Os Cachorros Azuis de Chernobyl

Desde os anos 1960, as histórias em quadrinhos estabeleceram uma fórmula narrativa irresistível: radiação transforma o comum em extraordinário. Bruce Banner vira o Hulk depois de ser bombardeado por raios gama. Peter Parker ganha seus poderes por causa de uma aranha radioativa. O Quarteto Fantástico é exposto a raios cósmicos no espaço. A mensagem era clara: pegue um ser vivo comum, adicione radiação, mexa bem e pronto: superpoderes garantidos! Então, quando fotos de cachorros completamente azuis circulando pela Zona de Exclusão de Chernobyl começaram a viralizar na internet em outubro de 2025, a reação coletiva foi exatamente o que décadas de cultura pop nos condicionaram a pensar: “Pronto, a radiação finalmente criou mutantes de verdade!”

Se em algum lugar do planeta cachorros azuis radioativos fariam sentido, seria em Chernobyl, por motivos que eu acho que não preciso explicar. Dá até para entender o entusiasmo; o problema? A explicação real é simultaneamente mais mundana e mais nojenta do que qualquer ficção científica conseguiria imaginar. Continuar lendo “Os Cachorros Azuis de Chernobyl” →

Quando o Sol está de mau-humor e dá um lembrete quem manda por aqui

Maio de 2024. Uma parte do Sol simplesmente explodiu. Não foi uma explosão qualquer, daquelas que você vê em filme B de ficção científica. Por alguns dias, bolhas magnéticas carregadas com bilhões de toneladas de plasma viajaram pelo espaço a velocidades 6.000 vezes maiores que um jato comercial, até colidirem com o campo magnético da Terra. O resultado? Auroras espetaculares visíveis em lugares onde auroras não deveriam existir, alguns satélites perdidos, agricultores americanos lamentando US$ 500 milhões em prejuízos e, claro, milhões de fotos no Instagram.

Mas aqui está o detalhe que deveria nos tirar o sono: essa tempestade solar foi uma das mais intensas em 20 anos, e ainda assim foi fichinha perto do que o Sol já nos aprontou antes. E perto do que pode aprontar de novo. Continuar lendo “Quando o Sol está de mau-humor e dá um lembrete quem manda por aqui” →

Quando o pulmão não funciona, apele pro bumbum

Existe um momento na carreira de todo cientista em que ele precisa se perguntar: “Será que isso é genialidade ou loucura?”. Bem, na certa vocês me perguntariam até que ponto a pesquisa iria. “Simples”, responderia eu. Um pesquisador da Universidade de Osaka teve a epifania quando decidiu investigar se humanos poderiam, em caso de emergência, respirar pelo traseiro. Não, isso não é trama de filme trash de ficção científica dos anos 80, embora devesse ser. Continuar lendo “Quando o pulmão não funciona, apele pro bumbum” →

El Cocuy: O Coração de Boyacá

Aninhado no alto das montanhas andinas, no departamento de Boyacá, El Cocuy é um desses lugares onde a beleza é quase indizível, onde o tempo respira devagar. Localizado a cerca de 300 km ao norte de Bogotá, a capital da Colômbia, esse pequeno povoado parece ter sido retirado de um sonho. O caminho até lá é uma viagem no tempo — a estrada serpenteia por paisagens deslumbrantes, onde a natureza se exibe em sua forma mais pura e selvagem. Ali, em cada curva, o olhar se perde, mas o coração se encontra. Continuar lendo “El Cocuy: O Coração de Boyacá” →

Artigos da Semana 277

O dia hoje amanheceu chuvoso, pelo que agradeço. Além de não estar muito calor, tenho bons motivos para não sair de casa (se bem que o melhor motivo é que além de não ter nada de interessante fora de casa, ainda é cheio de… gente). Então, enquanto me deleito com um chocolate quente, sem sair da cama, vejamos o que foi publicado ao longo desta semana.

E não estou nem ai se rimou ou não.

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Gengibre, exorcismo e uma deidade viajante no seu corpo: o kit médico do Japão Medieval

Quando você vai ao médico hoje, existe um acordo tácito sobre o que esperar: exames de sangue, talvez uma receita de antibióticos, no máximo uma recomendação para cortar o glúten. O que definitivamente não está no cardápio é um exorcismo, uma consulta astrológica ou a informação de que você precisa adiar o tratamento porque uma deidade está passeando pela sua coxa esquerda neste dia; mas nem sempre foi assim. E para entender o quão diferente as coisas já foram, precisamos voltar mil anos no tempo e atravessar o planeta até chegar ao Japão do período Heian. Continuar lendo “Gengibre, exorcismo e uma deidade viajante no seu corpo: o kit médico do Japão Medieval” →

O avião que foi ao Espaço sem querer e voltou para contar a história

Em 1983, Hollywood nos presenteou com Starflight One (Rota de Perigo, em português), um telefilme baseado no romance “Orbit” de Thomas H. Block. A premissa era deliciosamente absurda: um avião hipersônico comercial acidentalmente acaba na órbita terrestre durante seu voo inaugural. O filme era tão inverossímil que os críticos da época o chamaram de “Airport ‘85”, repleto de clichês de filmes de desastre e impossibilidades científicas hilariantes, como lançar o ônibus espacial Columbia três vezes em 24 horas, algo que demoraria semanas na vida real e usarem um caixão para o engenheiro passar de uma nave para outra (o caixão tem um buraco e ele tampa com o dedo, só para coroar a insânia).

A ficção pode parecer absurda às vezes. Mas do Além a voz de Tom Clancy ressoa dizendo “A ficção precisa fazer sentido, a Realidade, não”. 20 anos antes desse filme B ser filmado, algo igualmente absurdo – porém completamente real – já havia acontecido com o piloto Joe Walker em 19 de julho de 1963. Continuar lendo “O avião que foi ao Espaço sem querer e voltou para contar a história” →

O chumbo que moldou nossos cérebros

Imagine descobrir que você ganhou uma loteria evolutiva há milhares de anos, e o prêmio foi uma mutação genética que te protege de envenenamento por chumbo enquanto seus primos distantes (os Neandertais, mas eu não precisava dizer, né?) não tiveram a mesma sorte. Agora imagine que essa mutação aparentemente banal pode ser a razão pela qual você está aqui lendo este texto em vez de extinto há 40 mil anos. Bem-vindo ao mais recente plot twist da Evolução Humana, cortesia de um estudo internacional que está reescrevendo nossa compreensão sobre o que nos tornou… bem, nós. Continuar lendo “O chumbo que moldou nossos cérebros” →

Elucubrações sobre o esperneio a respeito de uma escada

No vetusto ano de 2009, eu postei um artigo analisando, criticando e escrutinando a Escada de Loretto. Esta escada tem uma peculiaridade mística… ou é assim que a apresentam. Situada em um povoado localizado em Santa Fé, no Novo México esta escada fica uma capela recém-construída, e em 1878, as freiras perceberam que não havia como chegar ao coro, o pavimento superior. Elas passaram nove dias numa novena para São José. A história prossegue com um misterioso homem batendo à porta da capela no último dia. Disse que era carpinteiro e que poderia dar conta da tarefa. Ele construiu, sem ajuda de ninguém, e a escada que é considerada um prodígio de carpintaria: ninguém sabe como ela ficou de pé.

Terminado o trabalho, o homem que sumiu! E aqui começa o mito da Escada de Loretto, uma escada mística, mágica, incrível. Por algum motivo, as pessoas estão vindas às torrentes, 16 anos depois, desesperadas porque eu apontei que nada daquilo fazia sentido. Continuar lendo “Elucubrações sobre o esperneio a respeito de uma escada” →

O dia em que a Terra olhou para si mesma pela primeira vez

Imagine que você nunca viu seu próprio rosto. Nem em espelho, nem em fotografia, nem mesmo refletido na superfície de um lago. Você sabe que existe, sente sua presença, mas jamais contemplou sua própria imagem. Foi exatamente essa a condição da humanidade até 12 de maio de 1959, um dia aparentemente comum que, sem muito alarde, nos concedeu algo extraordinário: a possibilidade de ver nosso próprio planeta em movimento, volitando no vazio cósmico como uma bolinha azul girando ao sabor do Infinito e Além. Continuar lendo “O dia em que a Terra olhou para si mesma pela primeira vez” →