Biosfera 2: quando ignorar a Química quase leva a uma extinção em massa

Em 26 de setembro de 1991, oito pessoas se trancaram voluntariamente dentro de uma redoma de vidro e aço no meio do deserto do Arizona e, de quebra, quase morreram sufocadas pelo próprio otimismo. Não havia vírus, não havia sabotagem, não havia nenhum vilão de filme B espreitando pelos corredores. Havia, isso sim, um adversário muito mais chato e muito mais eficiente: o concreto. Bem-vindos à Biosfera 2, o experimento de US$ 150 a 200 milhões que prometia ensaiar a colonização de Marte e acabou dando uma aula magistral sobre como a Terra, com todos os seus bilhões de anos de rodagem, ainda sabe humilhar qualquer tentativa humana de replicá-la em escala reduzida. Continuar lendo “Biosfera 2: quando ignorar a Química quase leva a uma extinção em massa”

O câncer que se recusa a morrer

A Humanidade vem gastando bilhões de dólares procurando a fonte da juventude eterna enquanto um punhado de células malignas na sua pele já descobriu a fórmula há muito tempo, de graça, sem pedir licença e sem nenhuma intenção de compartilhar a receita. O melanoma, aquele tipo de câncer de pele que adora se esconder atrás de uma pinta desconfiada, é uma das formas mais eficientes que a natureza já produziu de driblar a morte celular. E por décadas os cientistas sabiam que ele fazia isso, só não sabiam exatamente como.

Agora, um grupo de pesquisadores da Universidade de Pittsburgh encontrou a peça que faltava nesse quebra-cabeça bioquímico. A descoberta não é apenas mais um tijolo na parede do conhecimento sobre câncer: é o tipo de achado que explica por que essas células insistem em não respeitar o prazo de validade biológico que todas as outras respeitam. Continuar lendo “O câncer que se recusa a morrer”

Suplementos podem mais ferrar o seu cérebro do que ajudar

Se você for numa farmácia, vai dar de cara com várias prateleiras com produtos mágicos com a promessa de turbinar o cérebro. Foco, atenção, clareza mental, desempenho cognitivo sob estresse: o marketing é sofisticado, a embalagem é minimalista e o preço costuma ser o inverso de tudo isso. Entre os ingredientes favoritos dessa indústria está a tirosina, um aminoácido que o organismo usa para fabricar neurotransmissores como dopamina, norepinefrina e epinefrina, as mesmas substâncias que entram em cena quando você precisa dar uma palestra, atravessar uma prova ou fingir que está bem numa reunião de segunda-feira.

O problema é que uma pesquisa recente veio jogar um balde de água fria nessa narrativa bem-organizada. Continuar lendo “Suplementos podem mais ferrar o seu cérebro do que ajudar”

Artigos da Semana 310

Bola tá rolando na Copa do Mundo. Depois do vexame do Brasil frente ao Marrocos e a Alemanha meter 7 a 1 em Curaçao (com brasileiro tendo que ir pro hospital por causa de traumas passados), o que nos resta? Nos resta vermos o que foi postado durante a semana.

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A Guerra das Invenções Idiotas

A Segunda Guerra Mundial foi, entre outras atrocidades, o maior laboratório de gambiarra da História Humana. Sim, ela nos deu o radar, o motor a jato, o míssil balístico e a bomba atômica; mas também nos deu um urso sargento, um submarino afundado por descarga sanitária e uma proposta de incendiar Tóquio com morcegos colados. A humanidade, quando colocada sob pressão extrema, não apenas sobrevive: ela delira com produtividade assustadora. O que se segue é um catálogo honesto desse delírio. Continuar lendo “A Guerra das Invenções Idiotas”

Quando o cérebro usa o fracasso como combustível

Existe uma razão pela qual aquela dieta que você “começou na segunda-feira” já foi abandonada pela quarta. E uma razão pela qual você ainda digita a senha do ex no celular sem perceber. O cérebro humano, esse órgão presunçoso que se gaba de ter mandado foguetes à Lua e inventado o sorvete de pistache, tem um vício embaraçoso: ele adora repetir o que já funcionou antes, mesmo quando o mundo ao redor mudou completamente. É o que os neurocientistas chamam de “rigidez comportamental”, os filósofos chamam de teimosia e o que sua mãe chama simplesmente de “você sendo você”.

A boa notícia é que o cérebro tem um mecanismo de resgate embutido. A má notícia é que esse mecanismo só é acionado quando você leva um fora. Continuar lendo “Quando o cérebro usa o fracasso como combustível”

Artigos da Semana 309

Teve feriadão nesta semana e eu, aqui, tive divertimento de adultos (dormi até tarde, levantei, almocei, volte pra cama, levantei, jantei, voltei pra cama. Recomendo!). Espero que vocês tenham sido muito produtivos (em nenhum momento eu serei louco em achar que produziram algo útil). Claro, nunca abandono meus 3 leitores e deixei artigos entrando (ops) automaticamente.

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A Galáxia mais pobre do Universo

Existe uma distinção muito importante entre ser pobre e ser primitivo. Um mendigo do século XXI, por mais desprovido de bens que esteja, carrega consigo carbono, oxigênio, ferro, cálcio e pelo menos uma dúzia de outros elementos que as estrelas levaram bilhões de anos para forjar. A galáxia LAP1-B não tem esse luxo. Ela é pobre de um jeito que nenhuma coisa no universo local consegue rivalizar: pobre de elementos, pobre de estrelas, pobre de tudo que não seja hidrogênio, um fiapo de hélio e uma quantidade surpreendente de matéria escura. E é exatamente por isso que ela pode ser a descoberta astronômica mais importante dos últimos anos. Continuar lendo “A Galáxia mais pobre do Universo”

Artigos da Semana 308

Enquanto pessoal anda se matando por causa de bobagens como se o Neymar vai pra Copa do Mundo, o que está gerando muito debate idiota e ótimos memes em vídeo, estou aqui no meu canto vendo o que o Papa andou falando da IA, como big techs odeiam privacidade, mulheres tocaram negócios e se tornaram comerciantes poderosas e até como pessoal anda sendo investigado para verem se tem DNA de alienígenas.

Tudo mais interessante que o tosco do Neymar.

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Melatonina como consertadora de DNA

Durante centenas de milhares de anos a regra foi simples e eficiente: escurece, dorme; amanhece, acorda. Até que alguém inventou a lâmpada elétrica e declarou guerra ao relógio biológico. Hoje, milhões de pessoas – enfermeiros, médicos, vigilantes, motoristas, operadores industriais e seu filho adolescente – vivem em permanente negociação com o próprio corpo. O problema é que o relógio circadiano não faz acordo coletivo. Enquanto o cérebro tenta se convencer de que 3h da manhã é um horário perfeitamente razoável para tomar decisões importantes, o organismo continua recebendo o sinal ancestral: “Está na hora de dormir.”

Uma das primeiras vítimas dessa confusão é a melatonina. Continuar lendo “Melatonina como consertadora de DNA”