, no entanto, num didatismo primário. Ao leitor deve restar – sempre – o prazer da descoberta.

Concisão: a concisão consiste em se apresentar uma idéia em poucas palavras sem, contudo, comprometer a clareza. O procedimento oposto é a prolixidade, defeito que deve ser evitado.

Elegância: é, em última análise, o resultado final obtido quando se observam as qualidades e se evitam os defeitos. È o texto agradável de ser lido tanto pelo seu conteúdo como pela sua forma.

OS DEFEITOS

Ambigüidade: este vício ocorre quando a frase apresenta mais de um sentido, em conseqüência da má pontuação ou da má colocação das palavras.

Obscuridade: é o defeito que se opõe à clareza. Entre os vícios que acarretam obscuridade podemos citar: má pontuação, rebuscamento da linguagem, frases excessivamente longas (prolixas) ou exageradamente curtas (lacônicas).

Pleonasmo ou redundância: consiste na repetição de um termo ou de uma idéia. Em alguns casos, no entanto, o pleonasmo tem a função de realçar uma idéia, torná-la mais expressiva; dessa forma, o pleonasmo deixa de ser um vício e passa a ser uma figura de linguagem, um recurso estilístico. Portanto, é necessário distinguir dois tipos de pleonasmo:

  • pleonasmo vicioso: “subir para cima”, “entrar para dentro”, “decisão unânime de todos”, “monopólio exclusivo”, etc.
  • pleonasmo de reforço ou estilístico: Camões, em Os Lusíadas (Canto V, estrofe 18), faz uso de um pleonasmo célebre ao iniciar a descrição de uma tromba-d’água marítima:

    “Vi, claramente visto, o lume vivo que a marítima gente tem por santo.”

Cacofonia ou cacófato: é o som desagradável resultante da combinação de duas ou mais sílabas de diferentes palavras. Apesar da fértil imaginação popular, pródiga em criar versinhos cacofônicos, vamos a alguns exemplos: “… a boca dela“, “… meu coração por ti gela“, “…uma mão”, “…vou-me já…”, “…por cada“, etc.

Todos nós, uma vez ou outra, cometemos um cacófato – até os grandes mestres. Outra vez citamos Camões, em um de seus sonetos mais famosos:

“Alma minha gentil que te partiste
tão cedo desta vida descontente!”

Eco: é a repetição desnecessária de um som, resultando num texto desagradável, com um ritmo batido e monótono. A melhor forma de corrigir esse defeito é ler o texto já acabado com muita atenção; na língua portuguesa é preciso tomar muito cuidado, por exemplo, com as terminações -ão, -ade e -mente. Uma frase do tipo: “Contra sua vontade, apenas por bondade, ele foi à cidade; na verdade…” machuca o ouvido.

Entretanto, como na redação tudo é muito relativo e possível, nós podemos abusar dos advérbios de modo terminados em -mente se o texto versar, por exemplo, sobre a …mentira. O eco então deixa de ser um defeito e torna-se uma qualidade.

O estilo e a Gramática

Sobre a rigidez da Gramática e as liberdades de estilo, assim se manifesta o crítico português Rodrigues Lapa em sua obra Estilística da língua portuguesa.

“Uma das coisas que mais profundamente distinguem a Gramática da Estilística é o conceito de erro: ao contrário do que sucede na Gramática, em Estilística não há propriamente erros, porque para os maiores desvios é achada uma determinante psicológica, natural. A Estilística tem por missão explicar, esclarecer; a Gramática sistematiza e impõe normas, muitas vezes com rigidez excessiva.”

O gigolô das palavras
Luis Fernando Veríssimo

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão!”, “Culpa da revisão!”). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem, qualquer linguagem é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover…Mas aí entramos na área de talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.

Claro que eu não disse tudo isso a meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isto eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão dispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltratando-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenha também o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria importante, impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.

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