Artigos da Semana 318

Hoje é dia dos pais e vocês deveriam me dar presentes, já que eu sou como um pai pra vocês: estou profundamente desapontado, tenho a certeza que falhei seriamente em ensinar algo, acho que vocês deveriam pedir coisas pras mães de vocês, que acho que são gostosas. Já que expliquei bem o caso, vamos ver o que foi postado ao longo da semana.

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Linus Pauling estava certo, mas não como ele achava

Toda disciplina científica tem seu santo mártir e seu bobo da corte particular. De vez em quando essas duas figuras habitam o mesmo corpo. É sobre um desses casos que vamos falar hoje: como uma ideia ridicularizada por décadas, relegada à prateleira empoeirada da “medicina alternativa” ao lado de cristais e homeopatia, está sendo cuidadosamente desempoeirada por pesquisadores sérios, em revistas sérias, com microscópios sérios. E o melhor: sem que ninguém precise admitir publicamente que aquele senhor teimoso talvez não fosse tão maluco assim. Continuar lendo “Linus Pauling estava certo, mas não como ele achava”

O casamento improvável entre a Tabela Periódica e a Inteligência Artificial

Durante séculos, fazer Química (com ela a oração e a paz) significou basicamente isto: misturar coisas, ver o que explode, anotar o resultado e tentar de novo no dia seguinte. Bancadas cheias de vidraria, sobrancelhas eventualmente chamuscadas e uma paciência de santo foram – e continuam sendo – os verdadeiros pilares do método científico na área. Entretanto, equipamentos feitos de dióxido de silício estão, aos poucos, contando com a ajuda cada vez maior de outras coisas feitas de silício: processadores, e, em 2026 uma parte considerável desse ritual está sendo terceirizada para algoritmos que nunca dormem, não reclamam de exaustor entupido e ainda por cima têm bom gosto para sugerir rotas de síntese. Continuar lendo “O casamento improvável entre a Tabela Periódica e a Inteligência Artificial”

Governo Americano coloca o… dólar na mesa e empresas de IA pedem penico

Todo mês tem um espetáculo novo. Um dia é o governo “investigando” as coitadíssimas Big Tech, no outro é a Big Tech “resistindo bravamente” às garras do Estado, e a plateia aplaude como se estivesse assistindo a uma luta de verdade, com mocinho e vilão bem definidos, em que cada babaca espectador escolhe um lado. Só que essa encenação de rivalidade cansou de ter final óbvio: sempre que a poeira baixa, as mesmas cinco empresas continuam maiores, mais ricas e mais indispensáveis do que antes, e o mesmo governo continua com mais acesso e mais controle informal do que qualquer lei jamais lhe deu.

Chame de teatro regulatório, de kabuki político ou simplesmente de negócio da China (rá!): a dinâmica é sempre a mesma. Anuncia-se um confronto, vaza um vídeo de audiência tensa no Congresso, publica-se uma “ofensiva regulatória” na imprensa, e no fim das contas as regras que saem desse processo são escritas, editadas e aprovadas pelas próprias empresas que deveriam estar sendo domadas. O que muda de um episódio para o outro não é o roteiro, é só o nome do vilão da vez e o ângulo da câmera. No final, você já sabe: todos eles almoçam juntos! Continuar lendo “Governo Americano coloca o… dólar na mesa e empresas de IA pedem penico”

Artigos da Semana 317

Minhas microférias acabam hoje e amanhã eu tenho que ir trabalhar. Estou desconsolado, triste e revoltado. Bem, ainda tenho até hoje para isso porque amanhã é levantar cedo. Junte-se à mim na minha revolta e leiam o que foi postado durante a semana.

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A cidade que esqueceu de inventar reis

Há um roteiro que a história repete com a monotonia de uma novela mexicana. Vila prospera, vira cidade, e aparece um sujeito de coroa (ou tiara sacerdotal) reivindicando que os deuses o escolheram pessoalmente para acumular a maior parte do excedente. O Egito teve seus reis e pirâmides, a Mesopotâmia seus reis-sacerdotes e Creta o suntuoso palácio de Cnossos. Por décadas, o consenso entre historiadores foi simples e fatalista: cidade que cresce é cidade que concentra riqueza no topo.

Só que uma cidade no que hoje é o Paquistão parece ter perdido a memória desse roteiro. Entre 2600 e 1900 A.E.C., ela cresceu, prosperou, virou a maior metrópole do Vale do Indo e, em vez de gerar uma elite cada vez mais destacada, fez o oposto: ficou mais igualitária à medida que enriquecia. Nada de palácios, nada de tumbas de ouro, nada de estátuas de governantes olhando para baixo com desdém arquitetônico. Continuar lendo “A cidade que esqueceu de inventar reis”

Quando ratos foram réus num julgamento e um advogado malandro os salvou

O recinto está preparado, a audiência se iniciará em poucos minutos. Os gentis-homens se posicionam com suas graves roupas, adequadas ao ofício que exercem. Chapéus bem arrumados, meias bem esticadas, túnicas bem alinhadas, casacões postos. Um deles passa a mão grossa pelo largo rosto e ajeita a barba; e com sobrancelhas fechadas, olhos diminutos e atentos farejando uma vítima, um réu, um culpado. O home que chega então anuncia que o réu não poderá tomar o lugar que lhe deve e um advogado é indicado. Outro grave homem se senta e espera que se dê início à sessão, pois ali o réu maldoso, o mal encarnado, o facínora será julgado.

A sessão tem início e o julgamento começa à revelia do ausente réu; a saber: um rato, e este talvez seja um dos mais estranhos julgamentos, mas não é o único de sua espécie. Continuar lendo “Quando ratos foram réus num julgamento e um advogado malandro os salvou”

A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas

Há coisas que a gente aceita como óbvias sem nunca se perguntar de onde vieram, e a luva cirúrgica é uma delas. Hoje, a ideia de um cirurgião enfiando as mãos nuas dentro de um paciente soa tão absurda quanto pedir a um eletricista que trabalhe descalço numa poça d’água. Mas até o fim do século XIX era exatamente assim que a medicina funcionava: sem luvas, sem lavagem de mãos entre um paciente e outro, e com uma taxa de mortalidade cirúrgica que beirava os 50%.

Esta é a história de como um romance salvou a cirurgia moderna. Continuar lendo “A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas”

Artigos da Semana 315

Hoje é a finalzaça da Copa do Mundo, e estou escrevendo com antecedência. Não sei quem ganhou e, sinceramente, não dou a mínima. Gosto do espetáculos, admirar as boas jogadas, xingar as jogadas merdas e, principalmente, xingar o jogador filho da puta que faz escanteio curto. Seja você ávido torcedor ou não, aproveite o que foi postado durante a semana.

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Abriram uma múmia… e encontraram Homero lá dentro

Há descobertas arqueológicas que mudam datas. Há outras que mudam mapas. E há, muito raramente, aquelas que desafiam tudo o que pensávamos saber sobre o passado: arqueólogos encontraram um fragmento da Ilíada de Homero cuidadosamente colocado dentro de uma múmia egípcia de cerca de 1.600 anos, usado de forma intencional durante o processo de embalsamamento. Não se trata de um texto que caiu acidentalmente na tumba. É literatura grega elevada à condição de amuleto ritual, algo tão inesperado quanto imaginar Os Lusíadas enterrado junto a um antepassado para acompanhá-lo na eternidade. Continuar lendo “Abriram uma múmia… e encontraram Homero lá dentro”