O mito do camponês que trabalhava menos que os trabalhadores de hoje

De tempos em tempos, a Internet descobre que a Idade Média era maravilhosa. Não o período da peste bubônica que matou um terço da Europa, não o das guerras ininterruptas ou das colheitas devastadas pela geada. A Idade Média romântica, aquela dos camponeses descansados que trabalhavam menos que o trabalhador médio e passavam os invernos bordando tapeçarias à beira da lareira, se banqueteando com uma dieta mais saudável. O argumento circula com a persistência das más ideias: os servos medievais tinham mais feriados do que você, seu CLT tosco, trabalhando só 1.620 horas por ano (contra as 1.780 do trabalhador moderno), e portanto viviam melhor. Soa bonito, eu sei.

Claro, até tem um (pequeno) fundo de verdade nisso, mas fica beeeeem lá no fundo, mas conta apenas meia verdade, e toda meia verdade é acompanhada de meia mentira. Trata-se de em medidas iguais, uma verdade incompleta, uma fantasia consoladora e uma narrativa prontinha para uma opinião que tem mais política do que preocupação laboral.

A origem da narrativa é honesta o suficiente: um livro de 1992 chamado The Overworked American, da economista Juliet Schor, analisou registros históricos e chegou a estimativas sobre o calendário medieval de trabalho. Vale notar que Schor estava, a rigor, falando do trabalhador americano médio, mas o argumento se espalhou como aplicável a qualquer assalariado do mundo moderno.

Os números não são inventados: a Igreja Católica realmente mantinha um calendário de festas religiosas que chegava a 40 ou 50 dias por ano, fora os domingos, mas isso tem pouco a ver com a ICAR acreditando que era importante mantê-los felizes com feriados frequentes e obrigatórios, eles não acreditavam e nem estavam preocupados com isso.

A Igreja Católica medieval não era apenas uma instituição espiritual com alguns imóveis, mas um dos maiores proprietários fundiários da Europa, ponto final. Mosteiros beneditinos, cistercienses e dominicanos, por exemplo, operavam como unidades agrícolas e econômicas de pleno funcionamento: cultivavam cereais, produziam vinho e cerveja em escala (os monges de Westvleteren não inventaram nada, apenas continuaram uma tradição lucrativa de milênios), criavam gado, arrendavam terras a camponeses e cobravam por isso com a mesma eficiência – e a mesma dureza – de qualquer senhor secular. A diferença é que o senhor secular ameaçava com espadas. A Igreja ameaçava com o Inferno, o que era operacionalmente mais econômico e não exigia manutenção de cavalaria.

Além disso, o clero em si era extremamente estratificado. O bispo de uma diocese rica vivia como um príncipe secular, porque era também um administrador de territórios, um cobrador de rendas e um jogador político de primeiro time. O padre de aldeia vivia quase tão mal quanto seus paroquianos, e ele mesmo era frequentemente quem ia cobrar o dízimo pessoalmente, numa visita que devia ter o mesmo charme de uma auditoria da Receita Federal. A “madre Igreja” como entidade unificada que velava pelo rebanho é uma abstração teológica; na prática, havia uma pirâmide dentro da pirâmide, e o pessoal do topo dela não passava fome.

Voltando ao sistema de produção, comércio e sustento, nos meses de inverno, quando a luz do Sol escasseava e as plantações já tinham sido colhidas, havia de fato menos atividade agrícola formal. Até aqui, tudo certo. O problema é o que acontece depois, quando esse fragmento de dado vira manchete do tipo “Você trabalha mais do que um camponês medieval!”, acompanhada de uma ilustração simpática de alguém dormindo sob um carvalho com um capim na boca que nem quadrinho do Chico Bento, cujo pai trabalha de sol a sol, como nos tempos de antigamente, muito antigamente.

O primeiro equívoco é tratar “trabalho” medieval como se fosse equivalente ao nosso conceito de “expediente”. No mundo moderno, há uma fronteira relativamente clara entre o tempo de trabalho e o tempo livre. O camponês medieval não tinha esse luxo conceitual; o gado não sabia que era domingo, as galinhas não consultavam o calendário litúrgico antes de adoecer, a lenha precisava ser cortada, a água buscada no poço, os animais alimentados e ordenhados, os celeiros reparados antes que a chuva entrasse. Se somarmos apenas meia hora diária dessas tarefas “invisíveis” (vamos ser bem cínicos, já que meia hora não dá pra fazer nenhuma dessas coisas) ao cálculo de Schor, chegamos imediatamente à média americana apontada por ela, e o argumento de que trabalhamos mais que o servo medieval desmorona antes de sair da introdução. Isso sem contar a mão de obra doméstica feminina, historicamente excluída de toda contagem de horas trabalhadas, como se cozinhar, costurar, cuidar de crianças e fabricar velas fossem atividades que se fazem sozinhas.

Vale registrar que The Overworked American não é um estudo neutro: é uma obra com tese explicitamente crítica ao Capitalismo Moderno, e o apelo à Idade Média serve de contraponto retórico. O paradoxo é que justamente o Capitalismo Industrial – com todos os seus defeitos reais e documentados – foi o processo histórico que reduziu de forma drástica a carga de trabalho humano. Não por bondade dos patrões, evidentemente, mas pela combinação de tecnologia que substituiu esforço físico, aumento de produtividade que gerou excedente suficiente para sustentar direitos trabalhistas, e, ao longo do século XX, negociações coletivas que foram arrancando conquistas – férias, limite de jornada, descanso semanal remunerado. Trabalhar oito horas por dia em condições minimamente dignas não é uma herança feudal. É uma conquista histórica relativamente recente, e cara.

Una-se a isso o fato que as indústrias nas capitais estavam recebendo trabalhadores que fugiram dos campos por causa das condições péssimas de sobrevivência. O trabalhador rural no século XIX não era alguém cultivando uma hortinha. Era preciso muito trabalho e correr o risco de ter sua plantação atacada por pragas, como aconteceu com os irlandeses durante a Grande Fome na Irlanda. Assim como nessa época, os trabalhadores rurais não eram donos da terra nas quais trabalhavam. Nenhum deles!

Para entender a profundidade do problema, vale distinguir dois conceitos que se confundem: feudalismo e servilismo não são sinônimos. O feudalismo é o sistema político e econômico de organização da sociedade medieval, baseado na hierarquia de suseranos e vassalos, na posse da terra como fundamento do poder e na obrigação militar como contrapartida. O servilismo (ou servidão da gleba) é uma condição jurídica específica dentro desse sistema: o servo estava legalmente vinculado à terra e ao senhor, não podendo se mover, casar ou morrer sem implicações contratuais. Era uma forma de semi-escravidão institucionalizada, sem a brutalidade jurídica formal da escravidão clássica, mas sem a liberdade de qualquer trabalhador moderno.

E mesmo depois que o servilismo foi cedendo espaço, ao longo dos séculos XIV e XV (acelerado, ironicamente, pela Peste Negra, que escasseou a mão de obra e deu algum poder de barganha aos sobreviventes), as condições de vida melhoraram de maneira modesta e lenta. Nada que se compare ao salto promovido pela Revolução Industrial e pelas transformações sociais subsequentes.

Mas suponhamos, por generosidade intelectual, que o camponês realmente trabalhasse menos. O que ele fazia com esse tempo livre? Relaxava? Filosofava? Organizava festivais de poesia trovadoresca? Não exatamente. Vivia sob uma estrutura de obrigações que tornaria qualquer advogado trabalhista moderno ir a pé a Santiago de Compostela de joelhos. O servo – ou vilão, termo derivado do latim villanus (de villa), que rapidamente adquiriu conotação pejorativa, numa singeleza histórica que diz muito – não era exatamente escravo, mas também não era livre. Pertencia ao feudo do seu senhor, e pagava aluguel em trabalho ou em espécie: parte da colheita, cabeças de gado, dias de labor nos campos do nobre antes de poder cuidar dos próprios. E esses campos do senhor tinham prioridade absoluta – colhia-se a terra do senhor primeiro, mesmo que uma tempestade se aproximasse da sua própria plantação.

Às obrigações fundiárias somavam-se taxas de uma criatividade tão notável que faria muitos ministros da Economia atuais pegarem o bloco e começarem a anotar dizendo “como não pensei nisso antes?”. Havia o dízimo para a Igreja (dez por cento da produção, com a alegre informação de que recusar seria arriscar a alma). Havia a taxa para usar o moinho do senhor, outra para usar o forno comunal, mais uma para usar a prensa de cidra. Quando a filha do servo se casava, pagava-se a merchet. Quando o servo morria e o filho assumia a propriedade, pagava-se a heriot, geralmente na forma do melhor animal da família. Em tempos de guerra ou crise, o rei podia decretar o poll tax, cobrado por cabeça do agregado doméstico. Calculando tudo, um servo podia transferir até cinquenta por cento de sua produção ao senhor, mais dez por cento à Igreja; isso sem contar as obrigações extras de reparar estradas, pontes e fossos, ou qualquer outra coisa que o manda-chuva local decidisse exigir naquela manhã.

E os nobres, afinal? Esses ao menos viviam bem, descansando sobre sua herança enquanto os camponeses suavam, certo? Não necessariamente. Administrar um feudo era um trabalho administrativo de tempo integral: organizar a coleta de impostos, julgar disputas entre servos, manter a ordem, responder às demandas do suserano acima e ao próprio rei, que também tinha os seus próprios coletores de impostos indo bater à porta do senhor feudal. O treinamento militar começava na infância, se preparando por anos a fio em exercícios físicos extenuantes, manejo de cavalos e armas, até que estivessem em condições de combater (não necessariamente sendo sagrados cavaleiros, mas agiam como tais); armaduras e armas eram caríssimas, pois era trabalho de artesão altamente habilidosos, e quando não se tinha dinheiro para isso, era na cara e na coragem.

A Idade Média não era exatamente pobre em guerras, e o cavaleiro montava o seu cavalo (pago ou criado em seus currais às suas expensas) com armadura e combatia a serviço de seu rei, que efetivamente não tinha exército próprio. Isso era tão heroico quanto terrivelmente cansativo e frequentemente letal.

E havia ainda uma ironia particular reservada aos filhos das grandes casas: ser filho de um poderoso senhor de terras não garantia absolutamente nada além do primeiro lugar na fila do primogênito. As leis de herança da época, baseadas no princípio da primogenitura, determinavam que tudo – terras, título, rendimentos, castelo – ficava com o filho mais velho. Os demais herdavam o sobrenome e pouco mais. Caberia a eles encontrar seu próprio caminho, o que na prática significava uma de três opções: seguir a carreira eclesiástica (a Igreja era o grande empregador de filhos excedentes da nobreza), tornar-se peão em algum arranjo político entre famílias, ou partir em busca de fortuna em outro lugar.

Os casamentos entre casas nobres raramente eram assunto do coração, mas contratos diplomáticos disfarçados de cerimônia: um jovem desta família desposa uma jovem daquela, e com isso duas potências locais prometem não se degolar mutuamente por uma geração, enquanto unem terras e recursos. Para os filhos sem herança que não queriam uma batina nem uma esposa negociada, restava a aventura armada. Não por acaso, as Cruzadas foram também um grande programa de recolocação profissional para nobres secundogênitos: a promessa de terra e riqueza no Oriente era suficientemente sedutora para convencer gerações de jovens europeus a atravessar o Mediterrâneo em nome de Deus e da ascensão social. Alguns conseguiram. A maioria não voltou para contar. A ideia do nobre ocioso é quase tão mítica quanto a do camponês feliz.

Voltando ao campo, o problema da alimentação se somava ao quadro. É verdade que os trabalhadores agrícolas consumiam grandes quantidades de calorias, necessidade do esforço físico intenso. Mas a dieta era monótona ao ponto da depressão: mais de cinquenta por cento das calorias vinha de grãos, carne era rara até o século XV, e especiarias eram luxo inacessível; caso você não tenha entendido, carne era artigo de luxo e voltado para o Primeiro e Segundo Estados, pobre só comia carne quando mordia a língua ou algumas galinhas. Carne de caça, nem pensar! No inverno, frutas e vegetais frescos desapareciam, provocando surtos de escorbuto. E a ameaça permanente da fome não era abstrata: somente na Inglaterra, entre 1210 e 1350, estima-se que 23 dos 140 anos registraram colheitas ruins, com metade desses episódios resultando em escassez generalizada.

A expectativa de vida arrematava o quadro com uma crueldade estatística direta. Na Inglaterra do século XIV, quem chegasse aos 25 anos poderia esperar viver até os 50, 31 anos a menos do que os ingleses de hoje. A mortalidade infantil era altíssima. Tuberculose, disenteria, pneumonia, o “Fogo de Santo Antônio” (ergotismo causado por um fungo no centeio, que provocava gangrena seca e poderia amputar membros sem bisturi) e, é claro, a Peste Negra, que no século XIV matou entre um terço e metade da população europeia, compunham o cardápio médico disponível.

Ah, sim! Era um mundo que não tinha antibióticos, e um cortezinho no dedo podia ser fatal! Dizer que o camponês medieval era mais saudável que um adulto contemporâneo é o tipo de afirmação que só pode ser feita por alguém extremamente urro ou extremamente desonesto. Eu até diria ambos!

Tudo isso, claro, não invalida o debate sobre qualidade de vida e horas de trabalho na modernidade. Há argumentos legítimos sobre a erosão do tempo livre, a pressão produtivista e a falta de férias remuneradas em vários sistemas trabalhistas. Mas esses argumentos não precisam de um camponês medieval como mascote.

O debunking do mito de Schor, é importante frisar, não diz apenas que ela errou sobre o americano médio. Diz que errou sobre qualquer trabalhador do mundo moderno, porque o parâmetro medieval, quando examinado com honestidade, não é um sonho perdido: é um patamar do qual a humanidade se levantou com custo enorme. Usar a Idade Média como prova de que “antes era melhor” é um daqueles raciocínios que começa com um dado real, passa por vários atalhos e chega a uma conclusão que o dado original jamais autorizou.

O servo medieval tinha mais feriados formais? Talvez, e isso varia de país para país. Entretanto, o homem medieval também tinha mais fome, menos direitos, mais doenças, mais obrigações e uma expectativa de vida que faria qualquer plano de previdência feliz da vida.

A nostalgia é um direito humano, mas ela fica mais honesta quando acompanhada de contexto.

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