A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas

Há coisas que a gente aceita como óbvias sem nunca se perguntar de onde vieram, e a luva cirúrgica é uma delas. Hoje, a ideia de um cirurgião enfiando as mãos nuas dentro de um paciente soa tão absurda quanto pedir a um eletricista que trabalhe descalço numa poça d’água. Mas até o fim do século XIX era exatamente assim que a medicina funcionava: sem luvas, sem lavagem de mãos entre um paciente e outro, e com uma taxa de mortalidade cirúrgica que beirava os 50%.

Esta é a história de como um romance salvou a cirurgia moderna. Continuar lendo “A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas”

Artigos da Semana 315

Hoje é a finalzaça da Copa do Mundo, e estou escrevendo com antecedência. Não sei quem ganhou e, sinceramente, não dou a mínima. Gosto do espetáculos, admirar as boas jogadas, xingar as jogadas merdas e, principalmente, xingar o jogador filho da puta que faz escanteio curto. Seja você ávido torcedor ou não, aproveite o que foi postado durante a semana.

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Starchild: a cabeçona misteriosa que deixou ufeiros em polvorosa

O calor opressivo estava batendo como um malho numa bigorna na longínqua década de 1930. Para muitos, seria algo para deixar morgando num alpendre com 300 ventiladores, ou trancado em casa com ar-condicionado no talo, mas para uma adolescente era um dia normal. Talvez por ser de origem mexicano-americana, já acostumada com o calor, a adolescente não estava desconfortável com o verão ao visitar parentes num pequeno vilarejo do interior de Chihuahua, naquele tipo de família binacional que atravessa a fronteira com a naturalidade de quem atravessa a rua.

Entediada com a vida rural e proibida pelos pais de se aproximar dos barrancos e minas abandonadas da região, a jovem fez exatamente o que qualquer adolescente proibida faria: fingiu sair para colher cerejas e foi explorar um desfiladeiro que lhe chamara a atenção. E esta decisão iria causar um impacto no que se sabe sobre Ciência, Arqueologia e até mesmo a busca por civilizações extraterrestres, e isso graças a uma cabeça de proporções descomunais. Continuar lendo “Starchild: a cabeçona misteriosa que deixou ufeiros em polvorosa”

Robô assiste robô cirurgião operando uma pessoa roboticamente

Imagine confiar a remoção da sua vesícula biliar a um bípede metálico de um metro e meio, pilotado à distância por alguém que talvez esteja de chinelos em casa. Pois é exatamente isso que uma equipe de engenheiros e cirurgiões da Universidade da Califórnia em San Diego acabou de fazer, com sucesso, inaugurando uma era em que a ficção científica perde a exclusividade sobre robôs vestindo (ou quase vestindo) jaleco.

Em resumo: pela primeira vez na história, dois robôs humanoides teleoperados realizaram cirurgias completas em um teste pré-clínico. Em uma delas, um robô trabalhou como assistente de um cirurgião humano numa remoção de vesícula biliar. Na outra, mais audaciosa, dois robôs humanoides operaram sozinhos, em dupla, sem nenhum humano de bisturi na mão. Continuar lendo “Robô assiste robô cirurgião operando uma pessoa roboticamente”

O câncer que se recusa a morrer

A Humanidade vem gastando bilhões de dólares procurando a fonte da juventude eterna enquanto um punhado de células malignas na sua pele já descobriu a fórmula há muito tempo, de graça, sem pedir licença e sem nenhuma intenção de compartilhar a receita. O melanoma, aquele tipo de câncer de pele que adora se esconder atrás de uma pinta desconfiada, é uma das formas mais eficientes que a natureza já produziu de driblar a morte celular. E por décadas os cientistas sabiam que ele fazia isso, só não sabiam exatamente como.

Agora, um grupo de pesquisadores da Universidade de Pittsburgh encontrou a peça que faltava nesse quebra-cabeça bioquímico. A descoberta não é apenas mais um tijolo na parede do conhecimento sobre câncer: é o tipo de achado que explica por que essas células insistem em não respeitar o prazo de validade biológico que todas as outras respeitam. Continuar lendo “O câncer que se recusa a morrer”

O câncer fatal que virou um problema de encanamento biológico

Você chega ao hospital com uma dor de cabeça chata, dessas que não passam nem com paracetamol nem com promessas de que amanhã será melhor. Os médicos batem uma tomografia, encontram várias manchas espalhadas pelo seu cérebro e, num tom que tenta ser gentil mas nunca consegue, informam que aquilo tem toda a cara de câncer metastático. O tipo de notícia que reorganiza uma vida inteira em quinze minutos.

Você é medicado com corticoide, melhora rápido, e a equipe médica sai correndo atrás da origem do tumor primário: emarái, colonoscopia, PET scan, a bagaça completa. Daí, descobrem que não existe tumor nenhum. O que parecia o pior cenário possível simplesmente não bate com a realidade, e a equipe se vê obrigada a repensar tudo, porque uma ressonância mais detalhada revela cistos, não tumores, e dentro de alguns desses cistos havia algo com cabeça própria. Literalmente. A notícia boa é que não é câncer. A notícia ruim é que o motivo é ainda mais perturbador, e o paciente carregava vermes alojados no cérebro sabe-se lá quantos anos. Continuar lendo “O câncer fatal que virou um problema de encanamento biológico”

Artigos da Semana 311

Bola ainda tá rolando na Copa do Mundo, o mundo continua as mesmas loucuras de sempre, Inglaterra tinha imposto de janelas, zoológico na Torre de Londres, uma dona vendeu a filha adotiva em troca de um macaco, mas não o macaco ladrão que levou embora jóias de uma morta. A insânia está à solta!

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Suplementos podem mais ferrar o seu cérebro do que ajudar

Se você for numa farmácia, vai dar de cara com várias prateleiras com produtos mágicos com a promessa de turbinar o cérebro. Foco, atenção, clareza mental, desempenho cognitivo sob estresse: o marketing é sofisticado, a embalagem é minimalista e o preço costuma ser o inverso de tudo isso. Entre os ingredientes favoritos dessa indústria está a tirosina, um aminoácido que o organismo usa para fabricar neurotransmissores como dopamina, norepinefrina e epinefrina, as mesmas substâncias que entram em cena quando você precisa dar uma palestra, atravessar uma prova ou fingir que está bem numa reunião de segunda-feira.

O problema é que uma pesquisa recente veio jogar um balde de água fria nessa narrativa bem-organizada. Continuar lendo “Suplementos podem mais ferrar o seu cérebro do que ajudar”

Sistema sabe aonde você vai e onde está. Esta fofoca pode salvar muitas vidas

Você não tem privacidade. Não existe mais esse conceito, a não ser como lembrança nostálgica, do tipo que os mais velhos evocam com um suspiro e um olhar distante, como quando falam em Fusca ou em disquete. Seu celular sabe onde você está, com quem você conversa, o que você consome, o que você deseja consumir e, se você usa qualquer aplicativo minimamente invasivo, provavelmente sabe quantas horas você dormiu e se estava nervoso quando acordou, desenhando um mapa fiel das suas andanças com uma precisão que qualquer detetive de noir dos anos 1940 encararia com admiração e ciúme.

É com essa constatação um tanto assustadora que chegamos a uma das aplicações mais elegantes e, convenhamos, levemente irônicas da vigilância de massas: usar esses dados de mobilidade para prever onde uma epidemia vai explodir antes que ela exploda. A ideia soa como aquela virada de enredo em que o vilão descobre que pode usar seus poderes para o bem, exceto que, neste caso, o vilão são as telecomunicações e o bem são as crianças que não vão morrer de sarampo. Continuar lendo “Sistema sabe aonde você vai e onde está. Esta fofoca pode salvar muitas vidas”

Quando o cérebro usa o fracasso como combustível

Existe uma razão pela qual aquela dieta que você “começou na segunda-feira” já foi abandonada pela quarta. E uma razão pela qual você ainda digita a senha do ex no celular sem perceber. O cérebro humano, esse órgão presunçoso que se gaba de ter mandado foguetes à Lua e inventado o sorvete de pistache, tem um vício embaraçoso: ele adora repetir o que já funcionou antes, mesmo quando o mundo ao redor mudou completamente. É o que os neurocientistas chamam de “rigidez comportamental”, os filósofos chamam de teimosia e o que sua mãe chama simplesmente de “você sendo você”.

A boa notícia é que o cérebro tem um mecanismo de resgate embutido. A má notícia é que esse mecanismo só é acionado quando você leva um fora. Continuar lendo “Quando o cérebro usa o fracasso como combustível”