Os videogames voltam ao Brasil

ps3wiixbox.jpgMicrosoft e Nintendo vão vender oficialmente seus novos consoles no país – e terão pela frente o desafio de vencer a pirataria e a carga tributária.

O Natal de 2006 promete ficar na história da indústria dos jogos eletrônicos no Brasil. O período pode marcar a retomada das vendas de produtos legalizados, que foram varridos do país pela pirataria desenfreada no fim da década de 90. Ou então ficará na memória como a última tentativa frustrada de recuperar um setor que não consegue prosperar onde as leis de direitos autorais e a propriedade intelectual não são minimamente respeitadas. Qual das duas alternativas será realidade é uma questão que começa a ser respondida em dezembro, quando os consoles Xbox 360, da Microsoft, e o Wii, da japonesa Nintendo, chegam ao varejo brasileiro com importação em larga escala, manuais traduzidos para o português e garantia técnica. É uma novidade e tanto: faz quase uma década que o altíssimo índice de ilegalidade dos jogos, estimado em 95%, levou os grandes fornecedores a virar as costas para o mercado nacional. Junto com o aguardado Playstation 3, da Sony — ainda sem previsão de chegar ao Brasil –, esses equipamentos compõem a sétima geração de consoles de videogame. São as máquinas que, de agora em diante, disputarão corações e bolsos dos apaixonados consumidores que fazem desse mercado um negócio que movimentou 25 bilhões de dólares mundialmente só no ano passado.

A subsidiária brasileira da Microsoft vai importar o Xbox 360 e distribuí-lo a uma rede inicial de 20 varejistas. A oferta virá na forma de um pacote que inclui três jogos e alguns acessórios. O preço deve fazer muita gente achar que a brincadeira perdeu a graça: 2 999 reais. Cada jogo adicional custará de 159 a 199 reais. No México, um pacote similar sai por 600 dólares, ou cerca de 1 300 reais. Nos Estados Unidos, o Xbox 360 sai por menos de 400 dólares; e os jogos, ao redor de 35 dólares. A Microsoft coloca a culpa na avalanche de impostos em cascata no Brasil. Mesmo alto, o preço do console embute um forte subsídio em qualquer país, ou custaria ainda mais. No mercado americano, a gigante do software perde cerca de 125 dólares em cada unidade do Xbox 360. A estratégia da companhia é faturar com a venda de jogos, o verdadeiro ganha-pão dessa indústria. Sem revelar números, o diretor da divisão de entretenimento da Microsoft para a América Latina, Daniel Cervantes, afirma que os subsídios no Brasil são ainda maiores do que nos Estados Unidos.

Parte do sacrifício seria compensada pelo fato de o Xbox 360 desembarcar aqui antes dos rivais. No México, a versão anterior do videogame atingiu participação de 50% em um mercado que consome cerca de 650 000 consoles por ano. A idéia é repetir a receita no Brasil. Mas a Nintendo vai dificultar a tarefa: a panamenha Motta International, sua representante na América Latina, fechou acordo com a Metropolitan Trading para importar e distribuir o Wii e o portátil Nintendo DS no varejo nacional a partir de dezembro. “Vamos colocar o Wii no mercado brasileiro quase simultaneamente ao lançamento mundial, em 19 de novembro”, diz José Ernesto Barbarisi, diretor comercial da Metropolitan Trading. O preço do produto deve ficar próximo a 2 400 reais.

Nintendo e Microsoft querem desbancar a Sony. A japonesa obteve uma vitória acachapante na geração anterior com o Playstation 2, o console de maior sucesso de todos os tempos: foram mais de 100 milhões de unidades vendidas. Nessa nova etapa, cada rival adotou uma tática diferente. A Microsoft largou na frente. O Xbox 360 apareceu em novembro de 2005, um ano antes dos concorrentes. A Sony chegou depois, mas investiu pesado no terceiro representante da dinastia dos Playstation. O PS3 é o mais poderoso e sofisticado de todos os consoles da atual geração. Será também o mais caro: 499 dólares para uma versão enxuta e 599 dólares para o produto completo nos Estados Unidos. Seus jogos virão no novo DVD de alta definição Blu-ray, que tem gigantesca capacidade de armazenamento. Mais do que um videogame, a Sony quer posicionar o aparelho como uma central de entretenimento — conceito que a Microsoft também procura explorar. Já a Nintendo tenta ganhar terreno oferecendo o melhor custo-benefício. O Wii será um pouco menos sofisticado que o PS3, porém custará apenas 200 dólares e conta com um sistema de controle revolucionário. A Nintendo espera que o Wii conquiste jogadores eventuais, que gostam de diversões eletrônicas, mas não têm o tempo ou a paciência para aprender jogos cada vez mais complicados.

Esse é o campo de batalha lá fora. No Brasil, o competidor a ser batido é a pirataria. Diante desse obstáculo, é de se perguntar por que Microsoft e Nintendo resolveram investir aqui. A resposta mais provável é que estejam apenas preocupadas em marcar presença no maior país da América Latina. O lucro, se vier, será no longo prazo. Mas há pelo menos um ponto favorável no mercado nacional: não restam dúvidas de que existe interesse por jogos eletrônicos. Um levantamento da Microsoft estima que o consumidor brasileiro compre entre 500 000 e 600 000 consoles por ano via contrabando ou importação um-a-um. A Tec Toy calcula em 2 milhões de unidades a base instalada do Playstation 2 no país. Isso significa 2% de participação mundial, conquistada sem nenhum esforço. Outro ponto a ser considerado é que houve um mercado legal forte de videogames no Brasil até 1995, quando a substituição dos cartuchos pelos CDs facilitou a pirataria e afugentou os fornecedores. Reverter a situação será o jogo mais difícil que essa indústria já disputou no país.

O milagre da multiplicação
Veja um cálculo aproximado da cascata de impostos que incide sobre a venda do videogame da Microsoft no Brasil. Essa conta não inclui os custos para trazer o produto ao país nem o valor subsidiado pela empresa
Preço original do videogame R$ 860(1)
20% de imposto de importação R$ 1 032
50% de IPI R$ 1 548
9,25% de PIS/Cofins de importação R$ 1 690
18% de ICMS de importação R$ 2 000
25% de ICMS na venda R$ 2 500(2)
9,25% de PIS/Cofins na venda R$ 2 730(3)
(1) 400 dólares (2) Alíquota no estado de São Paulo (3) O preço final, de 2 999 reais, inclui itens extras, como alguns jogos
Fonte: estimativa de importadores

Fonte: http://info.abril.com.br/aberto/infonews/112006/17112006-3.shl

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